Sabemos que a ansiedade é uma emoção natural do desenvolvimento humano e pode estar presente em diferentes fases da infância. No entanto, quando se torna intensa ou persistente, pode interferir diretamente no processo de aprendizagem. Crianças ansiosas tendem a apresentar maior dificuldade de concentração, insegurança para realizar tarefas e medo excessivo de errar. Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, “as emoções influenciam diretamente o funcionamento do cérebro e podem interferir na atenção, memória e capacidade de tomada de decisão”, fatores essenciais para o aprendizado escolar.
Como psicopedagoga, tenho observado algo que merece muita atenção: muitas crianças com ansiedade acabam sendo confundidas com outros transtornos e, em alguns casos, até recebem diagnósticos e medicações para TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), TDM (Transtorno Depressivo Maior) ou TEA (Transtorno do Espectro Autista) sem que a ansiedade seja devidamente investigada.
Por isso escrevi este texto com muito carinho para vocês, famílias. A intenção é que possam observar suas crianças com mais atenção, acolhendo seus comportamentos, emoções e mudanças no dia a dia.
No ambiente escolar, a ansiedade pode se manifestar de diferentes maneiras. Algumas crianças evitam participar de atividades, outras falam demasiadamente, não conseguem ficar sentadas por muito tempo, outras demonstram bloqueios diante de provas ou tarefas escritas e podem apresentar sintomas físicos, como dor de cabeça, dor de barriga ou choro frequente antes de ir à escola. De acordo com o psiquiatra infantil Içami Tiba, autor do livro Quem Ama, Educa!, o excesso de pressão ou expectativas elevadas pode gerar insegurança e prejudicar o desenvolvimento emocional da criança. Em suas palavras, “educar exige equilíbrio entre limites e acolhimento”, pois a criança precisa sentir-se segura para aprender.
A psicologia do desenvolvimento também demonstra que emoção e cognição estão profundamente conectadas. A psicóloga brasileira Yolanda Cintrão Forghieri destacou em suas obras sobre psicologia fenomenológica que a aprendizagem ocorre dentro de um contexto emocional e relacional. Quando a criança se sente compreendida e acolhida, ela tende a desenvolver maior confiança para explorar novos conhecimentos e enfrentar desafios cognitivos.
Diversos estudos também apontam que a ansiedade pode afetar diretamente funções cognitivas importantes para o aprendizado, como memória de trabalho, atenção e organização do pensamento. No livro Mentes Ansiosas, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva explica que níveis elevados de ansiedade ativam mecanismos de alerta no cérebro que podem dificultar o raciocínio e a aprendizagem. Por isso, muitas crianças que apresentam ansiedade não possuem dificuldade intelectual, mas enfrentam bloqueios emocionais que impactam seu desempenho escolar.
Crianças com ansiedade podem apresentar insônia, inquietação corporal e até comportamentos de autorregulação, como mexer nas partes íntimas, roer unhas, c comer objetos estranhos, balançar o corpo… Esses comportamentos não necessariamente têm conotação sexual, mas podem representar uma tentativa do organismo de aliviar tensão interna. Além disso, outros sinais também podem aparecer no cotidiano escolar e familiar.
Alguns sintomas comuns de ansiedade infantil incluem:
Insônia ou dificuldade para dormir.
Mexer frequentemente nas partes íntimas ou realizar comportamentos repetitivos de autorregulação.
Irritabilidade ou explosões emocionais sem causa aparente.
Dificuldade de concentração nas atividades escolares.
Queixas físicas frequentes, como dor de barriga ou dor de cabeça.
Medo excessivo de errar ou de ser repreendido.
Evitar atividades sociais ou escolares.
Esses sinais geralmente aparecem porque a criança está enfrentando gatilhos emocionais ou situações que geram sensação de ameaça ou insegurança. O cérebro infantil ainda está em desenvolvimento e, quando percebe algo como perigoso ou incerto, pode ativar mecanismos de defesa que se manifestam como ansiedade.
Alguns gatilhos comuns de ansiedade em crianças incluem:
Medo da morte ou de perder pessoas importantes.
Separação dos pais ou familiares.
Mudança de cidade ou de escola.
Medo de errar ou de não corresponder às expectativas.
Medo de expor suas dificuldades ou fragilidades em público.
Conflitos familiares ou discussões frequentes em casa.
Pressão excessiva por desempenho escolar.
Bullying ou rejeição por colegas.
Ambientes muito rígidos ou punitivos.
Mudanças bruscas na rotina.
Experiências traumáticas ou assustadoras.
Sensibilidade sensorial a barulho, luz ou aglomeração.
Exposição excessiva a notícias, jogos, filmes ou conteúdos assustadores.
Compreender esses sinais é fundamental para que pais e educadores possam acolher a criança e buscar apoio profissional quando necessário, evitando que a ansiedade interfira de forma significativa no desenvolvimento emocional e no processo de aprendizagem
Diante disso, torna-se fundamental que pais, professores e profissionais da educação estejam atentos aos sinais emocionais apresentados pelas crianças. Quando a ansiedade é identificada precocemente, é possível oferecer apoio adequado e criar estratégias que favoreçam um ambiente de aprendizagem mais seguro e acolhedor. Como lembra Augusto Cury em suas reflexões sobre educação emocional, “educar é também ensinar a lidar com as emoções”. Ao integrar cuidado emocional e estímulos cognitivos, é possível promover um desenvolvimento mais saudável e favorecer o potencial de aprendizagem de cada criança. Até a próxima!
Psicopedagoga Juliana Rauzer
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