03/02/2014 10h00
Texto de Rogério Fernandes Lemes
Por: Dora Nunes
Preocupado com os protestos durante a Copa de 2014, o ícone do futebol brasileiro e mundial, Pelé, fez um apelo para sermos conscientes e, no mínimo, sensatos. Para o ‘rei’, esse tipo de manifestação contra a corrupção dos “políticos”, nada tem a ver com futebol que, aliás, os brasileiros deveriam ter mais orgulho desse esporte. Afinal, o futebol traz divisas para o Brasil.
Quando vi essa manchete postada em uma rede social pensei ser mais um sarcasmo típico do povo brasileiro, “que não desiste nunca” e que curte muito rir dos casos de corrupção no país.
Bastou uma pesquisa em um dos vários robôs de busca para constatar ser verídica a informação. “Espero que a gente tenha essa consciência: deixar passar a Copa do Mundo. Aí vamos reivindicar o que os políticos estão roubando ou desviando. Isso é outra coisa. O futebol só traz divisas e só traz benefício para o Brasil”.
Obviamente que, uma afirmação dessas, me fez pensar. Primeiramente, que tipo de “consciência” o ‘rei’ requer de seus súditos? Só se for a reprodução da alienação. Em segundo, deixar passar a Copa do Mundo porque esse evento não tem nada a ver com a corrupção? Como assim? Será que mais uma vez o ‘espetáculo’ amortecerá uma excelente oportunidade de mostrar para o mundo, o quanto somos atrasados enquanto nação?
Quais os benefícios que o futebol trouxe ao país e que refletiram na formação crítica dos brasileiros? Em eventos grandiosos como esse a exploração sexual infanto-juvenil, por exemplo, é um mercado lucrativo, sem falar no consumo das drogas ilegais.
De acordo com Pelé, as manifestações de brasileiros minimamente ponderados, prejudicam as “festas”. Com todo respeito ao ilustre filho da Pátria, é justamente a ausência de manifestações reivindicatórias e organizadas, politicamente, que potencializa a cultura da corrupção. Talvez outra pergunta seja importante para nos fazer pensar um pouco: uma nação pobre e atrasada que motivo teria para festejar?
Disse ainda que o Brasil terá três “eventos maravilhosos” responsáveis em “encher” o país de turistas com seus “benefícios”. O que se sabe é que eventos como esse causam mais prejuízos aos cofres públicos do que qualidade de vida para as pessoas. Na concepção do ‘rei’, “a conquista da seleção brasileira amenizou as manifestações” em junho de 2013. Será que ele se refere às mesmas manifestações?
Concluiu a entrevista com o seguinte jargão: “A sorte é que Deus é brasileiro, e o Brasil foi campeão. Aí sossegou um pouco”. Sinceramente, não deu para ficar estupefato apenas. Uma coisa é certa: os “eventos maravilhosos” acontecerão no Brasil sim, de qualquer maneira, uma vez que a grande maioria dos brasileiros se preciso for, fará financiamentos para adquirir ingressos e gritar “gooool”, como se isso fosse a grande motivação em ser “brasileiro”.
A pós-modernidade tem essa característica em dar visibilidade expressiva para todas as pessoas, assim como eu. Porém, as pessoas deveriam, pelo menos, elaborar um discurso minimamente coerente. O tempo de protestar, manifestar, reivindicar ou qualquer outra ação civil organizada em prol do país é agora! É no nosso tempo.
Talvez os brasileiros sejam especialistas em estragar, há muito tempo, essa grandiosa festa que é o Brasil, justamente por não participar da vida política do país; por se importar mais com as futilidades subjetivas e com a inutilidade das novelas e tantos outros lixos culturais produzidos. Passaram-se quinhentos anos desde o descobrimento do Brasil, será que não houve festa demais com os recursos públicos? Devemos esperar mais?
Que tipo de brasileiro daria ouvidos ao pedido do ‘rei’? Será que não estragamos o Brasil com o “jeitinho brasileiro”? Será que pelo fato de “ser brasileiro e não desistir nunca” é necessário reproduzir, pacificamente, a ideologia do “pão e do circo”?
Senhor Pelé e tantos outros “inocentes úteis”, a gente não quer só comida e diversão; desejamos a liberdade. Os tempos são outros e faz-se necessário mudar o repertório.
Se for para manifestar contra toda forma de corrupção e contra os gastos abusivos na preparação dos “eventos maravilhosos”, queremos sim, estragar toda e qualquer festa imoral com o dinheiro público.


