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quarta-feira, 8 de julho, 2026

ARTIGO: O caixa escondido no agro antes da Reforma Tributária

A Reforma Tributária costuma ser tratada como um assunto de futuro. No agronegócio, esse é um erro perigoso. A mudança já começou a alterar a forma como produtores, agroindústrias, cooperativas e empresas familiares precisam enxergar caixa, crédito, margem e competitividade. 

Quando se fala em CBS, IBS, fim do PIS e da Cofins ou nova lógica de créditos, muitos empresários tendem a imaginar que o impacto real virá apenas quando o novo sistema estiver plenamente implementado. Mas, na prática, a transição já impõe uma pergunta imediata à liderança do agro: a empresa sabe exatamente quais créditos tributários tem, quais valores pode recuperar e quais riscos corre se deixar essa revisão para depois? 

A dimensão desse tema é muito maior do que parece. Segundo a Receita Federal, cerca de 100 mil empresas possuem créditos de PIS/Cofins, com volume total estimado em R$ 140 bilhões. Esse número mostra que o capital pode estar dentro da própria operação, muitas vezes sem a visibilidade necessária para ser transformado em caixa, compensação ou previsibilidade financeira. 

Esse diagnóstico é especialmente relevante para empresas familiares do agronegócio que cresceram rápido. Em muitas delas, a operação avançou antes da estrutura. A empresa aumentou faturamento, expandiu área, investiu em tecnologia, ampliou a produção, comprou mais insumos, sofisticou sua logística e passou a operar em mercados mais competitivos. Mas a gestão fiscal, em alguns casos, continuou funcionando como uma área de rotina, focada em guias, obrigações acessórias e cumprimento de prazos. 

A raiz familiar não é um limitador. Em muitos casos, é a força motriz da economia regional. O desafio está na transição segura para uma nova fase de maturidade. Embora empresas familiares representem cerca de 90% dos negócios no Brasil, apenas 30% chegam à segunda geração, segundo dados citados pela VEJA. O gargalo surge quando o negócio ganha escala sem avançar na mesma medida em governança, planejamento sucessório e estruturação tributária. Nesse cenário, a informalidade decisória passa a cobrar uma conta alta, convertendo falhas de organização em perda de margem, ineficiência operacional e limites concretos ao crescimento. 

O levantamento “Raio-X do Empresariado Brasileiro”, da Valestrá, baseado em 577 contratos firmados com empresas de Lucro Real e Lucro Presumido entre janeiro e março de 2026, identificou uma concentração relevante de demandas ligadas a liquidez, recuperação de eficiência e reforço de caixa. Ao todo, 64% da demanda observada esteve ligada a esse eixo, com destaque para revisão fiscal e previdenciária, responsável por 50%, e Bônus de Adimplência Fiscal, com 14%. 

Esse dado ajuda a explicar por que o tema é tão sensível para o agro. Em um ambiente de crédito mais caro, margens pressionadas e maior exigência de previsibilidade, recuperar capital dentro da própria operação pode ser mais estratégico do que buscar dinheiro fora dela. Antes de recorrer ao banco, entregar garantias e aceitar juros elevados, muitas empresas deveriam se perguntar se não possuem créditos próprios, já constituídos pela sua atividade, mas ainda não identificados, organizados ou aproveitados. 

Crédito tributário, dito de forma simples, é um valor que pode pertencer à empresa porque, ao longo do tempo, ela pagou tributos a maior, não aproveitou corretamente determinados créditos ou foi impactada por mudanças de interpretação na legislação, na Receita Federal ou nos tribunais. Em setores complexos, como agroindústrias, comércio de insumos, biodiesel, alimentos, cooperativas e cadeias integradas, essa análise ganha ainda mais importância. 

A recente decisão do Superior Tribunal de Justiça sobre o direito ao crédito de PIS e Cofins na aquisição de soja em grão para produção de biodiesel é um exemplo emblemático. O caso mostra como uma mudança de entendimento pode transformar uma discussão aparentemente técnica em oportunidade concreta de caixa e competitividade. 

A Reforma Tributária torna essa reflexão ainda mais urgente porque encerra um ciclo. Até 31 de dezembro de 2026, empresas ainda poderão identificar e constituir créditos de PIS e Cofins conforme as regras atuais. Os créditos existentes ao final de 2026 poderão ser mantidos e utilizados no novo sistema, seja por meio de compensação com a CBS, seja via ressarcimento ou compensação com outros tributos federais. A janela, portanto, não é apenas técnica. Ela é estratégica. Quem não revisar agora pode perder capacidade de organização em um momento decisivo da transição. 

No agronegócio, o desafio é duplo. De um lado, há créditos passados que precisam ser diagnosticados, escriturados corretamente e estruturados para uso. De outro, há uma nova lógica que exigirá mais controle documental, rastreabilidade, integração entre áreas e visão estratégica sobre a cadeia. A reforma altera a forma como o crédito nasce, circula e impacta a competitividade entre produtores, agroindústrias e compradores. 

Um ponto central está no enquadramento do produtor rural. A regulamentação da Reforma Tributária prevê tratamento específico para produtores com faturamento anual de até R$ 3,6 milhões, que não serão considerados contribuintes regulares de IBS e CBS, embora possam gerar crédito presumido para seus adquirentes. Já produtores acima desse patamar entram em outra lógica de apuração. Para cooperativas, agroindústrias e empresas que compram de diferentes perfis de produtores, essa diferença pode afetar preço, negociação, fluxo de caixa e tomada de decisão. 

Para a liderança do agro, a reforma é questão estratégica. O que está em jogo é a capacidade da empresa de preservar caixa, manter competitividade, revisar contratos, ajustar sistemas, organizar documentos, proteger margens e crescer sem carregar ineficiências históricas para dentro do novo modelo. 

A empresa que deixar para fazer essa revisão apenas quando o novo sistema estiver em plena operação provavelmente encontrará menos tempo, mais rigidez e menor margem de correção. Já a empresa que começar agora poderá transformar a transição em uma oportunidade de organização. Isso passa por diagnóstico, revisão de créditos, análise de regimes, avaliação de riscos, planejamento financeiro e integração entre fiscal, jurídico, contabilidade, operação e liderança. 

No Nordeste, onde o agronegócio tem regiões de enorme dinamismo, como o Oeste da Bahia, esse debate ganha contornos ainda mais concretos. Muitas empresas cresceram em velocidade superior à sua estrutura interna. Produzem mais, vendem mais, empregam mais e movimentam cadeias inteiras, mas ainda não olham para a gestão tributária com o mesmo rigor com que olham para produtividade, tecnologia no campo ou expansão territorial. 

Estamos diante de uma decisão que irá separar aqueles que postergarem daqueles que se prepararem, indo além de entender a nova alíquota para saber onde há dinheiro parado, onde há risco escondido e onde a gestão pode transformar complexidade fiscal em decisão empresarial. 

Por fim, a oportunidade está na mesa para aqueles que agirem agora, olhando para dentro de casa e melhorando processos, tributos e visibilidade operacional e fiscal para ganhar vantagem no novo cenário tributário. 

Por Thiago Almeida, diretor da unidade Salvador da Valestrá