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domingo, 18 de outubro, 2026

As eleições e as pesquisas: podemos prever o futuro?

Por: Virgilio Marques do Santos

Lula ou Bolsonaro? Terceira via? Tebet? Ciro? Daciolo? Pesquisas mostram que dá Lula. Como uma pesquisa pode ser verdade se eu nunca fui ouvido? Como perguntar para 2 mil pessoas ajuda a entender o Brasil? Isso é mentira. Deixa disso, pesquisas são registradas no TSE. O padrão é rigoroso e repercute a verdade. Será? Sim? Não? Enfim, se a coisa está confusa, venha conosco que vamos ajudar a desanuviar-lá. Afinal, conceitos sólidos e linguagem simples são parte fundamental de nosso propósito.
Para começar, gostaria de voltar no tempo: agosto de 2018. Como estava o cenário eleitoral há exatos 4 anosatrás? Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha e divulgada no dia 22/8/2018, o cenário era o seguinte:
●    Lula: 39%●    Bolsonaro: 19%●    Marina Silva: 8%●    Geraldo Alckmin: 6%●    Ciro Gomes: 5%
Havia o Álvaro Dias, Amoêdo, Boulos, Daciolo, Vera, João Goulart Filho e o Meirelles, somando 6%. Brancos e nulos, 11%; não sabem, 3%. Como foi o resultado das eleições no 1º turno?
●    Bolsonaro: 46%●    Haddad: 29,28%●    Ciro Gomes: 12,47%●    Geraldo Alckmin: 4,76 %●    Amoêdo: 2,5%●    Daciolo: 1,26%●    Meirelles: 1,2%
Branco e nulos, 8,8%; abstenções, 20%. Para facilitar a comparação, optou-se pela construção da tabela 1, corrigindo os dados da pesquisa para votos válidos.
As eleições e as pesquisas: podemos prever o futuro?
Tabela 1: Comparativo entre a pesquisa Datafolha estimulada em agosto/2018 e o resultado dos votos válidos na eleição
Pela Tabela 1, pode-se notar a aceleração do Bolsonaro nos 2 meses de campanha. Ele cresceu 23% em 2 meses, o que é notável. Já o PT, ao trocar Lula por Haddad, teve uma queda de 17%. Agora, qual foi o fluxo de migração de votos? Essa resposta é impossível de ser dada baseando-se em fatos e dados. Poderíamos, claro, elaborar hipóteses de impossível validação. Por exemplo, imaginando que os votos de Marina Silva possam ter migrado para o Ciro, ou até para o Bolsonaro. Entretanto, deixemos a conjectura para os especialistas.
O que os dados trazem é uma certeza de que o Lula possui 17% de eleitores que, na ocasião, não transferiram seus votos ao PT. A relação de confiança é pessoal, o que ajuda a explicar um pouco da estratégia dele nesse ano. Toda vez que é indagado sobre planos ou projetos, recorre-se ao histórico e formula sua fala em cima da confiança a si, atribuída pelo povo.
Como está o cenário em agosto de 2022?
Segundo a pesquisa Datafolha divulgada dia 18 de agosto de 2022, o cenário encontra-se na tabela 2. Para fins de comparação, colocou-se nessa tabela o cenário de 2018 x 2022. Na pesquisa de 2022, os brancos, nulos, nenhum e não sabe totalizaram 8%. Para termos os votos válidos, iremos dividir os resultados da pesquisa por 0,92 (que é o total – 100% – menos 8% dos “não válidos”), tal como fizemos na comparação de 2018.
As eleições e as pesquisas: podemos prever o futuro?
Tabela 2: Comparativo entre a pesquisa Datafolha estimulada em agosto/2018 e agosto/2022
Pela Tabela 2, pode-se notar a forte polarização tão mencionada. Em 2018, havia 25% dos votos com outros candidatos em agosto; já em 2022, apenas 4,4%. Esse resultado dá a percepção de que a campanha de 2018 ainda não acabou. O embate ainda não acabou.
E, se nada mudar no cenário acerca dos dois principais candidatos, a coisa parece estar cristalizada. Lula traz seus 46% de intenção de voto que possuía em 2018, acrescido de 5% que podem ter se originado do Geraldo Alckmin ou da saída do PT dos holofotes no caso da Lava Jato. Já Bolsonaro, mostra-se 11,8% maior do que estava em 2018 – mas sem pista para decolar até os 46% da eleição.
Digo isso pela sua rejeição e pela pouca disponibilidade de votos livres para a mudança. Já Ciro, na reta final, pode capturar uma parte dos demais candidatos, mas dificilmente chegará aos 12% alcançados em 2018. Portanto, para que possamos presenciar uma mudança nesse cenário, o balanço do barco deverá ser mais forte ainda que 2018, onde o PT perdeu pontos pela inexigibilidade de Lula e o Bolsonaro ganhou pontos pela exposição maior da facada.
Se voltarmos no tempo, acho difícil que alguma eleição no Brasil para presidente tenha tido simultaneamente uma prisão do primeiro colocado e uma tentativa de assassinato do segundo. Se tudo se mantiver na normalidade, mudanças necessárias para uma virada de jogo parecem muito distantes – haja vista que estamos há dois meses com os candidatos praticamente estáveis nas pesquisas eleitorais.
E, para mim, as pesquisas retratam a realidade e sua metodologia é mais do que comprovada. Cuidado com as comparações – e, contudo, se alguém te confrontar com as mudanças de 2018, avalie: foram causas comuns ou causas especiais? Use os seus conhecimentos estatísticos para perguntar: qual a probabilidade do primeiro colocado ser preso novamente e do segundo sofrer um atentado? Fico por aqui.
–Virgilio Marques dos Santos é sócio-fundador da FM2S, doutor, mestre e graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp e Master Black Belt pela mesma Universidade. Foi professor dos cursos de Black Belt, Green Belt e especialização em Gestão e Estratégia de Empresas da Unicamp, assim como de outras universidades e cursos de pós-graduação. Atuou como gerente de processos e melhoria em empresa de bebidas e foi um dos idealizadores do Desafio Unicamp de Inovação Tecnológica.