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sábado, 5 de setembro, 2026

Autistas na política: candidaturas disparam mais de 500% nas eleições

Um fenômeno notável tem marcado a trajetória das eleições no Brasil: o número de candidaturas de pessoas que se declaram autistas registrou um crescimento expressivo, ultrapassando cinco vezes o patamar anterior. Entre as eleições gerais de 2022 e as projeções para 2026, os registros saltaram de 13 para 70, demonstrando uma participação cada vez mais ativa na política brasileira.

Os dados, compilados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revelam uma distribuição diversificada dessas candidaturas. A maioria, 39 postulantes, busca uma cadeira como deputado estadual. Outros 22 aspiram a uma vaga na Câmara Federal, enquanto cinco candidatos concorrem a posições na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Há ainda três candidaturas para o cargo de vice-governador e um para primeiro suplente, evidenciando a abrangência da participação autista em diferentes esferas do poder legislativo e executivo.

Este aumento contrasta com a tendência geral de diminuição nas candidaturas totais. Enquanto em 2022 foram registrados 29.262 pedidos de candidatura, para 2026 a previsão, ainda sujeita a atualizações pelo TSE, aponta para 20.829. Nesse cenário, a ascensão das candidaturas autistas se destaca como um contraponto significativo.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo o Ministério da Saúde, é uma condição neurológica que impacta a comunicação, as interações sociais e os comportamentos. A Associação Americana de Psiquiatria, através do DSM-5, classifica o TEA em diferentes níveis de suporte, reconhecendo que pessoas com níveis de suporte mais baixos, quando adequadamente assistidas, possuem plena capacidade de trabalhar, estudar, desenvolver atividades culturais e físicas, levando uma vida independente e exercendo sua cidadania plenamente.

No universo de candidatos que declararam algum tipo de deficiência à Justiça Eleitoral, totalizando 524, o autismo representa uma parcela expressiva. Dentro desse grupo, as deficiências incluem também física (208), visual (112) e auditiva (59), entre outras. Em 4 de outubro, data do primeiro turno, esses candidatos disputarão a preferência de aproximadamente 1,97 milhão de eleitores com deficiência, um aumento de 42% em relação a 2022.

Simone Alli Chair, presidenta da Associação Vozes Atípicas (AVA) e terapeuta, que milita há 30 anos pelos direitos das pessoas com deficiência, atribui o crescimento das candidaturas à maior visibilidade social que o segmento tem conquistado. Ela aponta que os avanços científicos permitem diagnósticos mais precisos, mas ressalta que o aumento de diagnósticos reflete, em parte, a antiga subnotificação de casos. “Estas pessoas estão chamando cada vez mais atenção”, ponderou Simone.

A ativista observa que o aumento da visibilidade tem levado mais políticos a se aproximarem da causa autista. No entanto, Simone alerta para o risco de instrumentalização eleitoral, onde o interesse real na causa se mistura à busca por votos. “Muitos candidatos não estão interessados em realmente nos ajudar, mas sim em arregimentar eleitores”, critica, relatando que propostas e necessidades da comunidade autista muitas vezes são secundarizadas ou ignoradas após a eleição.

Simone critica a superficialidade de algumas propostas, que priorizam a quantidade em detrimento da qualidade. Ela exemplifica a necessidade de profissionais com formação específica para atender crianças autistas e critica a promessa genérica de ampliação de atendimentos sem a devida qualificação e continuidade do tratamento. “Não adianta prometer que vai construir CAPS ou ampliar o número de atendimentos sem levar em conta a especificidade dos casos e a necessidade de profissionais qualificados”, frisou.

Para o cientista político João Francisco Meira, o crescimento das candidaturas ligadas à neurodiversidade e aos direitos das pessoas com deficiência é uma estratégia de segmentação e diferenciação no cenário eleitoral, especialmente nas eleições proporcionais. “Candidatos proporcionais buscam se diferenciar em meio a centenas, milhares de outros candidatos que oferecem mais ou menos um mesmo cardápio”, explicou Meira.

Ele comenta que a segmentação pode atrair eleitores para além das divisões partidárias tradicionais, funcionando como uma “economia da atenção” e um diferencial narrativo. Meira destaca que, a cada eleição, novos temas ganham visibilidade e impactam as estratégias de campanha. “Na medida em que alguns problemas vão sendo resolvidos ou equacionados, novas preocupações – demograficamente menos densas – passam a receber um olhar diferenciado e entram na agenda política”, concluiu.