“Quando cubro um macaco na mira do meu rifle, ele morre porque Deus quer; se Ele não quisesse, eu errava o alvo.” Virgulino Ferreira da Silva, “Lampião”. Rei do cangaço (bandoleiro) nordestino no início do século XX.
Esta crônica narradas por Prof. Me. Yhulds Giovani Pereira Bueno, por meio de argumentação descritiva os acontecimentos do cotidiano de outros tempos, um rememoração do passado durante a construção e desenvolvimento da região fronteiriça de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero Desde os primórdios da humanidade, os conflitos e a belicosidade engendram parte indissociável do povoamento, do desenvolvimento e da expansão territorial no escopo sociocultural do ser humano. Tais episódios encontram-se perpetuados em documentos e escrituras das mais diversas civilizações e religiões. Longe de se exarar qualquer apologia ou reverência à violência, constata-se, pragmaticamente, que ela integra o cotidiano histórico das populações, tanto no pretérito quanto na contemporaneidade. Igualmente, na região limítrofe da fronteira, os entreveros termo que designa dissensões, altercações e hostilidades constituíram marcas indeléveis desse território.
Por volta da década de 1930, aportou na região fronteiriça um viajante cujas indumentárias indicavam sua procedência do Rio Grande do Sul, imbuído do propósito de aventurar-se por aquelas paragens. Em virtude de sua dialética e de seu comportamento singular, celeremente alcunharam-no de “Barulho”, um autêntico bandoleiro. Sob a ótica lexicográfica, conceitua-se bandoleiro como o indivíduo errante, que abdica de residência fixa e peregrina de um local a outro em busca de entretenimento. Nesse interregno histórico, o fluxo de viajantes na região era fulcral; comitivas e tropeiros ali aportavam para pernoitar e intermediar transações imobiliárias e comerciais. A compra e venda de semoventes, mormente gado bovino e equino, configurava atividade habitual em ambos os lados da fronteira.
“Nem todos os integrantes das comitivas que vinham do Rio Grande do Sul, via Argentina e Paraguai, se dirigiam, logo de chegada, para os campos mato-grossenses, visando à fundação de fazendas. Muitos, pelos mais variados motivos, preferiam acampar no vilarejo de (Punta Porã) Ponta Porã”. Elpídio Reis.

(Inserção do registro fotográfico da década de 1940, Prof. Me. Yhulds Giovani Pereira Bueno: Propriedade pecuária na região de Maemi, adjacente a Rincão de Julho. Arquivo pessoal de Nilza Terezinha / Acervo de seu progenitor, Cabo Ítrio).
Nota sobre o acervo: A imagem supramencionada integra a coleção de Ítrio Araújo dos Santos, notoriamente conhecido como “Cabo Ítrio”, que prestou serviço militar no 11º Regimento de Cavalaria na urbe de Ponta Porã durante a década de 1940. Sendo um entusiasta da arte fotográfica, ele logrou coligir, ao longo dos anos, centenas de valiosos registros iconográficos da área fronteiriça. A princípio, “Barulho” granjeou notoriedade local sob a égide de negociante de gado, equinos e mercadorias diversas. Assumia empreitadas e mantinha-se em constante trânsito, sendo avistado esporadicamente em múltiplos pontos da fronteira. Ocasionalmente, transportava no lombo de sua montaria um fardo volumoso e hermeticamente envolto. Todavia, com o transcorrer do tempo, desvelou-se que o indivíduo espoliava e assassinava os viajantes e tropeiros da região; os volumes que transportava consistiam, em verdade, nos despojos de suas vítimas.
Os cadáveres eram transladados a um poço situado nas cercanias de “Rincão de Julho”. Remanesce desconhecida a autoria da escavação se executada por “Barulho” ou se preexistente, contudo, é incontroverso que o local operava como depósito de ocultação de cadáveres. Durante anos, o facínora logrou êxito em sua trágica e delituosa empresa. Implicado diretamente no abigeato (furto de gado), sua fama de BANDOLEIRO (vocábulo hispânico para designar o ladrão de gado e salteador) disseminou-se, precipitando sua caça pelas “Patrulhas Volantes” da região de fronteira.
Os estancieiros locais há muito nutriam suspeitas acerca de sua conduta, visto que “Barulho” passara a vitimar indivíduos de seu próprio círculo de sociabilidade e confiança. Configurando axioma que inexistam crimes perfeitos, um de seus sórdidos ardis malogrou: foi repelido a tiros em uma pequena estância de propriedade de seu compadre. Na oportunidade, pretextou uma visita cortês, justificativa que se revelou inverossímil dado o horário intempestivo alta madrugada, sob o manto do silêncio e direcionada especificamente às pastagens onde repousava o gado.
Agravando substancialmente a situação do Barulho, o sinistro poço repleto de cadáveres foi descoberto por indígenas nativos daquela jurisdição. O achado causou comoção e alvoroço: verificou-se a presença de dezenas de corpos, alguns depositados há anos. Em razão do adiantado estado de putrefação, tornou-se inviável a exumação da totalidade dos restos mortais. Desse modo, o poço foi lacrado, convertendo-se em sepulcro definitivo daquelas vítimas, em grande parte peripatéticos, viajantes e tropeiros anônimos que por ali transitavam. A indignação sublevou os homens destemidos da região. Proprietários rurais e a peonada arregimentaram forças, constituindo as “Patrulhas Volantes” com o escopo de empreender uma varredura territorial e capturar “Barulho”, então categorizado como um bandoleiro e cuatrero sanguinário.
“Entre os ervateiros paraguaios sempre foram conhecidos como “Patrulha bolante”. Tanto do lado brasileiro como no lado paraguaio a sua missão era esta: prender se possível, ou matar, na fuga”. — SEREJO, Hélio. Pialando… No Mas, p. 81.

(Inserção do registro fotográfico da década de 1940, Prof. Me. Yhulds Giovani Pereira Bueno: Estancieiros voluntários que compunham as célebres “Patrulhas Volantes” na região de Maemi, imediações de Rincão de Julho. Arquivo pessoal de Nilza Terezinha / Acervo do Cabo Ítrio).
No encalço do “facínora”, as Patrulhas Volantes arregimentaram, em determinado dia, mais de duas dezenas de centenas de homens intrépidos para a persecução derradeira. O cerco tático estendeu-se por toda a comarca, configurando uma caçada hercúlea. Ao avistar qualquer contingente da patrulha, “Barulho” travava tiroteios e conseguia esgueirar-se termo que denota o ato de evadir-se sorrateiramente e às ocultas.
O desfecho do estratagema persecutório deu-se nas adjacências da linha fronteiriça, próximo à localidade de Potrero Ortiz. (Potrero, consoante a terminologia hispânica, designa o campo destinado à criação e pastoreio de gado cavalar). Na sub-região denominada “cipoal” (caracterizada pela densidade de cipós nativos), conforme a tradição oral dos sobreviventes, “Barulho”, exaurido pela fuga e virtualmente sitiado, submergiu em um lamaçal contíguo a uma área alagada. Manteve estritamente as fossas nasais acima da superfície para viabilizar a oxigenação. À medida que os patrulheiros se aproximavam, ele ocultava-se ainda mais na vasa, emergindo apenas quando se certificava do distanciamento dos perseguidores.
Julgando que todos os integrantes das Patrulhas Volantes houvessem ultrapassado o perímetro, o criminoso não previu que um dos voluntários retardara o passo a fim de ajustar os arreios de sua montaria, fadigada pela exaustiva cavalgada. Ao emergir do lodo, “Barulho” deparou-se imediatamente com o patrulheiro. O bandoleiro tentou empunhar seu revólver, todavia, o mecanismo da arma, obstruído pelo barro, falhou. Sorte distinta bafejou o patrulheiro que, despido de hesitação ou remorso, descarregou seus projéteis contra o bandoleiro, o qual tombou exânime no lamaçal, para nunca mais erguer-se.
Aos estampidos que ecoaram pelas planícies, os demais integrantes das forças volantes convergiram ao local. Diante do cadáver do bandoleiro prostrado no lodo, efetuaram-se múltiplas descargas de advertência com o fito de sinalizar às outras frações das patrulhas. Contudo, reza a crônica popular que os disparos não foram direcionados unicamente ao zênite, mas também desferidos contra o corpo inerte do salteador, que já não esboçava qualquer reação defensiva. Assim encerrou-se a trajetória de “Barulho”: bandoleiro, abigeata e homicida sanguinário que, à semelhança de seus subjugados, foi sepultado em algum ponto deste rincão. Ali fenenceu e ali jaz sua memória. Trata-se de uma narrativa despida de idealismo estético, a qual permaneceu silenciada por décadas, porquanto carente de heroísmo. Seu erro crasso residiu na cobiça de bens alheios e na baixeza do homicídio como meio de consecução de seus desígnios, subestimando a têmpera dos pioneiros daquela terra uma região que acolhe com bonomia os que chegam, mas repudia veementemente a desonra.
“Aos bravos pioneiros que desbravaram florestas e campos das terras que construíram o outrora extenso Município de Ponta Porã, aos que ali lutaram como autênticos heróis dos sertões contra todas as dificuldades e infortúnios, aos que não estudaram e aos que morreram de doenças comuns, porque nas lonjuras onde moravam não havia escolas nem médicos, aos que cruzaram campinas e matas abrindo trilhas que depois se transformaram em estradas para o progresso, aos que trabalharam muitas vezes em condições desumanas em ranchadas ervaterias, em fazendas sem conforto, para o enriquecimento da região e do Brasil”. REIS, Elpídio. Ponta Porã: polca, churrasco e chimarrão, p. 13.
A intrepidez constituía o apanágio dos valorosos pioneiros da fronteira em eras pretéritas, época em que a honorabilidade e a palavra empenhada chancelavam o nome de uma estirpe. O compromisso verbal (“o fio do bigode”) possuía maior validade jurídica e moral do que um documento subscrito a tinta, e o aperto de mãos ratificava os negócios jurídicos locais; outrossim, a improbidade e a desonra eram inexoravelmente lavadas com sangue.

Pesquisa: Prof. Me. Yhulds G. P. Bueno. Historiador registro 0000037/MS, Membro da ABROL Academia Rotaria de Letras de MS – cadeira nº 28. Com mais 30 anos de atuação na docência da Rede Pública e Privada da Educação Básica e Superior. Formado em Educação Física, Formação Pedagógica e Licenciatura em História. Mestre em Desenvolvimento Regional e de Sistemas Produtivos; Pós-Graduado em Metodologia do Ensino de História e Geografia; Pós-graduado: Docência em Biblioteconomia; Pós-Graduado: Ensino de História. Membro Associado do Rotary Club Ponta Porã Pedro Juan Caballero Guarani – Distrito 4470.

