17.5 C
Ponta Porã
sábado, 17 de outubro, 2026

Bolsa Família cria ciclo de dependência na região

17/07/2014 10h00

A dona de casa Laudiceia de Figueiredo, 37 anos, há 8 anos recebe a verba vinda do governo.

Diarioweb

Criado pelo governo federal com o objetivo de combater a pobreza extrema e ajudar as famílias a melhorar de vida, o Bolsa Família faz de pelo menos 54 municípios da região redutos de alta dependência do programa. Nessas cidades, a quantidade de chefes de família beneficiados é maior do que a média do Estado, proporcionalmente ao número de habitantes.

A média do Estado é de uma família beneficiada a cada grupo de 34,39 habitantes. Índice obtido em levantamento feito pelo Diário em 117 municípios levou em conta a divisão do número de habitantes pela quantidade de famílias que recebem o benefício, já que o governo federal não disponibiliza o número de beneficiários e sim o de famílias contempladas.

A situação mais crítica é em Guarani D’Oeste. A cidade possui 2.023 habitantes e tem 134 famílias no programa. Levando em conta a média de membros de uma família, que é de 4 pessoas, chega-se ao número de cerca de 536 beneficiados, ou seja, 25% da população. Com esse alto índice de dependentes não é difícil achar quem recebe a verba federal por muitos anos.

A dona de casa Laudiceia de Figueiredo, 37 anos, há 8 anos recebe a verba vinda do governo. Era cadastrada no Vale Gás e recebia R$ 15, depois passou para o Bolsa Família e hoje recebe pouco mais de R$ 100. O restante da renda de casa vem do marido, o piscineiro Ademilson da Silva Albanes, o único que trabalha na casa. O casal tem quatro filhos, com idades de 21, 14, 13 e 4 anos. “Estou esperando um emprego vindo de um programa da Prefeitura, mas ainda não deu certo. Aqui não tem outra opção”, diz Laudiceia.

Quem também complementa a renda com o programa é a dona de casa Adriana de Souza Carete, 32 anos. Ela tem três filhos, está grávida do quarto e o marido ganha pouco com o trabalho de lavrador. “Esses R$ 124 me ajudam muito. Recebo há 2 anos. O dinheiro que meu marido recebe não dá para comprar tudo. Até queria voltar a trabalhar, mas fiquei grávida”, afirma.

Casos como o de Adriana e Laudiceia, famílias que contam todos os meses com o Bolsa Família, estão diretamente ligado à falta de oferta de emprego no município e de estrutura das cidades, de acordo um especialista e algumas prefeituras da região. Das 20 cidades mais dependentes do programa – todas com menos de 13 mil habitantes – nenhuma tem grandes empresas instaladas em suas terras ou outros grandes geradores de emprego.

Um exemplo disso é Cardoso. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, nos últimos em doze meses – de maio do ano passado a maio desse ano –, foram 518 empregados e 509 demitidos, saldo positivo de 9 empregos. Situação bem diferente de Auriflama, cidade que possui o menor índice de dependência do programa no Estado e a 25ª do país. No município, no mesmo período, foram 1.049 contratados e 1.032 demitidos, 17 novos postos de trabalho.

A Prefeitura de Guarani D’Oeste afirma que tem oferecido cursos de administração, cabelo, costura e depilação aos munícipes e que o trabalho tem surtido efeito. De acordo a administração no início do ano eram 180 dependentes e o número caiu para 134. De acordo com Clarinda Prado Queiroz, coordenadora da Assistência Social, os únicos empregos são no serviço público ou nos poucos comércios, por isso os moradores precisam recorrer a municípios vizinhos. “Nossa cidade é desprovida de emprego. Estamos lutando para capacitar mulheres com cursos, mas elas terão de trabalhar fora, o que é um empecilho a mais”, explica.

Na visão do sociólogo Giovanni Alves, da Unesp Marília, por esses municípios serem menores a dificuldade de retirar essas pessoas do programa se torna mais difícil, justamente porque faltam opções. “É um programa social que visa combater a pobreza extrema. A maior clientela estará nas regiões mais carentes. Diria que se não fosse dessa forma é que seria estranho. São regiões que têm baixo dinamismo econômico. Algumas cidades não acompanharam o desenvolvimento da economia paulista”, disse.