21/07/2016 16h20
Questionado sobre como a polícia agora conseguiu acesso às conversas do aplicativo, o ministro não quis explicar a técnica usada.
A Polícia Federal (PF) deflagrou a operação antiterror “Hashtag” e prendeu 10 pessoas supostamente ligadas ao Estado Islâmico na manhã desta quinta-feira (21). Segundo o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, as investigações teriam envolvido a interceptação de conversas em aplicativos como Telegram e WhatsApp – apesar do WhatsApp ter sido bloqueado esta semana por não ter condições de auxiliar as autoridades na investigação de crimes.
Questionado sobre como a polícia agora conseguiu acesso às conversas do aplicativo, o ministro não quis explicar a técnica usada.
“Qualquer mecanismo de investigação não deve ser falado numa entrevista coletiva para avisar um suposto terrorista sobre como se investiga”, justificou Moraes. Apesar da não cooperação do WhatsApp, o ministro disse que a investigação tem “outros meios”.
Se o WhatsApp não possui condições de ajudar a polícia e o aplicativo utiliza a criptografia ponta-a-ponta, que impede a leitura de dados com “grampos” tradicionais, como a polícia pode ter conseguido acesso às mensagens?
WhatsApp pode sim colaborar
O primeiro detalhe é que o WhatsApp pode sim interceptar conversas em sua rede, pois detém o controle do processo de troca de “chaves”. A chave é uma sequência usada para codificar e decodificar os dados. Embora a chave seja gerada e armazenada apenas no celular do utilizador, o WhatsApp pode, a qualquer momento, iniciar um novo processo de troca de chaves e transmitir chaves incorretas para dois ou mais contatos, viabilizando a interceptação.
A limitação desse mecanismo é que ele pode ser percebido pelos participantes da conversa, especialmente se eles checarem as chaves que estão usando.
Apesar de a possibilidade existir, é pouco provável que o WhatsApp tenha colaborado com essa investigação. Não há sequer confirmação de que o WhatsApp tenha desenvolvido a tecnologia para realizar esse tipo de grampo em sua rede. Sendo esse caso, quais podem ser os “outros métodos” citados pelo ministro?
Interceptação sem colaboração dos apps é possível
Existem ao menos quatro métodos de se obter os dados da comunicação do WhatsApp e que não exigem a quebra da segurança do aplicativo em si e nem a colaboração dele para funcionar. São eles:
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Instalação de vírus no computador ou no celular dos investigados. Como o WhatsApp permite o uso do aplicativo por meio do WhatsApp Web, não é preciso necessariamente contaminar o celular com um software espião. Infectar o celular é difícil, mas, desde que alguém esteja usando o WhatsApp ou o Telegram via Web, não é preciso espionar especificamente o celular. Basta que a pessoa entre no WhatsApp Web uma vez para que todo o histórico seja obtido por um software espião. Sabe-se que a Polícia Federal tem ao menos interesse nesse tipo de código, pois a PF estava entre os possíveis clientes da empresa italiana Hacking Team, especializada na oferta de programas espiões.
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Obtenção do backup de conversas. As conversas do WhatsApp são copiadas sem criptografia para o Google Drive ou para o iCloud. Caso algum dos investigados tenha ativado esse backup, as autoridades podem solicitar o backup das conversas para o Google ou para a Apple.
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Agente infiltrado em grupos. Um agente pode convencer os administradores dos grupos investigados a adicionar seu telefone ao grupo. A partir desse momento, toda a conversa poderá ser lida pela polícia. Segundo o advogado especializado em direito eletrônico Walter Aranha Capanema, a infiltração é prevista em lei (12.850/2013 e 13.260/2016). “A lei antiterrorismo permite a aplicação dos meios de investigação próprios da lei das organizações criminosas. Um desses meios é a infiltração, que exige ordem judicial”, explica.
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Clonagem do número com colaboração da operadora. Ainda que o WhatsApp não coopere com as investigações, as operadoras cooperam. A operadora poderia transferir um dos números investigados para um chip em posse da polícia, que então poderia instalar e ativar o WhatsApp com o número que até então pertencia exclusivamente a um dos investigados. Nesse momento, a PF teria em mãos um celular capaz de receber toda a comunicação, tendo para si um número até então confiado pelos investigados. De acordo com Capanema, esse método entraria como interceptação (lei 9.296/96) e também poderia ser realizado pela polícia, desde que com ordem judicial.
O WhatsApp não foi o único monitorado: a PF também teria acessado conversas do Telegram. A criptografia do aplicativo Telegram é considerada menos segura que a do WhatsApp. Além disso, o app não criptografa as conversas sem que os participantes iniciem um “chat secreto”. Caso a PF tenha realmente quebrado diretamente a segurança de um dos aplicativos, o Telegram é o alvo mais provável.
Existe ainda a possibilidade que a PF não chegou a ter acesso às conversas, mas se limitou aos chamados “metadados”. Os metados não têm o conteúdo da conversa, mas podem ajudar a polícia a saber quem fala com quem e quando.
Embora essas interceptações sejam mais trabalhosas e também exijam certos descuidos por parte dos investigados, as autoridades realmente têm meios para obter o conteúdo de mensagens sem precisar da colaboração dos responsáveis pelos apps.
Foto: Sam Azgor/Flickr/CC
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