A poucas semanas do primeiro turno das eleições de 2026, a crescente crise político-institucional tem eclipsado as discussões sobre propostas de campanha e os problemas estruturais do Brasil. Representantes de entidades da sociedade civil expressaram à Agência Brasil que as disputas internas do Supremo Tribunal Federal (STF), que se estenderam para além da corte e envolveram outras instituições, dominaram o noticiário e as conversas, afastando a atenção dos desafios nacionais.
Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), observou que o debate eleitoral está comprometido, pois a atenção pública está primordialmente voltada para os desdobramentos da crise institucional no Poder Judiciário. Essa situação impede que temas fundamentais para o país recebam a devida discussão.
Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), também apontou que a agenda pré-eleitoral foi dominada por assuntos não escolhidos pela sociedade, em detrimento de debates sobre mudanças estruturais essenciais para o desenvolvimento nacional. Ela lamentou a ausência de discussões aprofundadas sobre áreas como a ciência, que necessita de estabilidade e orçamento previsível, sugerindo que o país se encontra forçado a escolher entre a integridade das instituições e um projeto de desenvolvimento nacional, quando ambos deveriam caminhar juntos.
Os entrevistados concordam que os fatos emergentes da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 e investigando supostas conexões entre autoridades e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, são graves e merecem apuração rigorosa. No entanto, ressaltam a importância de que essa investigação não suplantre o debate sobre as propostas dos candidatos aos cargos executivos e legislativos.
Daniel Cara, coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, classificou as eleições de 2026 como as mais significativas desde a Constituição de 1988, em um contexto global de reconfiguração produtiva e conflitos. Ele criticou o fato de que temas cruciais como desenvolvimento econômico, soberania nacional e uma agenda integrada de defesa, educação, ciência e tecnologia foram deixados de lado, tanto no debate público quanto nos programas de governo, indicando uma aparente falta de compreensão dos candidatos sobre a atual conjuntura brasileira.
Rita Serrano, presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), destacou as prioridades da classe trabalhadora: o fim da escala 6×1, a geração de emprego e renda, a regulamentação da negociação coletiva no setor público (Projeto de Lei 1.893/2026), segurança pública e temas estratégicos para o desenvolvimento e soberania, como o aproveitamento de minerais críticos. Ela lamentou que o avanço dessas pautas no Congresso tenha sido interrompido pela crise institucional, que gerou surpresa e apreensão na sociedade e em todos os Poderes, relegando outras discussões a segundo plano.
Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, criticou o que chamou de “sequestro da pauta eleitoral” e ressaltou a urgência da discussão sobre as mudanças climáticas, citando os recentes eventos extremos no Rio Grande do Sul e na Amazônia. Ele lamentou que poucos candidatos abordem a crise climática como prioridade, e alguns cheguem a negá-la, o que, segundo ele, compromete a adoção de medidas futuras para enfrentar o problema.
A importância estratégica dos minerais críticos e terras raras foi reforçada, especialmente após a aprovação de um projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Enquanto o setor produtivo vislumbra avanços tecnológicos, organizações indígenas, representadas por Alcebias Constantino da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), exigem salvaguardas socioambientais e o respeito à consulta prévia. Constantino apontou que os candidatos frequentemente ignoram essa discussão, crucial para a proteção de territórios e direitos indígenas.
O movimento indígena lançará e apoiará 56 candidatos para fortalecer sua representação política. Constantino vê as eleições como uma ferramenta para garantir direitos e eleger uma bancada comprometida com as prioridades indígenas. Ele relativizou o impacto da crise institucional em sua mobilização, pois as comunidades já estão habituadas a lutar por suas causas, mesmo quando não pautadas, em um contexto de ataques constantes a seus direitos e territórios.

