A higiene dos ouvidos dos cães costuma receber menos atenção do que o banho, a escovação ou a alimentação, mas tem impacto direto no conforto e na saúde do animal. Quando essa região acumula cera, umidade ou resíduos, o ambiente pode se tornar mais favorável a inflamações e infecções, especialmente em cães com orelhas pendulares, histórico de alergias ou maior produção de secreção.
Ao mesmo tempo, o excesso de limpeza também pode ser prejudicial. O cuidado adequado depende de observação, rotina equilibrada e orientação veterinária quando houver sinais de alteração. Em vez de adotar soluções improvisadas, vale seguir práticas seguras e consistentes para manter a região limpa sem irritar o canal auditivo.
1. Observe a aparência e o cheiro da orelha com regularidade
O primeiro passo para uma boa higiene auricular é conhecer o padrão normal de cada cão. Ouvidos saudáveis tendem a ter aspecto limpo, coloração sem vermelhidão intensa e odor discreto. Quando surge cheiro forte, excesso de cera escura, secreção, sensibilidade ao toque ou coceira frequente, a limpeza deixa de ser apenas rotina e passa a exigir investigação clínica.
Essa observação regular ajuda a identificar mudanças precoces, antes que o desconforto se torne mais intenso. Além disso, evita que a limpeza seja feita de forma automática em um ouvido já inflamado, situação em que o manuseio pode causar dor e até piorar o quadro.
2. Respeite a frequência ideal para cada perfil de cachorro
Nem todo cão precisa da mesma rotina. Alguns permanecem com os ouvidos limpos por longos períodos, enquanto outros exigem cuidados mais frequentes por conta do formato da orelha, da presença de pelos, da prática de natação ou de condições alérgicas de base. Por isso, estabelecer uma frequência fixa para todos os animais não costuma ser a melhor estratégia.
Fontes veterinárias indicam que a limpeza deve ser individualizada, conforme a necessidade clínica e a recomendação profissional. Em animais predispostos à otite, o manejo preventivo pode incluir monitoramento mais próximo e uso de soluções específicas.
Quando há dúvida sobre o intervalo ideal ou sobre a escolha de um remédio pet para ouvido, a avaliação veterinária é o caminho mais seguro para evitar erros comuns, como excesso de produto ou tratamento inadequado.
3. Use apenas produtos formulados para a região auricular
A pele do conduto auditivo é sensível e pode reagir mal a substâncias inadequadas. Receitas caseiras, álcool, água oxigenada, vinagre ou produtos de higiene humana não devem ser usados, porque podem irritar a pele, alterar o equilíbrio local e mascarar sintomas importantes.
Limpadores otológicos veterinários são desenvolvidos para remover resíduos com mais segurança e, em alguns casos, auxiliar no controle da oleosidade ou da cera. Ainda assim, a escolha do produto precisa considerar o estado do ouvido. Em ouvidos doloridos, com suspeita de perfuração timpânica ou infecção, a conduta deve ser definida por um médico-veterinário.
4. Aplique a solução higienizadora de forma correta e suave
A técnica de limpeza faz diferença no resultado e no conforto do animal. Em geral, a solução deve ser aplicada no canal auditivo, conforme a orientação do fabricante ou do veterinário, seguida de massagem suave na base da orelha para ajudar a soltar a sujeira. Depois, o próprio cão costuma sacudir a cabeça, o que favorece a saída do excesso.
Na etapa final, a limpeza da parte externa visível pode ser feita com algodão ou gaze, sem pressionar em profundidade. O objetivo não é deixar o ouvido “seco ao extremo”, mas remover o excesso de secreção e produto sem agredir a região.
5. Evite o uso de hastes flexíveis e objetos improvisados
Um dos erros mais frequentes é tentar alcançar o interior do ouvido com hastes flexíveis, pinças, lenços enrolados ou outros objetos. Esse hábito pode empurrar resíduos para dentro, provocar microlesões e aumentar o risco de inflamação. Além disso, o formato do canal auditivo dos cães dificulta a visualização completa da área, o que torna a manipulação ainda mais arriscada.
A limpeza segura se limita à parte acessível, sempre com movimentos delicados. Quando há secreção abundante, crostas ou sujeira persistente, insistir em casa pode atrasar o tratamento correto. Nesses casos, a limpeza profissional é mais indicada do que tentativas repetidas de remoção.
6. Seque bem a orelha após o banho, a chuva ou a natação
A umidade favorece desequilíbrios no ouvido, sobretudo em cães predispostos a otite externa. Depois do banho, de passeios sob chuva ou de contato com piscina e mar, a região auricular merece atenção extra. Secar apenas a parte externa da orelha nem sempre basta quando houve muita exposição à água.
O ideal é remover a umidade visível com delicadeza e observar se o animal passa a balançar a cabeça ou coçar a área nas horas seguintes. Se essa resposta se repetir após situações com água, pode haver necessidade de ajustar a rotina de prevenção com acompanhamento veterinário.
7. Considere os fatores de risco que favorecem recorrências
A higiene ajuda, mas não resolve sozinha todas as causas de problema auricular. Alergias, presença de parasitas, corpos estranhos, alterações anatômicas e distúrbios dermatológicos estão entre os fatores que podem favorecer otites recorrentes. Quando o quadro volta com frequência, focar apenas na limpeza tende a ser insuficiente.
Nessas situações, a investigação da causa de base é o que realmente muda o prognóstico. O cuidado diário continua importante, mas deve fazer parte de um plano mais amplo, com diagnóstico correto, controle da doença associada e revisão periódica da resposta ao tratamento.
8. Procure por uma avaliação rápida diante dos sinais de alerta
Coceira intensa, dor, odor forte, secreção amarelada ou escura, inchaço, inclinação da cabeça e incômodo ao toque são sinais que merecem atenção rápida. Em alguns casos, o cão também pode demonstrar irritação, esfregar a orelha no chão ou vocalizar durante a manipulação. Esses sintomas não indicam apenas “ouvido sujo” e podem estar relacionados a infecção, inflamação ou até lesões mais profundas.
A intervenção precoce reduz o risco de cronificação e complicações. Como o tratamento depende da causa e do estado do tímpano, a automedicação deve ser evitada. Em saúde auricular, agir cedo costuma ser mais importante do que agir por conta própria.
Uma rotina de cuidado bem orientada protege mais do que limpezas excessivas ou improvisadas. Quando observação, técnica correta e suporte veterinário caminharem juntos, os ouvidos dos cães tenderão a permanecer mais saudáveis e confortáveis.
Referências
- MERCK VETERINARY MANUAL. Ear infections and otitis externa in dogs. 2025. Disponível em: https://www.merckvetmanual.com/dog-owners/ear-disorders-of-dogs/ear-infections-and-otitis-externa-in-dogs.
- MERCK VETERINARY MANUAL. How to clean your dog’s ears. 2025. Disponível em: https://www.merckvetmanual.com/multimedia/table/how-to-clean-your-dogs-ears.
- CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Procedimentos básicos na higienização de cães e gatos podem prevenir a otite. 2010. Disponível em: https://crmvsp.gov.br/procedimentos-basicos-na-higienizacao-de-caes-e-gatos-podem-prevenir-a-otite/.
- SCHERER, C. B. Produtos de limpeza auricular no tratamento de otite externa em cães. 2016. Disponível em: https://medvep.com.br/wp-content/uploads/2020/09/Produtos-de-limpeza-auricular-no-tratamento-de-otite-externa-em-c%C3%A3es.pdf.
- SILVA, C. F. Otite externa e média em cães: revisão de literatura. 2021. Disponível em: http://192.100.247.84:8080/bitstream/prefix/1838/1/Carolina%20Ferreira%20Silva.pdf.

