12.8 C
Ponta Porã
sábado, 17 de outubro, 2026

Deboche. Bruno volta e é capitão. Rio Branco envergonha o Brasil

R7 – Cosme Rímole

Estrou em campo na noite desta quarta-feira, no Acre. Mesmo ainda cumprindo pena em regime pelo assassinato de Eliza Samudio. Direção do Rio Branco não se importa.

São Paulo, Brasil

“Capitão tem de ser mais do que líder.

“Mas exemplo de vida.

“Dentro e fora de campo.

“Representa o caráter do clube, da seleção.

“Ter a faixa no braço é enorme responsabilidade.”

A definição do que significa ser capitão de um time de futebol me foi dada pelo mais marcante deles, Carlos Alberto Torres.

Mesmo com Pelé, Gerson, Piazza líderes naturais, ele foi escolhido pelos companheiros e por Zagallo como o capitão da Seleção Brasileira, em 1970, na conquista do tricampeonato mundial.

Ele já tinha a faixa no excepcional Santos, com o melhor jogador do mundo, Pelé.

Em 1970, o Brasil vivia o ‘auge’ da Ditadura Militar. E a vida de Carlos Alberto Torres foi investigada para haver a certeza de que ele poderia representar o caráter do povo brasileiro.

50 anos depois, o Rio Branco, do Acre, vai por um caminho inacreditável.

Bruno, condenado a 22 anos e três meses de prisão, por homicídio triplamente qualificado e sequestro do próprio filho.

A justiça obteve provas de que o jogador planejou a morte e o desaparecimento do corpo da modelo Eliza Samudio, mãe do seu filho Bruno, em 2010.

Ele cumpriu cerca de nove anos de detenção.

E, depois, de a sociedade rejeitar sua volta ao futebol em vários clubes, ameaçando patrocinadores de boicote, ele encontrou o empresário Valdemar Neto, presidente do Rio Branco do Acre.

Clube minúsculo do cenário nacional, Valdemar queria a atenção do Brasil. Fosse qual fosse a maneira. E por isso contratou Bruno. 

Deboche. Bruno volta e é capitão. Rio Branco envergonha o Brasil
Aos 35 anos, Brunco foi para o Acre. É o segundo estado em feminicídios no Brasíl
Rio Branco

Perdeu o único patrocinador que o clube tinha.

A  Rede Arasupe de Mercados.

Clientes avisaram que não frequentariam suas lojas enquanto Bruno fosse goleiro do Rio Branco.

A Rede Arasupe deixou o clube.

Mais de 90 garotos, a maioria muito pobre, que recebiam refeições da empresa, foram prejudicados, deixaram de almoçar e lanchar no Rio Branco.

Bruno escolheu bem o estado onde foi jogar.

Os grupos feministas protestaram de forma insipiente, sem repercussão no restante do país.

Sem força para pressionar a direção do Rio Branco.

Deboche. Bruno volta e é capitão. Rio Branco envergonha o Brasil
Os protestos no Acre não tiveram força para travar a contratação
Reprodução/Instagram

A reação negativa foi menor do que Valdemar e o goleiro esperavam.

E Bruno fará voltou nesta quarta-feira (19), ao futebol.

Contra o Náuas, na primeira rodada do Segundo Turno do Campeonato Acreano.

Na Arena Acreana, vazia, por conta da pandemia.

Não bastasse ter como goleiro um assassino, o Rio Branco foi além.

Para desprezo da sociedade, do próprio futebol, o técnico português, João Mota, decidiu que Bruno seria o capitão do time.

“O capitão à mim não diz nada. É mais um jogador de campo, quem manda na minha equipe sou eu. É alguém que, perante a equipe, mais relacionadamente ao árbitro e a coisas internas, é o capitão que fala em nome da equipe. Pode até ser um jogador suplente, só que em campo vai ter que entrar um.

“Eu tinha falado que poderia não sobrecarregar o Bruno com essas situações, mas a coisa acalmou, já não tá essa polvorosa toda que estava no início, então achei que, por uma questão de respeito dos colegas todos, que têm respeito por ele, achei interessante ele ser capitão. Mas sempre disse que poderia ser e poderia não ser. Nunca defini isso como uma prioridade, até porque pra mim isso não diz muito.”

A ignorância de João Mota é indecente.

Bruno não só usou o uniforme.

Mas representou um clube de 101 anos, sua trajetória, sua torcida.

Deboche. Bruno volta e é capitão. Rio Branco envergonha o Brasil
Carlos Alberto Torres era digno de ser chamado capitão. Bruno? Jamais
Reprodução/Twitter

Alguém responsável por tirar a vida de outra pessoa.

Da mãe de seu filho.

Algo pesado demais, mesmo para o Acre.

Segundo estado em feminicídios no Brasil.

Valdemar Neto e João Mota desrespeitam o clube.

O futebol.

Desprezam a história do Rio Branco.

Esse é o legado que escolheram para suas vidas.

Fazer de um assassino, ainda cumprindo pena, não só o goleiro titular, mas o capitão do time.

Bruno é o exemplo de jogador, de homem, de vida que os dois acreditam representar o clube acreano.

O Rio Branco envergonha o país…

O jogo:

Deboche. Bruno volta e é capitão. Rio Branco envergonha o Brasil

Condenado a 22 anos e três meses pelo assassinato de Eliza Samudio, o goleiro Bruno faz na noite desta quarta-feira (19) sua estreia pelo Rio Branco, no Campeonato Acreano. Aos 34 minutos do primeiro tempo, sua equipe teve um pênalti para cobrar. O goleiro atravessou o campo, mas… Foi impedido de bater pelo companheiro de time

Deboche. Bruno volta e é capitão. Rio Branco envergonha o Brasil

O lance aconteceu ainda no primeiro tempo, que terminou com 1 a 0 para o Rio Branco, diante do Nauas, no recomeço do Estadual — o zagueiro José Henrique marcou nos acréscimos. Bruno chegou a atravessar o campo, mas foi impedido de cobrar. O problema foi que o camisa 10, Vandinho, desperdiçou o pênalti

Aos 35 anos, em regime semiaberto, o goleiro Bruno tenta recomeçar a sua carreira no futebol. Mesmo depois de críticas de torcedores e patrocinadores, ele conseguiu fechar contrato com a equipe acreana

Na época de Flamengo, o goleiro Bruno costumava a cobrar faltas e pênaltis. O camisa 1 chegou a balançar as redes em quatro oportunidades, de 2006 a 2010