03/11/2014 06h10
Delcídio pode perder controle do PT com fracasso nas urnas
Ex-governador José Orcírio saiu fortalecido das eleições e poderá assumir o partido
Correio do Estado
A inesperada derrota do senador Delcídio do Amaral para o deputado federal Reinaldo Azambuja (PSDB) na disputa para governador de Mato Grosso do Sul ressuscitará a disputa interna pelo controle do PT. De favorito, Delcídio saiu enfraquecido das eleições com a vitória do deputado federal Reinaldo Azambuja (PSDB), que entrou na disputa como terceira via. Quem saiu fortalecido foi o ex-governador, vereador de Campo Grande e deputado federal eleito José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT. Ele é considerado um petista autêntico, responsável pela filiação de Delcídio ao partido e depois foi traído.
Delcídio assumiu o controle do PT em Mato Grosso do Sul, mas na campanha eleitoral escondeu o partido e suas cores da propaganda eleitoral e ficou descolado da presidente Dilma Rousseff. Ele não queria se misturar com petistas. José Orcírio considerou erro de avaliação do senador, porque isto afastaria a militância.
Delcídio teria ainda desprezado o debate na Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), um autêntico reduto petista. O descaso revoltou professores.
Mas diante do fracasso eleitoral, Delcídio não será mais a mesma liderança de comando no PT. Ele deverá controlar apenas o seu grupo. O espólio do PT autêntico ficará nas mãos do ex-governador José Orcírio dos Santos, que nunca escondeu o partido e, também, não tem porque se envergonhar do PT, tanto que leva o nome do partido como seu apelido: Zeca do PT.
Na avaliação de alguns petistas, Delcídio está derrubado psicologicamente e eleitoralmente. Se não acontecer nenhum fato novo até 2018, Delcídio não será mais o favorito do partido e muito menos do eleitor para disputar a sucessão estadual.
Quem deve, agora, jogar as cartas na mesa do PT é José Orcírio. Ele ganhou, novamente, a força no partido com mais uma derrota de Delcídio.
Mas Delcídio não deverá entregar facilmente o controle do PT a José Orcírio. A eventual resistência do senador poderá reacender a velha disputa interna que rachou o partido ao meio.
Os petistas autênticos entendem ter chegado a hora de José Orcírio, com seu discurso petista afinado, reorganizar o partido em Mato Grosso do Sul. Só assim o PT terá condições de concorrer as próximas eleições com chance de vencer.
Por exemplo, Delcídio terá, em 2018, se não conseguir recuperar a credibilidade política, dificuldade de se reeleger senador. Hoje, o nome mais forte para concorrer ao cargo é José Orcírio, além de surgir como principal opção para a sucessão estadual.
Mas com a eventual manutenção do instituto da reeleição, o governador eleito Reinaldo Azambuja (PSDB) se tornará grande favorito.
José Orcírio pode, ainda, pensar na Prefeitura de Campo Grande diante da dificuldade dos partidos de encontrar um nome de peso. O PMDB tem grande número de filiados e lideranças emergentes, mas nenhum em condições de enfrentar um rival forte na sucessão municipal.
O governador André Puccinelli anunciou a sua determinação de nem pensar em concorrer a prefeitura da Capital. O ex-prefeito Nelsinho Trad é outro que afasta a hipótese de tentar voltar à administração de Campo Grande. O irmão, deputado estadual Marquinhos Trad, disse ser pré-candidato a prefeito. Mas não pelo PMDB.
É preciso levar em consideração a pré-candidatura do atual prefeito Gilmar Olarte (PP). Ele assumiu o cargo com a cassação do mandato de Alcides Bernal. Hoje, ele se encontra em fase de ajuste na administração e poderá, em 2016, se tornar forte candidato a prefeito.
Diante deste cenário, José Orcírio seria hoje o único em condições de concorrer a Prefeitura de Campo Grande. Mas não está afastada a possibilidade de composição política para o PT apoiar candidato de outro partido.
Em 2012, o senador Delcídio do Amaral fez jogada política para ajudar na eleição de Alcides Bernal, deixando de lado o candidato petista, deputado federal Vander Loubet. Bernal foi eleito prefeito, fechou as portas para os partidos aliados e tentou governar sozinho.
O único partido que seguiu unido em favor de sua manutenção no cargo foi o PT. O PP de Bernal estava dividido. Delcídio arrumou confusão até com Judiciário com questionamento de decisão de desembargador a favor de cassação do mandato de Alcides Bernal.


