07/04/2018 05h50
A aplicação da lei deve ser dosada e abrandada, para que o ato da repressão não tire o pouco de quem não possui nada.
Por: Tião Prado
Dourados nos dias atuais, com sua expansão meteórica, esparrama-se por léguas e léguas, cobrando dos seus habitantes, algum tipo de condução, para que se possam chegar ao emprego ou a qualquer outro ponto que se faça necessário.
Temos o serviço das circulares que, entendemos, a despeito de todos os esforços não consegue atender toda área urbana, que se expande com vertiginosa velocidade, abrangendo áreas imensas, cada vez mais distantes, algumas delas sem condições viárias para a circulação dos ônibus.
O sonho de possuir uma casa própria não mede distâncias e realiza-se, muita vez, no meio do nada, num loteamento novo, pouco habitado e até sinistro, através do programa “Minha casa, minha vida!) que a Caixa Econômica financia.
O trabalhador, instalado na sua casinha, distante do emprego, em área não servida pela circular, ou mesmo se servida, ele não dispõe do dinheiro para a passagem, vê como solução a compra de uma MOTOCICLETA, que vai usar diariamente, inclusive para levar a esposa para o trabalho doméstico, que ela exerce no lar de outras famílias.
O brasileiro humilde que necessita de uma MOTOCLICLETA para cumprir sua jornada de trabalho, simplório e desinformado, em pouco tempo tem seu meio de transporte CONFISCADO pela falta de habilitação que não teve tempo para tirar ou nem sabia que precisava; pela falta do pagamento da licença, pelo orçamento doméstico apertado que administra; ou pela carência de qualquer outra exigência cobrada pela burocracia, inventada por quem não produz nada!
Sem nenhuma cerimônia, em nome da burocracia que desconhece a fome e as carências de uma família, tiram do pobre trabalhador o meio de transporte que ele necessita, para trabalhar e ganhar o pão de cada dia. Como ele vai vencer duas léguas, todo dia, para chegar ao emprego que lhe rende um salário mínimo ou pouco mais, sem sua MOTOCICLETA?
A burocracia irracional e funesta, acha justo e plausível arrebatar a MOTOCLICLETA do pobre e necessitado operário e depositá-la a céu aberto, para que apodreça sem gerar nenhuma vantagem para o Estado, mas que gera um gigantesco prejuízo àquele que viu confiscada a única coisa que podia ajudá-lo a ganhar o pão. Minimizar seu atropelo de todos os dias, quando precisa ir para o trabalho.
Nos tempos modernos, a equidade e a solidariedade que orientam a sociedade pela evolução e difusão da cultura religiosa, impõem aos que aplicam a lei, que se veja o irmão em toda sua inteireza. Inteireza que abrange sua educação, seu meio de vida (atividade) e como ele consegue ganhar, honestamente, o pão que precisa para viver. A aplicação da lei deve ser dosada e abrandada, para que o ato da repressão não tire o pouco de quem não possui nada, mas que tem a grande e inarredável responsabilidade de alimentar uma família.
Não obstante o conhecimento humano moderno, administrações públicas agem como trogloditas, inteiramente alheias ao que seja decisão racional, humana e solidária: tiram a MOTOCICLETA de um pobre trabalhador que deixou de cumprir algumas exigências esdrúxulas, para que o meio de transporte do miserável operário — a motocicleta — APODREÇA ao relento e, no final, não aproveite a Deus e tampouco ao Diabo.
Não seria o caso de julgar os casos de apreensão das motocicletas, com mais amor, com equidade, sem perder de vista a solidariedade humana, criando-se um Conselho competente, para examinar cada caso e dar ao pobre motoqueiro condições para regularizar o que se lhe exigem, corrigindo uma delirante e insensata burocracia, que não ajuda ninguém e satisfaz-se quando coloca mais peso, nas costas daqueles que já não agüentam a carga que carregam, sob as vistas da indiferença.
A indiferença política que condena o trabalhador a morrer a míngua nos corredores dos hospitais, tendo o chão como maca; que lhe sonega escola para os filhos e segurança para a família. Indiferença nutrida, largamente, pelo roubo do dinheiro público, que nunca satisfaz a ganância dos peculatários que decidem, com suas leis e regulamentos, tirar o meio de transporte do operário, que só tem o dia e a noite e a miséria, para lembrá-lo, a todo instante, de que sua vida miserável não vai mudar.
Senhores políticos, deixem por um momento a prevaricação de lado e procurem, lembrando-se da lei escrita pelo próprio Deus (Ex.20: 15), verbis: “NÃO FURTARÁS” e voltem suas vistas para o povo procurando entender o que seja necessidade, desespero e aflição.
04-04-2018(4600)Membro da Academia Douradense de Letras.


