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sexta-feira, 26 de junho, 2026

Elas romperam barreiras, mas a política ainda é um desafio

De comandante da Polícia Militar a motorista de ônibus, mulheres mostram que podem ocupar qualquer espaço. Na política, porém, a representatividade feminina ainda está longe de refletir a força das mulheres na sociedade.

Durante décadas, disseram às mulheres quais eram os seus lugares. Mas elas decidiram escrever a própria história. Hoje, estão no comando de batalhões, dirigem ônibus, trabalham na construção civil, empreendem e ocupam funções que, por muito tempo, foram consideradas exclusivamente masculinas.

Em Dourados, a tenente-coronel Gabriella Fernandes entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a comandar o batalhão da Polícia Militar do município. Atualmente, ela segue como a única mulher à frente de um batalhão da PM no interior de Mato Grosso do Sul.

Para ela, cada conquista abre caminho para que outras mulheres avancem.

“É a primeira vez na história que uma mulher comanda o batalhão da Polícia Militar em Dourados. As mulheres estão mostrando que, com muito trabalho, dedicação e empenho, podemos alcançar degraus nunca antes alcançados. E abrir espaço para que mais mulheres se espelhem na gente e vejam que, mesmo em profissões tidas como masculinas, como o meio militar, há espaço para nós. Podemos ser o que quisermos.”

A mesma determinação move Kátia Regina de Souza. Há 13 anos, ela trabalha como motorista de ônibus e inicia a jornada quando a cidade ainda está dormindo. “Todos os dias acordo às duas e cinquenta da manhã para percorrer as ruas da cidade. O lugar da mulher é onde ela decide estar”, afirma.

Histórias como a de Rosana Mezari também desafiam estereótipos. Conhecida como “marida de aluguel”, ela encontrou em uma profissão predominantemente masculina a oportunidade de garantir o sustento da família. “Toda mulher tem o direito de ocupar todos os espaços e, quando ela ocupa, ela transforma.”

Na construção civil, Lucilene, de 43 anos, enfrenta diariamente preconceitos que ainda resistem ao tempo. Mas não abre mão dos próprios sonhos. “Acredito que a mulher pode chegar onde ela quiser. Nós mulheres somos garra, força e coragem.”

Se em tantas áreas as mulheres já conquistaram espaço, existe um ambiente onde a desigualdade ainda é evidente a política. Apesar de representarem a maioria da população brasileira e do eleitorado, elas continuam sendo minoria nos espaços de poder.

Em Mato Grosso do Sul, das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa, apenas três são ocupadas por mulheres, o que representa apenas 12,5% do Parlamento estadual. O dado reforça um desafio histórico, desde a criação do Estado, apenas 11 mulheres foram eleitas deputadas estaduais. Em determinados períodos, a Assembleia chegou a ser composta exclusivamente por homens.

A deputada estadual Lia Nogueira (PSDB) defende que a participação feminina na política é fundamental para construir uma sociedade mais justa e igualitária.

“Nós representamos a maioria da população brasileira e é por isso que eu estou aqui na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul defendendo todas as mulheres. A nossa presença na política gera identificação, representatividade e incentiva outras mulheres a acreditarem que também podem ocupar espaços de liderança. O nosso lugar é onde a gente quiser estar.”

Os números mostram que a presença feminina na política está longe de refletir a força das mulheres na sociedade. Os dados mostram que desde da criação de Mato Grosso do Sul nunca foi eleita uma governadora e teve apenas duas representantes no Senado. Nas eleições de 2024, MS registrou um recorde histórico ao eleger 13 prefeitas entre os 79 municípios. Apesar dos avanços, ainda assim, as mulheres seguem minoria nos cargos eletivos e nos espaços de poder.

Uma das pioneiras da participação feminina na política sul-mato-grossense, a ex-senadora Marisa Serrano avalia que, embora as mulheres tenham conquistado espaço em diversas áreas, a política ainda apresenta desafios que ajudam a explicar essa desigualdade.

“Há um crescimento na ascensão das mulheres nos espaços de poder. Hoje comandamos empresas, presidimos bancos e instituições, mas a vivência política ainda é difícil. Acredito que o medo do embate, que nem sempre é respeitoso, seja um dos fatores que ainda afastam muitas mulheres desse ambiente o que precisa ser mudado”, afirma.

Mais do que uma pauta feminina, a participação das mulheres na política é uma questão de democracia. Afinal, tudo passa pela política.

As decisões sobre saúde, educação, segurança, transporte, geração de emprego, combate à violência contra a mulher e desenvolvimento econômico nascem dos espaços de representação. Quando mais mulheres ocupam esses cargos, aumenta não apenas a diversidade de vozes, mas também a identificação e ajuda a transformar a sociedade.

Fonte: Assessoria