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Enfermeira tenta parto em casa por 48h, sofre complicações, e morre

25/07/2015 09h20

Mariana era enfermeira e morreu no Hospital de Base de Rio Preto após tentar o parto fisiológico, na casa dela

Diariodaregiao

“Vai que é uma experiência para a alma, como você nunca teve! Não é um curso, é uma experiência para a vida e alma!”. Foi assim que sentiu-se Mariana de Oliveira Fonseca Machado, 30 anos, depois de participar de um evento sobre parto humanizado, em Ribeirão Preto. Ela postou o comentário na internet. Mariana era enfermeira e morreu no Hospital de Base de Rio Preto após tentar o parto fisiológico, na casa dela. Ela estaria acompanhada de uma doula e uma obstetra.

Professora do curso de enfermagem da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), era defensora do parto humanizado e teria passado, pouco mais de 48 horas em trabalho de parto, tentando que a sua filha, Maria, nascesse de forma natural. Segundo a assessoria de imprensa da Casa de Saúde e Maternidade de São Carlos, a tentativa não foi bem sucedida e, no último dia 11, ela passou por cesárea, mas o quadro de saúde de Mariana se agravou. A criança nasceu e está bem.

“Ela teve hipotensão (queda da pressão arterial) no pós-operatório, que é um dos sinais de choque hemorrágico. Os médicos decidiram pela relaparotomia (abertura da incisão) para exploração cirúrgica. O útero de Mariana foi retirado”, disse um médico que pediu para não ser identificado. “Ela sofreu uma parada cardíaca e, logo depois de reanimada, outra parada cardíaca”, completou.

Em nota, a Casa de Saúde informa que Mariana passou por cesárea sem nenhuma intercorrência. “No entanto, no processo pós-cirúrgico, devido ao quadro clínico da paciente, foi encaminhada à UTI. As informações sobre esse quadro clínico estão descritas no prontuário da paciente, que é sigiloso e acessível apenas à família”, diz a nota.

A pedido do marido, o anestesista Douglas Coelho Machado, que trabalha no Hospital de Base, Mariana foi transferida e deu entrada no HB no último sábado, dia 18, em função de o hospital ter melhores condições de atendimento. Ela teria sofrido parada cardiorrespiratória e o estado de saúde era grave. Ficou internada na UTI e morreu três dias depois, na terça-feira, 21. O hospital diz que não pode falar sobre a causa da morte, que será determinada em até 60 dias, pelo IML (Instituto Médico Legal) de Rio Preto.

A docente era especialista em saúde da mulher e vice-coordenadora do curso de enfermagem da UFSCar. Ela era defensora do parto humanizado e tem trabalhos acadêmicos na área. A Universidade informou que não vai se pronunciar sobre a morte.

Ela foi acompanhada por uma especialista

O Diário falou com a enfermeira, doutora em obstetrícia Jamile Bussadori, que acompanhava a tentativa de parto humanizado. Quando a mulher decide que o nascimento do bebê será de forma fisiológica, em geral, é acompanhada por uma doula, mas o parto é feito por um médico ou enfermeiro especializado. Jamile disse que por enquanto não vai falar sobre o assunto. “Eu era muito próxima, amiga da Mariana, e companheira de trabalho. “Só vou me posicionar quando tiver autorização da família. A dor deles é muito grande e agora é hora de respeitar isso”, disse.

Jamile é especialista em obstetrícia pela Faculdade de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein, e atua, principalmente, em parto humanizado, parto domiciliar e aleitamento materno. Mariana e Jamile trabalhavam juntas na UFSCar. Integrantes do Grupo Gaia de Rio Preto, que defende a humanização do parto, foram procurados, mas disseram que só vão se manifestar sobre o assunto, quando as investigações estiverem concluídas.

Segundo o presidente regional da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo, José Luis Crivellin, é preconizado na medicina que, a espera pelo nascimento do primeiro filho de uma mulher, depois de ela entrar em trabalho de parto, deve ser de 9 horas a 12 horas. “Se em 12 horas não evoluiu, não teve dilatação, o bebê não desceu, não encaixou por que esperar 48 horas para levar para o hospital?”

Ele diz ainda que depois de feita a cesária, Mariana teve atonia uterina (o útero não contrai) e foi preciso retirar o órgão. “Tudo o que aconteceu está relacionado com o tempo que ela ficou em trabalho de parto”, afirma o obstetra. O enterro de Mariana foi feito na manhã da última quinta-feira, 23, no Cemitério Municipal de Patrocínio (MG), onde mora a família. Ela deixa os pais José Dalvo da Fonseca e Marli Maria Oliveira da Fonseca, o marido, Douglas, e a filha, Maria. A família não quis falar com a imprensa por estar muito abalada.

Íntegra de nota emitida pela UFSCar na tarde desta sexta-feira, 24

Manifestação do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos

Professora Doutora Mariana de Oliveira Fonseca-Machado, enfermeira obstetra, mestre e doutora pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP, era docente e pesquisadora da área da Saúde da Mulher do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos. Com base em seu conhecimento e acompanhamento médico durante o pré-natal, que evidenciou uma gestação sem intercorrências, aguardou a evolução para um parto natural. Assim, a Prof.ª Mariana entrou em trabalho de parto no sábado, dia 11 de julho, estando acompanhada por profissional capacitado durante todo o processo. Para continuidade do trabalho de parto, encaminhou-se ao hospital no início da noite do mesmo dia, chegando ao local em perfeito estado de saúde. Algumas horas depois, Mariana foi submetida à cesariana, tendo a oportunidade de pegar sua filha no colo e amamentá-la. Posteriormente, foi encaminhada ao quarto junto com sua filha e, poucas horas depois, iniciou um quadro de complicações, que resultou no trágico desfecho. Infelizmente, preconceitos em relação ao parto natural e a “cultura de cesariana” brasileira, associados à falta de responsabilidade no compartilhamento de informações nas redes sociais e na mídia, levaram a divulgações equivocadas sobre o caso. Dados científicos indicam que a cesariana aumenta o risco de morte materna em 3-5 vezes, comparada ao parto normal. Dentre todas as causas de morte materna a hemorragia é a mais frequente delas. Em solidariedade à família da professora Mariana, o Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos manifesta seu profundo repúdio às manifestações sensacionalistas veiculadas. Como instituição dedicada à promoção de conhecimento, convidamos toda a comunidade à reflexão e colaboração para que a verdade deste triste episódio seja esclarecida, contribuindo para a melhora do cuidado à saúde das grávidas do Brasil.

São Carlos, 24 de julho de 2015.

Mariana de Oliveira Fonseca Machado, 30 anos, e o marido