Especialista explica como reconhecer uma obstrução grave e orienta o que fazer com adultos, crianças e bebês nos primeiros minutos
Uma refeição em família, um lanche rápido ou até uma brincadeira com objetos pequenos podem terminar em uma emergência. O engasgo acontece de forma repentina e, nos casos mais graves, impede completamente a passagem de ar. Nessa situação, reconhecer os sinais e agir corretamente nos primeiros minutos pode salvar uma vida.
O problema é que, diante do susto, muitas pessoas ainda recorrem a práticas inadequadas, como oferecer água, tentar retirar o objeto sem conseguir enxergá-lo ou realizar manobras sem saber se a obstrução é realmente grave. Além de atrasar o atendimento, essas atitudes podem empurrar o corpo estranho ainda mais para dentro das vias aéreas.

Segundo o fisioterapeuta e instrutor de BLS da CoreHelp, Denis Corrêa, o primeiro passo é observar se a pessoa ainda consegue falar, respirar ou tossir.
“Quando a vítima consegue tossir com força, falar ou respirar, significa que ainda existe passagem de ar. Nesse caso, ela deve ser incentivada a continuar tossindo, porque a tosse é o mecanismo mais eficaz para expulsar o objeto. As manobras de desobstrução são indicadas quando surgem sinais de obstrução grave”, explica.
Como reconhecer um engasgo grave?
A incapacidade de falar, tossir ou respirar está entre os principais sinais de alerta. A vítima também pode levar as mãos ao pescoço, apresentar grande esforço para respirar, emitir sons agudos ou não conseguir emitir nenhum som. Com a redução da entrada de oxigênio, os lábios, a face e as unhas podem ficar azulados. Se a obstrução não for aliviada rapidamente, a pessoa pode perder a consciência.
“Nessa situação, não há tempo a perder. É preciso pedir ajuda, acionar o Samu pelo telefone 192 e começar imediatamente as manobras adequadas”, orienta Denis.
As diretrizes de 2025 da American Heart Association recomendam, para adultos e crianças conscientes com obstrução grave, ciclos de cinco golpes nas costas, entre as escápulas, seguidos de cinco compressões abdominais. A sequência deve ser repetida até que o objeto seja expelido ou a vítima fique inconsciente.
Adultos e crianças precisam de ajuda imediata
Depois de confirmar que a pessoa não consegue falar, tossir ou respirar, alguém deve acionar o atendimento de emergência enquanto outra pessoa inicia as manobras, quando houver mais de um socorrista no local.
Em adultos e crianças com mais de um ano, devem ser aplicados cinco golpes firmes entre as escápulas. Caso o objeto não seja expelido, são realizadas cinco compressões abdominais. Os ciclos são alternados até a desobstrução.
Se a vítima perder a consciência, ela deve ser colocada cuidadosamente sobre uma superfície rígida. Em seguida, deve-se iniciar a ressuscitação cardiopulmonar, começando pelas compressões torácicas.
Antes de cada tentativa de ventilação, a boca pode ser observada. O objeto só deve ser retirado quando estiver claramente visível.
“Um dos erros mais perigosos é colocar os dedos na boca da vítima sem enxergar o objeto. Essa varredura às cegas pode empurrá-lo ainda mais para dentro e agravar a obstrução”, alerta o instrutor da CoreHelp.
Atendimento ao bebê é diferente
Em crianças menores de um ano, não devem ser feitas compressões abdominais, devido ao risco de lesões nos órgãos internos. Quando o bebê não consegue chorar, tossir ou respirar, ele deve ser posicionado de bruços sobre o antebraço do socorrista, com a cabeça mais baixa que o tórax e o pescoço sustentado. Em seguida, são aplicados cinco golpes nas costas, entre as escápulas.
Depois, o bebê deve ser virado cuidadosamente de barriga para cima, ainda com a cabeça mais baixa que o tórax, para a realização de cinco compressões torácicas. Os ciclos devem ser repetidos até que o objeto seja expelido ou o bebê fique inconsciente. Caso ele perca a consciência, a orientação é colocá-lo sobre uma superfície rígida e iniciar a ressuscitação cardiopulmonar.
“Os cuidados com bebês exigem uma técnica específica. Por isso, não se deve improvisar nem repetir as mesmas manobras utilizadas em adultos. Um treinamento prático ajuda a compreender a posição correta das mãos, a intensidade dos movimentos e a sequência do atendimento”, destaca Denis.
O que não fazer durante um engasgo
Oferecer água ou alimentos, sacudir a vítima, pendurá-la pelos pés ou tentar retirar o objeto com os dedos sem conseguir visualizá-lo são atitudes que devem ser evitadas. Também não se deve realizar manobras de desobstrução quando a pessoa ainda consegue tossir vigorosamente. Nesse momento, a recomendação é incentivar a tosse e acompanhar atentamente, porque uma obstrução inicialmente leve pode evoluir.
Outro erro é deixar de chamar o serviço de emergência por acreditar que o problema será resolvido rapidamente. Mesmo enquanto as manobras são realizadas, o Samu deve ser acionado pelo telefone 192 nos casos de obstrução grave.
E quando a pessoa está sozinha?
Quem perceber que está engasgado e ainda conseguir tossir deve tentar fazê-lo com força. Também é importante buscar ajuda imediatamente e acionar o serviço de emergência, sempre que possível.
Caso não consiga falar ou respirar, a pessoa pode tentar realizar compressões abdominais em si mesma, posicionando uma das mãos fechadas acima do umbigo e abaixo do osso do peito, segurando-a com a outra mão e fazendo movimentos rápidos para dentro e para cima.
Treinamento ajuda a transformar conhecimento em ação
Embora as orientações possam ser explicadas, Denis ressalta que a prática é fundamental para que as pessoas consigam agir com segurança diante de uma situação real.
“Durante uma emergência, é comum que o medo e o nervosismo dificultem a tomada de decisão. O treinamento permite reconhecer os sinais, entender a sequência correta e praticar as manobras antes que elas sejam realmente necessárias”, afirma.
Algumas instituições oferecem cursos de primeiros socorros voltados tanto para o público em geral quanto para profissionais, empresas e escolas. É o caso da CoreHelp, que realiza treinamentos com atividades práticas em manequins e simulações de situações que podem ocorrer em casa, no trabalho, em restaurantes e em outros ambientes.
Durante as capacitações, os participantes aprendem não apenas as técnicas de desobstrução das vias aéreas, mas também a avaliar a segurança da cena, reconhecer diferentes emergências, acionar corretamente o serviço de atendimento e trabalhar em equipe.
“O conhecimento técnico é importante, mas precisa ser colocado em prática. As simulações ajudam as pessoas a desenvolver segurança, rapidez e confiança para agir quando cada segundo faz diferença”, conclui Denis Corrêa.
Fonte: Evelise Couto

