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Existência de botos na Amazônia é ameaçada por hidrelétricas

06/03/2014 14h50

Botos-vermelhos usavam o Rio Madeira, que foi represado por hidrelétricas

Por: Tião Prado

Até recentemente pesquisadores pensavam que duas espécies de botos-vermelhos da Amazônia (Inia boliviensis e Inia geoffrensis) tinham como principais limites geográfico a sequência de cachoeiras e corredeiras do alto Rio Madeira. Mas para surpresa dos pesquisadores, as espécies pertencentes aos rios da Bolívia (pelo menos na teoria), ultrapassam esses limites e se encontram em áreas abaixo das corredeiras.

O estudo ocorreu nos rios Madeira, Mamoré e Guaporé (em Rondônia e Amazonas) onde existia, até recentemente, uma sequência de 18 corredeiras e cachoeiras que por muitos anos foram consideradas barreiras à distribuição das duas espécies. A constatação foi feita no estudo da doutora em genética, conservação e biologia evolutiva pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Waleska Gravena, em colaboração com as pesquisadoras do Inpa, Maria Nazaré da Silva e Vera da Silva, e os pesquisadores da Universidade Federal da Amazonas (Ufam), Tomas Hrbek e Izeni Farias.

“Foi observado que a espécie Inia boliviensis ocupa não somente os rios da Bolívia, acima das corredeiras, mas também grande parte do rio Madeira, sendo encontrada até no município de Borba [no Amazonas], a 870 quilômetros abaixo das corredeiras”, explicou Waleska.

A descoberta preocupa os pesquisadores porque na região foram construídas duas usinas hidroelétricas, nas corredeiras de Santo Antônio e Caldeirão: usinas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, respectivamente. Estas usinas, segundo Waleska, podem interferir na conservação dos botos que habitam a região, já que agora as populações de botos da Bolívia e do Brasil ficaram isoladas.

Barreira

A maioria dos animais estudados foi identificada, a partir de sequências de DNA mitocondrial, como pertencentes à espécie Inia boliviensis. A espécie que teoricamente ocorreria logo abaixo das corredeiras, Inia geoffrensis, na verdade, ocorre somente nos últimos 200 quilômetros do rio Madeira.

“Ainda não encontramos qual a barreira entre as espécies, já que na localidade onde são encontradas as duas espécies não existem nenhuma barreira física que impeça o encontro delas. Apesar das corredeiras não funcionarem como barreiras efetivas, podemos afirmar que elas funcionavam como uma barreira semipermeável, já que os animais descem, mas não conseguem subir”, complementa a pesquisadora Waleska.

Ela disse que a Usina Hidrelétrica Santo Antônio fechou suas comportas em agosto de 2011 e a Jirau, em dezembro de 2012. As duas usinas agora mantêm represadas as águas do rio Madeira, formando reservatórios de aproximadamente 350 quilômetros quadrados e 303 quilômetros quadrados, respectivamente. “Esses reservatórios já submergiram oito das 18 corredeiras existentes nessa região, transformando completamente o ambiente”.

Em termos de conservação, a captura acidental ou deliberada parece ser a principal fonte de ameaça aos botos nos vários países amazônicos, mas na região das corredeiras do rio Madeira, a mudança nesses ecossistemas associada à construção de hidroelétricas e barragens tem sido a principal fonte de risco para botos, principalmente devido à fragmentação das populações naturais

Boto-vermelho nasce cinza escuro e fica mais claro e rosado à medida em que cresce. (Foto: Chico Batata/Agecom-AM)