27/05/2014 15h00
Confira a entrevista com o Coronel do DOF
Douradosnews
O entrevistado dessa semana é Edilson Osnei Nazareth Duarte, 50, mais conhecido como ‘Coronel Duarte’ do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) ele que é diretor há três anos do órgão, conta um pouco das situações que já passou dentro da vida militar.
Durante a conversa, ele comentou detalhes dos trabalhos realizados pelo departamento e também de momentos de sua vida que não esquece, quando estava em campo e acabou baleado em confronto. “No inicio da carreira vamos muito ao embate, inclusive em duas situações fui baleado. Um foi na região do Bolsão que foi na perna e outro em Bataguassu, onde fui atingido no peito e fui salvo porque estava com o colete balístico” relatou ele.
Confira a entrevista com o Coronel do DOF, o departamento que na semana que vem completa 27 anos. Atualmente a instituição departamento é considerado a primeira unidade policial integrada do país, o qual serve de modelo para 10 Estados da federação onde existe fronteira com outros países.
Dourados News – Quando você entrou na vida militar?
Coronel Duarte – Em janeiro de 1987 eu ingressei na Polícia Militar. Me formei no Estado do Rio Grande de Sul, onde fiz quatro anos de academia e depois que conclui o curso fui trabalhar em Campo Grande, ai tive uma passagem aqui pela cidade de Dourados. Em 1991 eu vim pra cá, na época o diretor era o Coronel Adib e daqui eu fui incumbido de montar um grupo idêntico ao DOF na região do Bolsão Sul-mato-grossense [Três Lagoas, Paranaíba e Cassilândia], lá esse grupo se chamava PUA (Policiamento Unificado Ativo). Em 2003 retornei ao departamento já no comando do Coronel Orti, me tornei o sub diretor dele e estou como diretor do departamento desde outubro de 2011.
DN – E quando surgiu a vontade de se tornar policial?
C. D – Foi durante a infância. Como toda criança que tinha seus heróis eu achava a polícia um herói para todo mundo. E a partir daí almejei ingressar e graças a Deus consegui.
DN – Quando você ia a campo, como era o trabalho?
C. D – Olha, no inicio da carreira nós vamos muito ao embate, inclusive em duas situações fui baleado. Um foi na região do Bolsão que foi na perna e outro em Bataguassu, fui atingido no peito e fui salvo porque estava com o colete balístico. E é logico que quando nós saímos de casa, saímos preocupado em retornar para nossos familiares, de forma segura. E isso é uma preocupação de todos os batalhões.
DN – E você pode detalhar como ocorreram esses tiros?
C. D – O da perna foi na região de Aparecida do Taboado. Fomos com a equipe para determinado local, onde desconfiávamos que estavam escondendo veículos e drogas e fomos surpreendidos, pois imaginávamos que não teria ninguém. Eles reagiram, acabei baleado e socorrido pelos meus colegas e acabou que não foi nada de grave, 30 dias depois já estava no serviço, mas o susto foi grande até porque tinha sido a primeira vez que isso ocorreu. E na hora a gente praticamente não sente dor, não sente nada e foram meus colegas que viram que eu estava ferido.
DN – E a outra?
C.D – Bem, a segunda vez já foi bem mais grave, teve uma carreta que vinha de São Paulo com queixa de roubo e ela passou pelo bloqueio que nós realizávamos. Saímos em perseguição e até pela pouca experiência que nós tínhamos na época, não nos atentamos sobre outros veículos dando suporte. Então a carreta parou, o motorista e um passageiro desceram e correram para o matagal, e nós também corremos para tentar captura-los. Era de madrugada, tudo muito escuro e realizávamos a busca praticamente sem enxergar nada. De repente, senti o impacto e desmaiei na hora. Só acordei no hospital depois, pois com o impacto do tiro que pegou no peito me deu uma parada cardíaca. E um detalhe na época, quase ninguém utilizava colete. O Estado fornecia um número muito pequeno, por isso nem todos tinham e eu dei muita sorte.
DN – E em algum momento você saiu em operação, com medo?
C.D – Sempre eu saio com medo em todas as operações, o medo faz com que a gente adote mais cautela, use mais a técnica e seja bem mais profissional. Eu tenho medo daquele policial que diz não ter medo, pois o medo faz você tomar atitudes diferentes do calor do momento. Desperta toda a adrenalina e atenção do policial.
DN – Como é o sentimento em deixar a família para se empenhar em operações arriscadas?
C.D – Todos nós policiais, seja da esfera Federal, Estadual ou Municipal, temos uma preocupação muito grande com nossos familiares. Eu particularmente procuro preservar todos meus filhos. Quando estou com eles busco não dar tanto sinal que são meus familiares. Evito determinados locais para poder sair, ou passar por um desconhecido. Hoje infelizmente temos que adotar esse tipo de cuidado, pois temos como exemplo casos de policiais de São Paulo que tinham suas famílias perseguidas por grupos criminosos e alguns até mortos. Então devido a isso, fazemos o possível para preservar a imagem e integridade de nossas famílias. Quando saímos em operação temos além da preocupação da ação, também com nossos familiares que ficam em casa e correm riscos devido a nossa profissão.
DN – E também é sempre uma apreensão para os familiares que ficam em casa, não é?
C.D – Sim, é uma situação bem delicada para quem gosta da gente. Nossos pais, irmãos, esposas e filhos, quando sabem de operações que estamos participando, realmente é uma ansiedade em nos ver de volta são e salvo.
DN – Atualmente o DOF está bem preparado?
C.D – Nós, constantemente estamos buscando nos reciclar, nos recriar para que possamos identificar as manhas e artimanhas, principalmente dos grupos criminosos. Então a cada seis meses realizamos um curso específico de policiamento de fronteira, paralelo a isso fazemos cursos de espanhol, o que facilita a comunicação com os moradores dos países vizinhos. Além disso, temos treinamentos que duram até 10 dias, para que os policiais possam estar preparados para combater e lidar com as mais diversas situações.
DN – Quantos policiais trabalham hoje no DOF?
C.D – Olha, não é a quantidade que nós gostaríamos de ter, mas nós recebemos o reforço de policiais nos últimos dois anos. Esperamos agora a finalização do curso de formação de policiais, que a Polícia Militar está realizando e receber mais 30 novos servidores. Acredito que melhorará muito nossos recursos humanos para trabalhar na fronteira. Lembrando que de fronteira nós temos 1.517 quilômetros [Paraguai e Bolívia] e nessa faixa nós temos cerca de 6 mil quilômetros de estradas federais, estaduais, municipais e vicinais, que dão acesso a esses países. É uma malha muito grande e há a necessidade de mais policiais.
DN – E quanto à estrutura? É suficiente?
C.D – Sempre a gente almeja uma condição melhor, termos tecnológicos, recursos humanos, quanto mais vir, melhor para nós. Há poucos dias nós recebemos 23 novas viaturas. É a única unidade de faixa de fronteira do Brasil que recebeu esse quantitativo de viaturas, que foram destinados dentro do projeto Enafron [Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras]. Recebemos armamento e munição suficiente para todo nosso efetivo, fuzis, equipamentos de inteligências. Claro que ainda nos faltam mais equipamentos de tecnologia de ponta que colaborarão com o nosso trabalho.
DN – Qual foi o maior desafio que já teve?
C.D – Olha todos os dias passamos por situações difíceis que nos obrigam a tomar decisões e ações rápidas. Temos uma equipe muito capacitada e tive diversas situações, não vou citar nenhuma em especial, para não desmerecer nenhum dos meus colegas, mas garanto que foram várias. DN – E trabalhar na região de fronteira realmente é complicado?
C.D – Nós temos uma conversa com os policiais dos países vizinhos, mas as diferenças culturais ainda são muito nítidas e dificultam as ações. Um exemplo é um criminoso brasileiro. Ele leva seu carro para o país vizinho e volta dando queixa de roubo, mas no outro país, ele é legalizado. Para nós, continua sendo um produto ilícito. É difícil, ainda estamos longe do ideal, pois vai muito além do policiamento, são questões de diplomacia entre os países. Grande parte das ações que temos são conversas e acordos informais que temos com nossos colegas de fronteira.
DN – Quer dizer que se trabalha muito na cordialidade?
C.D – Justamente. Até para fazer uma devolução de um produto roubado, ilícito seria necessário os trâmites via Itamaraty. Isso tem funcionado, podemos citar casos de carros roubados que foram devolvidos em Mundo Novo, criminosos que foram presos pela polícia do Paraguai e nos entregaram em Ponta Porã.
DN – A maioria das apreensões são de maconha?
C.D – Maconha, podemos dizer que é a maior quantidade, mas temos muitas ocorrências de armamentos que são apreendidos, além disso, produtos agrotóxicos, contrabando de roupa, brinquedo, cigarro, tudo ilegal.
DN – Em uma reportagem, os paraguaios disseram que a maioria da produção de drogas no país é para os brasileiros, você acredita que essa demanda pela droga tem aumentado no Brasil?
C.D – Se pegar os dados de todos os órgãos policiais do país será possível identificar o aumento considerável nas apreensões de drogas. Acredito que se deve aos grandes eventos que o Brasil estará recebendo e também a aqueles que já aconteceram, como a vinda do Papa e a Copa das Confederações, agora a Copa do Mundo e depois as Olimpíadas de 2016. Se a gente observar, o pais recebe e receberá um público enorme e eles vem via aérea, terrestre, marítima e fluvial, então essa demanda cresceu e os traficantes estão tentando atender, por isso nos últimos dois anos o número de apreensões cresceu muito.
DN – Qual a tática utilizada para flagrar atos ilícitos?
C. D – A experiência do policial no serviço operacional conta muito, também é observado o conjunto motorista e veículo, cidade de origem tanto do condutor quanto do veículo. Para onde vai, o que vai fazer, esses são alguns dos detalhes que podemos destacar como essenciais para a identificação. Além do nervosismo ou extrema frieza durante a abordagem.
DN – No ano passado, o DOF conseguiu desarticular uma quadrilha que agia na região de Nova Alvorada do Sul, terminando inclusive com a morte dos criminosos. Após aquele fato, as ocorrências do tipo na região acalmaram. Existe um policiamento ou trabalho de inteligência naquele local específico?
C. D – Aquele caso especificamente, foi excepcional, nós registramos no ano passado quatro ações que tiveram o mesmo nível daquela e foi necessária a reação dos policiais. Mas falando de Nova Alvorada do Sul e Nova Andradina houve uma redução enorme no número de criminalidade. Depois que aquelas pessoas foram mortas e outras foram presas diminuiu drasticamente. Porém o número de apreensões de tráfico e contrabando aumentou significativamente, por isso trabalhamos em conjunto com os outros órgãos para tentar o máximo possível para combater a criminalidade. Pois hoje a droga causa prejuízo para o Estado, causa problemas e destrói muitas famílias, por isso realizamos essas operações mais intensas.
DN – O DOF terá ações durante a Copa do Mundo?
C. D – Terá sim, desde o ano passado já estamos realizando operações especificas para tentar controlar a entrada de produtos ilícitos no nosso país e agora com a proximidade do inicio da Copa do Mundo, nossas ações estão sendo intensificadas, tanto é que nos últimos dias aumentou o número de prisões e apreensões. E isso vai até o final da Copa, talvez até um pouco depois do evento, o qual os turistas ainda estão retornando aos seus países.
DN – E para finalizar, gostaria que você falasse para nós qual o sentimento de ser policial?
C. D – Pra mim, em primeiro lugar é uma honra, batalhei muito não apenas para ingressar para conquistar o posto que eu alcancei hoje e também o cargo de diretor do Departamento de Operações de Fronteira, que pra mim e para muitos é o melhor unidade policial do Brasil. É um orgulho muito grande, pois nós buscamos atender o nosso patrão, que é o povo, da melhor forma possível e sabemos que isso só é alcançado com treinamento, respeito, rigor, mas também de forma unida com todas as forças policiais.


