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sábado, 17 de outubro, 2026

Getúlio Vargas: 60 anos do suicídio do ex-presidente



24/08/2014 10h30

Getúlio Vargas foi um dos presidentes que esteve na cidade de Ponta Porã na fazenda Pacuri com oficiais.

Agência Brasil

“Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. A frase, uma das mais célebres passagens da história política brasileira, encerra a carta-testamento deixada por Getúlio Vargas. Há 60 anos, no dia 24 de agosto de 1954, o então presidente tirou a própria vida em meio à pior crise enfrentada em seus anos de atuação política.

Uma reunião com os ministros no Palácio do Catete varou a madrugada e decidiu que Getúlio se afastaria do governo por três meses para dar lugar ao vice, Café Filho. Após o fim da discussão, já com o dia claro, o político se recolheu ao seu aposento. Por volta das 8h35, o barulho de um tiro ecoou pelo palácio. Seu filho Lutero correu para o quarto, seguido pela esposa de Vargas, Darcy, e a filha Alzira.

“Getúlio estava deitado, com meio corpo para fora da cama. No pijama listrado, em um buraco chamuscado de pólvora um pouco abaixo e à direita do monograma GV, bem à altura do coração, borbulhava uma mancha vermelha de sangue. O revólver Colt calibre 32, com cabo de madrepérola estava caído próximo à sua mão direita”. É assim que Lira Neto descreve o cenário da morte de Vargas no terceiro volume da série biográfica Getúlio.

A carta-testamento de Getúlio Vargas, que seria transmitida durante aquele dia pelas rádios em todo o território nacional, foi encontrada em um envelope, encostada ao abajur da mesinha da cabeceira da cama do então presidente. Nos apontamentos do biógrafo, o texto, originalmente esboçado por Getúlio, teve sua versão final passada na máquina de escrever pelas mãos de um amigo, José Soares Maciel Filho, já que o ex-presidente não sabia datilografar. O rascunho da carta havia sido encontrado no dia 13 de agosto pelo major-aviador Hernani Fittipaldi, um dos ajudantes de ordem de Getúlio, enquanto arrumava a mesa do presidente.

Assustado com o conteúdo do manuscrito, ele entregou o papel à Alzira, que questionou o pai. “Não é o que estás pensando, minha filha. Não te preocupes, foi um desabafo”, se esquivou Vargas. Essa porém não foi a primeira vez que Getúlio fez menção ao suicídio. Em suas anotações pessoais ele já havia cogitado tirar a vida em outros momentos de sua jornada política.

A primeira delas foi quando chegou ao poder em 1930. Naquela data, enquanto se encaminhava para a sede do governo, se disse disposto a não retornar com vida ao Rio Grande caso não obtivesse sucesso na empreitada. Era a primeira anotação pessoal que fazia no diário que carregou para o resto da vida. Lira Neto considera que a diferença em 1954 é que Getúlio se viu encurralado e não conseguiu contornar a crise como das outras vezes. Confira em vídeo trecho da entrevista com Lira Neto:

A notícia circulou rapidamente pelo país. Um dos principais programas jornalísticos da época, o Repórter Esso, transmitiu a notícia acompanhada da leitura da carta, na voz do locutor Heron Domingues.

Depois de chegar ao poder na liderança do movimento que ficou conhecido como Revolução de 1930, o político gaúcho Getúlio Dornelles Vargas exerceu o governo no país de forma ininterrupta até 1945. De 1930 a 1934 ele foi chefe do Governo Provisório. Em 1934 foi eleito presidente da república pela Assembleia Nacional Constituinte e exerceu o Governo Constitucional até 1937, quando por meio de um golpe instaurou a ditadura do Estado Novo, que durou até 1945. Retirado do comando do país por um golpe militar, se recolheu à sua cidade natal, São Borja (RS), de onde articulou sua volta ao poder pela via democrática nas eleições presidenciais de 1950.

O crime da rua Tonelero

Lacerda conversava com o major Vaz, integrante da equipe de oficiais que faziam espontaneamente sua guarda pessoal durante a campanha do jornalista para deputado federal, quando um homem disparou contra eles. O jornalista correu para a garagem de seu prédio e voltou para revidar os tiros. O autor dos disparos conseguiu fugir em um carro, que teve a placa anotada pelo guarda municipal Sálvio Romeiro, atingido por um disparo. Ao todo seriam três pistoleiros envolvidos segundo a primeira versão contada por Lacerda, que também foi atingido por um tiro na perna.

O motorista do automóvel, Nelson Raimundo, que teve a placa anotada pelo vigilante, apresentou-se na delegacia ainda naquela madrugada. Ele afirmou que fez uma corrida de táxi, mas disse que não conhecia os passageiros e não sabia o motivo da corrida. O que chamou a atenção nas declarações do motorista foi o local onde ele fazia ponto como taxista: a rua Silveira Martins, bem ao lado do Palácio do Catete. Nas páginas de seu jornal, A Tribuna da Imprensa, Lacerda apontou Getúlio como culpado pelo atentado. “Acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o dessa noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas”, escreveu.

O motorista Nelson Raimundo continuou detido e na madrugada do dia 7 para o dia 8 de agosto fez novas revelações. Ele teria transportado dois homens, mas apenas um ele conhecia: Climério Euribes de Almeida, integrante da guarda pessoal do presidente Vargas. Nascido e criado em São Borja (RS), Climério fez parte do batalhão provisório comandado pelo irmão de Getúlio, Benjamin Vargas, durante os combates à revolução paulista de 1932, assim como Gregório Fortunato, o chefe da guarda presidencial.


Acervo da Câmara de Ponta Porã