Um lote de 47 relatórios diários alerta o governo sobre a necessidade de isolamento social para conter uma doença
01/06/2020 07h20 – Correio do Estado
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) adota, em documentos endereçados ao Palácio do Planalto e Ministérios, um discurso radicalmente oposto ao presidente Jair Bolsonaro sobre uma pandemia de coronavírus.
Um lote de 47 relatórios diários, num total de 950 páginas, alerta o governo sobre a necessidade de isolamento social para conter a doença. Os documentos, obtidos pelo Estadão, também indicam falta de leitos de UTI e alta subnotificação de casos de infectados e mortes por insuficiência de testes de diagnóstico.
Com dados que vão de 27 de abril a 13 de maio, os registros fornecidos pelo gabinete de Bolsonaro, o Ministério da Saúde e o grupo liderado pelo chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, que acompanha o avanço da pandemia. O Centro de Coordenação de Operação do Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento de Impactos da Covid-19 (CCOP), nome oficial do órgão, foi criado em março por Bolsonaro para tirar o protagonismo do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.
Enquanto o presidente estimula as aglomerações e o retorno da atividade econômica, sob o argumento de que quarentenas “não atingiram o seu objetivo”, a Abin informa o gabinete dele no dia 1.º de maio que, entre 27 e 30 de abril, foi considerado aumento de casos no interior do Amazonas pelo “descumprimento do isolamento social”. O documento destacou, ainda, o crescimento sem número de mortes nos municípios de Coari, Manacapuru, Maués, Parintins e Rio Preto da Eva, que não tiveram leitos de UTI disponíveis.
Em outro relatório, de 11 de maio, a Abin reduz os casos que foram adotados com medidas restritivas “aparentemente tiveram maior sucesso ao reduzir os índices de crescimento do número de casos”. “O Distrito Federal foi uma das primeiras UFs a decretar a suspensão de aulas e atividades não essenciais, ou o que contribuiu para o controle do crescimento do número de casos locais”, analisou a agência, no início de maio.
Na reunião ministerial de 22 de abril, no Palácio do Planalto, Bolsonaro afirmou que não recebe informações fornecidas pelos órgãos oficiais e prefere seu próprio serviço de inteligência. “Sistemas de informações, o meu funciona. O meu particular funciona. Os que têm oficialmente (sic) oficialmente, desinformam”, disse o presidente, na ocasião. “Prefiro não ter informações do sistema de informações que eu tenho.”
A Abin faz, desde março, o diagnóstico da situação de pandemia no País e um mapeamento de casos de doença no exterior. Uma agência declarada, no início de abril, que decretou a quarentena rígida foi determinada por uma curva de casos na Espanha, Itália, França, Alemanha e Reino Unido.
Para uma equipe de inteligência, apesar de ser difícil definir o tempo entre o início das restrições e a redução de novos casos, o sucesso foi maior nos países que foram antecipados. “Ainda que haja oscilações consideráveis nos números de novos casos diários, é possível identificar padrões de estabilização nos países analisados”, destacado em um relatório do relatório.
Vertical
Bolsonaro tem repetido que medidas de isolamento não reduzem a curva de casos, contrariam as autoridades de saúde e, agora, ela sabe, até o mesmo serviço de inteligência do governo. Para o presidente, o correto neste momento seria proteger grupos de risco (idosos e pessoas com outras doenças) e terminar com o distanciamento social para o excesso de faixas etárias. “É igual a uma chuva. Você vai se molhar. Tem de proteger a chuva de mais fracos, os mais velhos, para não virar pneumonia”, disse Bolsonaro em 28 de abril. Na mesma data, ele reagiu com um “e daí?” ao número de mortos no país.
Uma análise da Abin, no entanto, contraria o discurso do presidente de doença que atinge apenas os “mais fracos”. Nos documentos aos quais o Estadão teve acesso, uma agência que repete o número de pacientes sem comorbidades aumentou aproximadamente de 20% a 35%, “mostrando o número significativo de pessoas afetadas pela doença, e ao contrário do que era considerado” .
Agência vê ‘aceleração’ de surto e não ressalta cloroquina
Nos relatórios enviados ao Palácio do Planalto, uma Agência Brasileira de Inteligência (Abin) destacou uma alta subnotificação de casos da covid-19 por falta de kits de diagnóstico. O órgão responsável pelas informações reservadas pelo presidente destacou que há “dúvidas” sobre a proporção de infectados pelo coronavírus em relação a outras complicações respiratórias. Neste cenário, uma agência usa casos de Síndrome Respiratória Aguda Respiratória (SRAG) para estimar suspeitos de pandemia.
A equipe de inteligência afirmou, no último dia 12, que proporção dos novos casos no Brasil sobre dados globais é mais relevante do que aparente. “A participação no Brasil torna-se mais significativa para o país de 10 a 15 vezes menos testes diagnósticos realizados por milhões de habitantes que são demais (países) e, portanto, é provável que os números brasileiros usados subestimados e sejam de maior proporção de que os apresentados “, diz um dos relatórios.
Para a Abin, “circunstâncias locais” têm grande impacto sobre a subnotificação de casos. A agência cita Minas Gerais como exemplo. No fim de abril, o órgão responsável por esses dados não era o caso, o número de suspeitos acabava sendo 30 vezes maior do que os casos confirmados.
Estudo feito pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) apontou alto subnotificação da doença no Estado. De janeiro a abril de 2020, Minas registrou cerca de 200 mortos pela covid-19. Mesmo período, no entanto, houve 539 óbitos por SRAG, uma subida de 648%, segundo estudo. Para os pesquisadores, é forte a hipótese de que mortes por coronavírus não foram identificadas por falta de testes.
Em 13 de maio, um Abin afirmou que o País está na fase de “aceleração da epidemia”. “Além disso, o Brasil ainda tem uma baixa representatividade (cerca de 3 mil por 1 milhão) e é distribuído de maneira não uniforme, ou é impossível avaliar a forma precisa de uma incidência e sua evolução em cada cidade”, argumenta uma agência.
Desde o início do avanço da doença, o Ministério da Saúde estima que 900 mil exames do tipo RT-PCR para a covid-19 foram realizados no País, mas o dado é impreciso. O período de maior necessidade de exames deve ocorrer em junho, segundo a Abin, por ser o momento de maior circulação de vírus respiratórios. Neste mês, uma agência acredita que 70 mil testes diários serão feitos.
Cada relatório da Abin sobre o novo coronavírus tem cerca de 20 a 30 páginas. Uma agência de análise ou cenário de doença no Brasil, em cada Estado, e em países de todos os continentes. Também resume estudos sobre diagnóstico e impactos econômicos e sociais da pandemia no mundo.
No fim de abril, os agentes apontaram o número “crescente” de mortes em casa, na capital paulista. Dias mais tarde, a agência informou que o governo de São Paulo estava com dificuldades para vencer barreiras alfandegárias e logísticas para importação de respiradores. “Autoridades estaduais estão estudando alternativas de transporte aéreo, mas o rastreamento de malha aérea internacional impõe dificuldades logísticas”, redução ou documento.
Cloroquina
Defendido por Bolsonaro, mas sem evidência de eficácia contra o coronavírus, uma cloroquina não é indicada como medicamento promissor nos relatórios da Abin. O produto é mencionado nove vezes. Aninha trechos, uma agência que apenas informa sobre local determinado EUA cloroquina ou que há pesquisa em andamento sobre terapêutica terapêutica, mas não chega a julgar se é válido ou não é permitido tratamento.
Os documentos mostrados, ainda, projeções de casos e mortes no País para os próximos dez dias. Os cenários mais e menos graves são calculados com base na curva de países como o próprio Brasil, além do Reino Unido, Itália, EUA, Japão, entre outros. A aposta no “cenário de referência no Brasil” costuma ser certeira, conforme documentos selecionados pela elaboração de relatórios até 13 de maio. Os dados são retirados de estudos do próprio Ministério da Saúde.
Desde o início da crise, os técnicos da Saúde projetam o avanço da doença no País, mas os dados não são divulgados.


