05/05/2014 16h30
Carta de um Macaco aos Humanos
Diarioweb
Olá.
Eu sou o macaco. Sim, esse mesmo que vocês, humanos, passaram a semana usando como personagem de campanha contra o racismo e tal… Como é mesmo que vocês chamam esse tipo de coisa? Ah, viral, né? Mais moderna essa designação, também acho. Aliás, tenho acompanhado a evolução de vocês nas redes sociais, sempre cheios de novos termos, às vezes não dá nem pra ler. Vocês abreviam muito, usam letras misturadas com símbolos, juntam tudo, uma confusão para mim que sou apenas um macaco. Fico imaginando na Copa…
Então, eu quero dizer a todos vocês que não gostei de ter virado símbolo desta campanha #somostodosmacacos. Na verdade, ainda não entendi muito bem qual a ideia central. Vocês se consideram um de nós apenas porque comemos bananas ou porque a maioria de nossa espécie tem pelos pretos? Se esta for a razão, fiquem sabendo que também há, entre nós, macacos “loiros”, como o Rhesus, que na Índia é considerado sagrado, e o Bugiu, que vocês chamam aí no Brasil de “macaco-gritador”. São bem branquinhos. Também temos congêneres verdes, cinzas e marrons. Muitos, inclusive, estão em extinção graças a vocês, humanos queridos.
Também fiquei #xatiado – só para usar um termo moderno inventado por vocês – quando vi que o apresentador Luciano Huck rapidamente capitalizou toda essa história produzindo camisetas. Aliás, estão dizendo que a campanha toda foi um golpe de marketing criado por uma agência de publicidade, como é mesmo o nome dela? Loducca, é isso. Teve também a participação do jogador Neymar, n , ídolo de vocês, que apareceu segurando uma banana ao lado do filho. Fiquei aqui pensando, com meus galhos, como vocês são rápidos. Nós macacos não temos toda essa inteligência, não. E ainda dizem que somos os ancestrais dos humanos. Tenho um pouco de medo dessa teoria.
De qualquer forma, vocês nos ajudaram muito nesta semana. Criamos aqui na floresta, nosso habitat natural quando não nos enjaula em zoológicos nem em circos, ou dentro de laboratórios de pesquisas, uma campanha denominada #somostodoshumanos (sim, copiamos vocês). Cara, tá sendo uma loucura. Mas ao invés de postarmos fotos comendo bananas, temos postado fotos fazendo besteiras. De todo o tipo. Exatamente como vocês fazem aí. Detalhe: nossa rede social não tem a mesma velocidade e abrangência, então penduramos algumas fotos nas árvores. É aquela coisa, né: cada macaco no seu galho.
Mas então, voltemos à campanha #somostodoshumanos, que tá linda de se ver. Um gorila aqui da minha floresta postou no Monkeybook uma foto segurando um fuzil com a legenda: “Mais um dia de limpeza étnica nos morros cariocas” e usou a hashtag, lógico. Teve mais de dois mil compartilhamentos. Todos curtiram. Num jogo de futebol, um clássico entre Macacorinthians e Flamengorilas, teve um chipanzé otário que atirou uma banana num jogador, o volante Babuíno, um dos mais famosos da nossa atualidade. Babuíno ignorou a banana e o jogo prosseguiu. O chipanzé, tadinho, queria transformar a banana, nosso fast-food preferido, em símbolo de polêmica. Mas deixamos isso para vocês, que entendem melhor do assunto e de como mantê-lo aceso.
Outra foto que fez bastante sucesso em nossas árvores sociais foi a de um Mico-Leão-Dourado de terno e gravata trabalhando no Congresso Nacional, como se fosse um dos seus políticos, sabe? Só que o Mico fez tanta coisa certa que ficamos pensando que o ideal mesmo seria trocar seus líderes por macacos. Também usamos imagens do garotinho Bernardo, aquele da tragédia da cidade de Três Passos (RS), supostamente morto pela madrasta, só em lembrar fico arrepiado. Escrevemos assim: “Macacos não matam seus filhos #somostodoshumanos”. Acho que vocês não gostaram disso, né?
Pois é, algumas vezes as comparações entre homens e animais soam esquisitas… Mas eu entendo que vocês estejam num momento muito difícil, onde a informação se propaga sem o devido cuidado que ela merece. As ideias surgem a todo instante, uma característica do humano, que tem a capacidade de raciocinar com maestria. Quer dizer, muitas vezes essa capacidade escorrega na casca da banana. E vocês ainda têm essas tais redes sociais onde todo mundo diz o que quer, enfim, uma loucura…
Ah, uma coisa em comum entre humanos e macacos: alguns dos nossos também não gostaram da campanha #somostodoshumanos. Acharam preconceituosa. Um brother meu aqui da Amazônia, o Guariba-de-mãos-ruivas (sim, ele tem mãos ruivas, mas é macaco), disse que não podemos nos comparar a vocês porque nossa raça não é autodestrutiva, embora macacos e homens comam bananas. Nós não enjaulamos vocês. Não tentamos, a todo instante, extinguir sua espécie. Tampouco inventamos o “jeitinho brasileiro”, essa corda enorme que está levando todos vocês para o mesmo buraco. Enfim, virou uma confusão nas árvores sociais. Tem também quem transformou toda essa história em piada. Eu, macaco no meu galho, transformei em carta para a posteridade. Vai que amanhã eu viro cobaia, né?
Bom, humanos, é isso. Desculpe qualquer coisa, sobretudo por ter copiado a campanha de vocês. E tomem cuidado com a próxima ideia, viu? Macaquizar todo mundo só para aliviar o preconceito equivale a escorregar na própria casca da banana que comeu. E, plagiando o colunista que me emprestou este espaço, é dura a vida do trapezista! Beijo, me twitta: @macaco
P.S.: Selecionei algumas imagens que criamos para nossa campanha – e outras produzidas por vocês – a fim de ilustrar esta carta. Mas não estou conseguindo marcar ninguém. Deve ser problema nas árvores, o vento é forte aqui e a conexão não é tão boa quanto a que estão acostumados aí.


