Entre os desafios está a relação com EUA e Argentina em meio à saída de Flávio Bolsonaro do Brasil
Em seu quarto mandato como presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva terá de lidar com um cenário internacional mais complexo, no qual disputas entre grandes potências, barreiras comerciais e divergências ideológicas aumentam a pressão sobre a política externa brasileira.
O desafio será transformar o protagonismo conquistado pelo país em oportunidades econômicas concretas, sem comprometer sua autonomia nas relações internacionais, avaliam especialistas ouvidos pelo R7.
“O Brasil possui capacidade de interlocução com diferentes atores internacionais, mas isso, por si só, não garante influência política. Será necessário estabelecer prioridades, construir coalizões e transformar essa capacidade diplomática em resultados concretos”, analisa a doutora em ciência política e professora de relações internacionais da PUC-PR Natali Hoff.
Além dos problemas que se estendem há anos, como a utilização de tarifas comerciais e sanções como instrumentos de pressão, o presidente reeleito terá um novo desafio: a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e as consequências do episódio para as relações com os Estados Unidos e a Argentina.
As demais questões envolvem dívida pública e investimento estrangeiro, ampliação da autonomia internacional, recalibramento de posições políticas e recuperação da liderança regional na América do Sul. Entenda os desafios a seguir.
Resultados econômicos e investimentos
Um dos principais desafios do quarto mandato de Lula será fazer com que a presença internacional do Brasil produza benefícios econômicos concretos. Isso passa pela abertura de mercados, pela diversificação das parcerias comerciais e pela capacidade de atrair investimentos estrangeiros.
Em setembro deste ano, a dívida do governo atingiu R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto). Nesse cenário, a política externa pode ajudar a abrir mercados, diversificar parcerias e aproximar empresas e instituições financeiras de projetos brasileiros. Mas a capacidade de atrair recursos também dependerá das condições econômicas e institucionais oferecidas pelo país.
Para a economista e coordenadora dos cursos de negócios internacionais e relações internacionais da PUC-PR, Patricia Tendolini, “um dos principais desafios do novo mandato será sinalizar, desde o início, como o governo pretende conciliar os compromissos assumidos durante a campanha com uma trajetória sustentável para a dívida pública”.
“A definição da equipe econômica e a capacidade de negociação com o Congresso serão fundamentais nesse processo, pois a confiança dos investidores dependerá tanto da consistência das medidas propostas quanto das condições políticas para implementá-las. Nesse contexto, a atuação internacional pode ajudar a apresentar a estratégia econômica brasileira e ampliar o diálogo com investidores, mas essa comunicação precisará estar amparada por decisões e resultados concretos.”
Segundo ela, “o principal desafio será combinar uma política externa ativa com uma trajetória fiscal crível e um ambiente institucional previsível”.
“Essa combinação pode transformar a presença internacional do Brasil em investimentos duradouros, com efeitos sobre produtividade, emprego e desenvolvimento”, pontua. “A contribuição mais concreta da diplomacia está em ampliar oportunidades e reduzir incertezas externas. Isso envolve preservar canais de negociação com parceiros relevantes, administrar tensões comerciais, facilitar o acesso a mercados e aproximar projetos brasileiros de empresas e instituições de financiamento”, acrescenta.
Autonomia em meio à disputa entre EUA e China
Em meio a pressões geopolíticas, ao avanço do protecionismo e ao enfraquecimento de instituições multilaterais, Lula terá o desafio de ampliar a presença internacional do Brasil de forma efetiva, alinhada aos interesses nacionais, e transformá-la em influência.
O petista deve priorizar três áreas na política externa em seu quarto mandato: soberania nas relações exteriores, influência na América Latina e defesa do multilateralismo, pontua Natali Hoff.
Com a continuidade da competição entre EUA e China, a especialista diz que o ideal é manter independência pragmática entre as duas potências, o que ampliaria a soberania brasileira. A estratégia é diversificar parcerias e reduzir vulnerabilidades, sem adotar confronto permanente.
“Isso se torna ainda mais relevante diante da disputa por minerais críticos, tecnologias estratégicas e cadeias produtivas, setores nos quais o país possui recursos importantes e oportunidades de negociação. A autonomia, nesse sentido, não significa neutralidade ou equidistância entre as grandes potências, mas capacidade de formular posições próprias, diversificar parcerias e reduzir vulnerabilidades externas”, explica.
Desafio de recuperar a liderança regional
Outra prioridade apontada por Natali é recuperar a capacidade brasileira de articulação na América do Sul. A reeleição de Lula ocorreu em um cenário regional de fortalecimento de governos de direita e de divergências políticas entre os países vizinhos.
Embora a vitória do petista tenha sido interpretada internacionalmente como um freio ao avanço da direita na região, isso não significa que o Brasil tenha recuperado automaticamente sua influência sobre os demais países.
Segundo ela, “existe uma contradição importante entre a pretensão brasileira de exercer maior influência na governança global e as dificuldades que o país enfrenta para construir uma agenda consistente de cooperação com seus próprios vizinhos”.
“O Brasil dificilmente conseguirá sustentar uma atuação internacional mais relevante sem fortalecer sua inserção regional. Isso exige recuperar espaços de diálogo político, avançar na integração econômica e de infraestrutura e construir respostas conjuntas para problemas que ultrapassam as fronteiras nacionais, como o crime organizado transnacional, os fluxos migratórios e as mudanças climáticas.”
Relações com EUA e Argentina
A suposta ajudados Estados Unidos no plano de saída de Flávio Bolsonaro do Brasil pode tornar a relação entre os dois países ainda mais complexa. Entretanto, os analistas entendem que a ação não deve levar a uma ruptura diplomática.
Apesar de não esperarem um rompimento, os especialistas avaliam que o episódio também não deve abrir caminho para uma melhora significativa na relação entre os governos.
Eventuais disputas envolvendo extradição, asilo ou proteção política podem ampliar os atritos e contaminar outras áreas da agenda bilateral, como comércio, tarifas, investimentos e tecnologia.
Coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, João Alfredo Lopes Nyegray destaca que a relação já parte de forte desconfiança: Trump questionou o resultado eleitoral brasileiro, há afinidade política entre o trumpismo e a família Bolsonaro, e Lula tende a reagir duramente a sinais de interferência.
No caso da Argentina, contudo, a crise bilateral pode ter outra dimensão, em especial se as autoridades argentinas se recusarem a cooperar com o Brasil na investigação sobre como Flávio cruzou a fronteira com o país e se ele teve ajuda do governo Milei.
“E existe um precedente delicado: a Argentina já se tornou destino de brasileiros investigados ou condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, o que anteriormente levou autoridades brasileiras a buscar cooperação argentina para localizá-los. Portanto, uma eventual presença de Flávio Bolsonaro teria um simbolismo político muito maior”, pontua Nyegray.
Fonte: R7

