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domingo, 18 de outubro, 2026

Memórias de um túmulo abandonado, por José Alberto Vasconcellos

24/03/2018 07h40

Memórias de um túmulo abandonado, por José Alberto Vasconcellos

Algumas pessoas olham-no com indiferença, outras nem olham, mas sempre há alguém tomado pela curiosidade, que olha para aquele túmulo abandonado, destruído pelo tempo, coberto pelo mato e sem qualquer indicação que pudesse auxiliar na identificação de quem foi sepultado ali. Assim, sem qualquer referência, é absolutamente impossível saber-se quem e quando aquele cristão, teve aquela sepultura como última morada, para ali ser lembrado.

A cada ano, no mês de novembro, repete-se o Dia dos Finados, que é quando as pessoas dirigem-se ao cemitério para rememorar, junto ao túmulo de um ente querido, velhos tempos em que o finado ainda vivia, alegre e contando estórias. Passado um ano inteiro, até o próximo Dia de Finados, aquele velho túmulo estará ainda mais corroído pelo tempo e ninguém, nesse ano todo que passou, interessou-se em recuperá-lo, ou pelo menos, capinar o mato que o cobre. Ninguém, incluída aí a Prefeitura que tem a obrigação inescusável de manter o Cemitério limpo.

Com as vistas voltadas para o passado, avaliados os estragos que o tempo fez àquela sepultura, última morada para alguém — homem ou mulher, não se sabe — a imaginação leva-nos a descortinar uma estória, repleta de personagens contemporâneas àquele tempo, em que viveu o filho de Deus ali sepultado. Pessoas simples, que passaram a vida cultivando sonhos pequenos. A felicidade dessas pessoas que pouco almejavam da vida, cristalizavam a felicidade com o alcance de pequenas coisas. Desejos singelos realizados renovavam esperanças e davam novo alento para superar dificuldades e lutar pela vida que nunca foi fácil. Discórdias por coisas simples sempre houve, mas o tempo apaziguou e apagou das memórias qualquer sonho de revanche. Quantos sonhos não foram realizados! Quantas mortes e quantos sepultamentos acompanhados de muita tristeza! Quantas saudades! O tempo devorou tudo: sonhos, sentimentos e a própria vida dos sonhadores!

Aquele túmulo, parecendo estar dotado de uma mente humana comunica-se por telepatia, bastando tão só que, concentrados, mergulhemos no tempo em busca dos acontecimentos, que as pessoas, pela tradição, premidas pela carência de quase tudo, discutiam e trocavam experiências, procurando facilitar o trabalho e diminuir as agruras de cada um, num tempo em que ser forte era a condição indispensável, para sobreviver.

Os sucessos e os insucessos daqueles irmãos que viveram naquele tempo vão longe, carregados de dificuldades, com suas angustias e aflições, muito diferente dos dias atuais, quando já contamos com energia elétrica, água encanada e alcance de assistência médica.

Viveu, sonhou, conseguiu realizar alguma coisa, sempre com muita dificuldade; envelheceu e um dia morreu. Foi um dia de tristeza, alguém que esteve no velório lembrava-se do arrulho de uma pomba numa árvore próxima, que acentuava ainda mais a tristeza daqueles que participavam do comovente evento, onde imperava respeitoso silêncio.

A pomba com seu insistente arrulho, parecia anunciar a triste despedida daquele filho de Deus, que devolveu sua alma para o Criador. Até hoje, já passado tanto tempo, quando ouço o arrulho de uma pomba —confessou o amigo — lembro-me daquele triste dia.

Todos esses pensamentos, muitos deles relacionados com acontecimentos reais e outros ouvidos nos corredores do mundo, onde as pessoas, no fundo, são muito parecidas e incomodadas pelos mesmos males que as assolam, no correr da vida de cada um.

Sabia-se tão só, que a pessoa ali sepultada era um filho de Deus e pelo desgaste dos dentes ainda incrustados na caveira, que se tratava de uma pessoa idosa, nada mais. Pessoas idosas são queridas pelas crianças, porque contam estórias, sendo as mais interessantes, aquelas de assombrações, que as fazem ter medo quando vão dormir.

Nessas estórias, estão os relatos das dificuldades vividas, quando tudo era transportado em carros tirados por juntas de bois, que para vencer algumas léguas demandavam dias. Quando uma picada de cobra era uma sentença de morte; e um parto fora da rotina, a morte do nascituro e da parturiente, pela absoluta inexistência de qualquer assistência médica.

Aquela sepultura abandonada é a morada de uma lembrança, porque a alma que sobreviveu, foi devolvida para Deus, conforme a Bíblia Sagrada: Ecles. 12:7 “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.”

O túmulo apenas guarda o pó; a alma volta para Deus, e viverá no paraíso celeste se durante a vida terrena, foi bondosa e solidária com seus irmãos. Os corruptos que roubam os remédios dos pobres, seguramente, não terão o privilégio de morar no paraíso.

17.16.03.2018 (4750) Membro da Academia Douradense de Letras.

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Memórias de um túmulo abandonado, por José Alberto Vasconcellos

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