21/10/2015 15h20
Pacientes vão à Justiça por substância produzida pela USP, que ainda não foi testada em humanos
A Tribuna
Não há estudos que comprovem a eficácia ou segurança da substância fosfoetanolamina, produzida pelo Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) para a luta contra o câncer. Mas, na Baixada Santista, já há paciente administrando doses e outros que aguardam a chegada das pílulas em casa.
O assunto virou polêmica porque a substância, que ainda era estudada na universidade, começou a ser distribuída há anos pelo químico que conduzia as pesquisas, Gilberto Chierice – mesmo sem testes em seres humanos.
Ao descobrirem os resultados, alguns pacientes entraram com liminar na Justiça para pedir a droga – que não foi liberada ainda pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) justamente pela falta de testes.
A confusão piorou depois que o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que havia suspendido as liminares favoráveis à retirada do produto, liberou a substância a um paciente do Rio de Janeiro. Com isso, a USP foi forçada a entregar a substância a todos com liminar favorável.
A USP diz que a fosfoetanolamina não é remédio. E reafirma que não há segurança, além da falta de prescrição médica. “Portanto, não se trata de detalhe burocrático o produto não estar registrado como remédio. Ele não foi estudado para esse fim e não são conhecidas as consequências de uso”.
Gustavo dos Santos Fernandes, oncologista e presidente eleito da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, espera que se ofereça um tratamento seguro. “A substância é promissora, mas existem muitas outras assim. Ela precisa passar pelos testes clínicos necessários”, diz.
Na região
Enquanto isso, pacientes que preferem não aguardar só no próprio tratamento, esperam a pílula chegar, como é o caso da veterinária Adriana Frison de Castro, de 37 anos, moradora de Bertioga.
Ela conseguiu a liminar,mas a substância ainda não chegou. Aguarda numa fila, enquanto faz outros tratamentos contra o câncer no estômago. “Não tenho ideia de quando vai chegar. E quimioterapia, sinceramente, é a parte do tratamento que te mata. Você fica bem e quando faz a quimio, parece que vai morrer. Só quem faz sabe o que passa. Quero tentar outras formas”.
Marcelo Fernandes de Andrade, advogado da paciente, também tem mais dois clientes da região aguardando o recebimento da substância. Outro profissional da região, Adriano Dias conta que também é bastante procurado: recebe pelo menos, dez telefonemas diários para falar do tema. “E em fase terminal não atendi ninguém ainda. A maioria das liminares saíram para pacientes recém diagnosticados, que vão tentar isso antes de passar, por exemplo, por procedimento cirúrgico”, conta.
Marlene Nascimento de Souza, de 72 anos
A moradora de Praia Grande passou oito meses com dor procurando diagnóstico médico. Apontaram problema de coluna, coração. Mas há três meses as dores a impediram de andar e até para encostar na cadeira ela precisava de almofada. Era um tumor entre o pulmão e o coração, com possível metástase óssea.
Devido à idade da paciente, os médicos optaram por tratamento paliativo e lhe deram mais três meses de vida.
Mas há uma semana ela começou a tomar fosfoetanolamina – que ficou conhecida como a pílula do câncer. Voltou a andar, sente-se melhor e foi visitar a família em São Paulo.
Marlene conseguiu o remédio por intermédio da neta Nátaly de Souza Alves, de 23 anos, estudante de Nutrição que entrou na Justiça e conseguiu parecer favorável à liminar na vara de São Carlos.
“Como a médica falou que não ia ter o que fazer, li sobre a substância e tentei analisar mesmo sendo leiga. Eu não iria dar algo que fizesse mal para a minha avó”, conta a neta.
Marlene, que não sabia do que se tratava, passou a tomar as cápsulas azuis e brancas. Sabe que a substância não foi liberada pelo governo, mas é a favor da liberação. “Me sinto bem melhor. E você acha que a indústria quer a cura? Eu não comia nada. Pesava 74 quilos e passei para 59.
Não posso operar pelo tumor estar perto do coração e não me passaram tratamento. Se eles não querem fazer, eu quero. A gente é dono do corpo da gente. Por quê não tomar? É uma responsabilidade nossa. Não vou parar e vou conseguir, se Deus quiser”, diz a paciente.
Na foto, ela está com a sobrinha Ana Cláudia do Nascimento Albuquerque.


