10/05/2018 08h50
Carro emparelhou com outro veículo e iniciou disparos, assim como no homicídio da vereadora. Orlando Curicica foi apontado por sobrevivente que, anos depois, mudou a versão.
G1
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“Os disparos foram efetuados a pouca distância e contra suas cabeças”, conclui o inqúerito.
A principal diferença na dinâmica dos crimes está no momento dos tiros. Contra Marielle, os autores estavam dentro do carro e colocaram a submetralhadora para fora da janela. Em 2015, numa região de terra batida e menos exposta às câmeras, os assassinos puderam desembarcar. Entre 10 e 12 tiros acertaram o carro.
“Após descerem do veículo, efetuaram diversos disparos de arma de fogo contra as vítimas, causando-lhes lesões corporais”, diz a investigação.
A autoria do crime de 2015 foi atribuída a Orlando por um dos passageiros do veículo atacado, que sobreviveu graças ao atendimento médico. A vítima precisou passar por uma cirurgia, perdeu o baço e ficou com uma bala alojada no corpo. Recuperada, apontou Orlando como o mandante em depoimentos no hospital e na delegacia. Depois, em juízo, voltou atrás e negou tudo.
Ao magistrado, disse apenas que era vizinha de um dos acusados, William Negão, e que havia trabalhado para Orlando. Mas, desta vez, disse que não conhecia o apelido de William, tampouco sabia que ele era “segurança” de Orlando.
A divergência entre os depoimentos foi assim explicada: “Disse que consultou o andamento processual e verificou que o segundo depoimento prestado não era verdadeiro. Indagada pelo magistrado sobre a impossibilidade de tal consulta, eis que os depoimentos em sede policial não ficam disponíveis para consulta, disse ter assinado sem ler”.
Reviravolta pode libertar ex-PM
O novo depoimento provocou uma reviravolta na investigação no Tribunal do Júri. Antes de julgamento, o juiz Alexandre Abrahão Dias Teixeira pediu a suspensão do processo para o “segurança” William, por falta de provas.
O juiz é o mesmo que causou polêmica, em abril do ano passado, ao soltar policiais militares flagrados, em vídeo, executando traficantes deitados, com as mãos para trás – a estudante Maria Eduarda morreu durante o mesmo tiroteio, a poucos metros dali. À época, o magistrado justificou estar “ouvindo as vozes das ruas”.
A desembargadora Monica Tolledo de Oliveira, que negou pedido de habeas corpus em favor de Orlando, presume que a testemunha mudou de discurso por medo da milícia.
“É cogitável que a testemunha tenha se intimidado para depor e confirmar relatos que fez em sede policial por temer represália”, escreveu a magistrada. A polícia, por sua vez, fala em “evidente temor”.
O pedido de liberdade que não foi atendido é assinado por Rodrigo Roca, advogado de Sérgio Cabral na Lava Jato. Roca já deixou o caso do miliciano. Renato Darlan, atual advogado do ex-policial militar, aposta que o caso vai ser arquivado já que todas as versões foram alteradas.
“Na sentença de impronuncia dos executores, o magistrado atesta que não haveria provas. Só a versão do investigador (seria a prova)”, argumenta.
O magistrado Alexandre Abrahão Dias Teixeira também minimizou a versão policial.
“Em que pese o respeito que tenho pelos investigadores, constato, com total clareza, o isolamento da versão policial”, escreveu juiz.
Miliciano, como atestam inquéritos policiais, Orlando teria encomendado o crime em Curicica porque a vítima não pediu “autorização” para alugar um terreno de um circo. O acusado ficou foragido por um ano e foi preso em outubro por esse crime. Uma arma de uso restrito estava em sua posse.
Mesmo preso, segundo o delator que ligou Orlando ao caso de Marielle, o miliciano comanda regiões da Zona Oeste. Da cadeia, teria o ameaçado ao responsabilizá-lo pela prisão. Por isso, o delator procurou a polícia e contou tudo o que sabia.



