A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, participou nesta quinta-feira (26) do lançamento do Atlas das Mulheres do Espírito Santo, iniciativa do Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual das Mulheres, que articula dados estatísticos e escuta qualificada para orientar a formulação de políticas públicas mais eficazes e alinhadas à realidade das mulheres.
Durante o evento, realizado na capital capixaba, a ministra destacou que iniciativas como o Atlas representam um avanço na construção de políticas públicas mais conectadas com a vida concreta das mulheres. “Não existe possibilidade de revertermos as desigualdades sem estudo, pesquisa e conhecimento da realidade das mulheres. Um instrumento como este Atlas é fundamental porque organiza informações, dá visibilidade às diferentes vivências e nos orienta na construção de políticas públicas mais justas e eficazes”, destacou.
O documento é resultado de uma ampla pesquisa realizada entre 2024 e 2025, que ouviu mais de 1,4 mil mulheres em 19 segmentos sociais, a partir de rodas de conversa em diversas regiões do estado. A publicação reúne ainda dados do Censo 2022 do IBGE e de outras bases nacionais, compondo um retrato aprofundado das condições de vida das mulheres capixabas.
>> Acesse o Atlas das Mulheres na íntegra.

- Foto: Helio Filho/SECOM-ES
Entre os principais achados, o Atlas revela que 48,14% das mulheres são as principais provedoras de seus lares, percentual próximo ao identificado pelo Censo (45,5%), evidenciando o protagonismo feminino na sustentação das famílias. Em alguns segmentos, essa proporção é ainda maior, como entre trabalhadoras domésticas (76%), mulheres idosas (75%) e mulheres periféricas (64,4%).
Apesar desse avanço, o levantamento aponta que a autonomia econômica ainda é atravessada por desigualdades estruturais, especialmente de raça. Mulheres pretas e pardas seguem concentradas nas posições mais precarizadas do mercado de trabalho, com menores rendimentos e maiores dificuldades de inserção qualificada, além da sobrecarga com o trabalho doméstico e de cuidado.
Outro dado relevante diz respeito à educação: mulheres que vivem em áreas rurais apresentam menor escolaridade, com maior incidência de ensino fundamental incompleto entre grupos como mulheres pomeranas (38,5%), assentadas e acampadas (37,5%), pescadoras e marisqueiras (35,1%) e quilombolas e ciganas (33,3%). Relatos apontam fatores como trabalho precoce, dificuldade de acesso à escola e preconceito como causas da evasão escolar.
Na área da ciência, o Atlas evidencia que a participação feminina diminui ao longo da carreira, sendo de apenas 27% entre pesquisadores com mais de 21 anos de atuação. As mulheres apontam a maternidade e a ausência de políticas institucionais de apoio como entraves para a progressão profissional.
O documento também traz um retrato das mulheres em situação de rua, grupo majoritariamente composto por mulheres negras – 92% se autodeclaram pretas ou pardas. Entre os principais desafios relatados estão a violência constante, a falta de acesso a itens básicos de higiene e o sofrimento decorrente da separação de seus filhos.
Sobre esse cenário, a Márcia Lopes destacou a necessidade de respostas públicas mais específicas e integradas. “Esse levantamento mostra, de forma muito concreta, como as desigualdades se aprofundam quando gênero, raça e condição social se cruzam. A realidade das mulheres em situação de rua escancara a urgência de políticas públicas que considerem essas múltiplas vulnerabilidades”, alertou.
Ela também reforçou a necessidade de enfrentar essas violações com prioridade: “Não podemos naturalizar que mulheres vivam sem acesso ao básico, expostas à violência e afastadas de seus filhos. O Atlas nos chama à responsabilidade de construir políticas públicas que garantam dignidade, proteção e oportunidades para essas mulheres”.
Construção coletiva e inovação
Com mais de 600 páginas, o Atlas das Mulheres do Espírito Santo se destaca por sua metodologia híbrida, que combina o rigor dos dados com a escuta direta das mulheres. Ao longo da pesquisa, foram percorridos mais de 16 mil quilômetros e realizadas 155 ações de campo.
Além de indicadores, o documento incorpora relatos, sentimentos e percepções das participantes, trazendo à tona aspectos como a sobrecarga do trabalho de cuidado, o racismo enfrentado por mulheres de comunidades tradicionais e os impactos das desigualdades no cotidiano.
Ao ressaltar a importância da escuta qualificada, a ministra afirmou que a produção de conhecimento deve estar diretamente conectada com a realidade das mulheres. “Se nós queremos transformar de fato a vida das mulheres, precisamos sair dos gabinetes, conhecer os territórios, dialogar com quem vive as realidades e, principalmente, produzir conhecimento sobre essas vivências. Não há política pública eficaz sem escuta, sem dados e sem compromisso com aquilo que as mulheres estão dizendo”, destacou.
O evento de lançamento contou também com a participação da secretária de Estado das Mulheres do Espírito Santo, Jacqueline Moraes, da coordenadora do projeto, Jaqueline Sanz, que apresentou os principais resultados da pesquisa, e da advogada Fayda Belo, que abordou a interseccionalidade e o enfrentamento à violência.
Outras agendas
Antes do lançamento, a ministra Márcia Lopes reuniu-se com o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, a secretária de Estado das Mulheres do Espírito Santo, Jacqueline Moraes, além de parlamentares e outras autoridades para dialogar sobre o Atlas.
A agenda em Vitória (ES) nesta quinta-feira (26) também incluiu a participação da ministra na Roda de Conversa com Gestoras Municipais de Políticas para as Mulheres do Espírito Santo. O encontro reuniu parlamentares e representantes de diferentes municípios para o compartilhamento de experiências, desafios e boas práticas na gestão de políticas públicas voltadas às mulheres nos territórios.
Durante a atividade, foram debatidos temas como o fortalecimento das redes de atendimento e a importância da atuação articulada entre União, estado e municípios para garantir respostas mais efetivas às demandas das mulheres. Na ocasião, a ministra destacou o Pacto Brasil entre os Três Poderes para o Enfrentamento do Femincídio e o papel estratégico das gestoras municipais na ponta da política pública, especialmente na identificação das necessidades locais.
A agenda inclui ainda o Encontro com Movimentos de Mulheres do Espírito Santo, às 16h15, reforçando o compromisso com o diálogo permanente com a sociedade civil.
Fonte: Ministério das Mulheres

