O impacto mais forte da alta do combustível ainda deve aparecer no segundo e no terceiro trimestres, conforme avaliação de executivos do setor citada pelo Valor.
A crise nacional da aviação encontra Mato Grosso do Sul em situação desigual. Dados colhidos pelo Campo Grande News, nesta segunda-feira (18), no Relatório de Demanda e Oferta da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) mostram que, até março, ainda não havia queda generalizada nos aeroportos do Estado, mas já apareciam sinais de fragilidade no mercado regional.
O retrato local é de aeroportos em ritmos opostos: Campo Grande perdeu fôlego, Ponta Porã encolheu, Bonito cresceu, Corumbá oscilou e Dourados avançou. No interior, porém, há um ponto comum que pesa mais em cenário de crise: a dependência de poucas companhias, em alguns casos de apenas uma empresa.
Esse levantamento local foi feito em meio à pressão nacional sobre as aéreas. Reportagem do Valor Econômico mostrou que a disparada do QAV (querosene de aviação), puxada pela alta do petróleo após o início da guerra no Oriente Médio, levou companhias a reverem a oferta de voos no Brasil.
Segundo o jornal, consulta ao sistema SIROS (Sistema de Registro de Operações) da Anac indicava, em 2 de abril, previsão de 2.193 voos por dia em maio no mercado brasileiro. Em nova consulta, feita em 12 de maio, a oferta diária havia caído em 93 voos, queda de 4,3%, com cerca de 14 mil assentos a menos por dia.
A própria leitura nacional exige cautela no recorte estadual. O impacto mais forte da alta do combustível ainda deve aparecer no segundo e no terceiro trimestres, conforme avaliação de executivos do setor citada pelo Valor. Como os dados locais disponíveis no painel da Anac vão até março, eles mostram mais o ponto de partida de Mato Grosso do Sul diante da crise do que o efeito completo dos cortes.
Na Capital, principal mercado aéreo do Estado, o Aeroporto Internacional de Campo Grande fechou março com 59,3 mil passageiros, 73,2 mil assentos e taxa de aproveitamento de 81%. Em janeiro, eram 62 mil passageiros, 73,4 mil assentos e ocupação de 84,3%. Ou seja, a oferta ficou praticamente estável, mas houve queda no número de passageiros e na ocupação.
No indicador RPK (passageiros transportados por quilômetro voado), Campo Grande somou 52,5 milhões em março, queda de 9,8% em relação ao mesmo mês de 2025. A retração, porém, não foi igual entre as empresas. A Latam cresceu 3,1%, enquanto a Gol caiu 11,2% e a Azul recuou 36,7%. No acumulado de abril de 2025 a março de 2026, o aeroporto registrou 670 milhões de RPK, queda de 1,2% ante o período anterior.
Em Ponta Porã, o sinal é mais preocupante. O aeroporto teve 1.009 passageiros em março, 1.714 assentos e taxa de aproveitamento de 58,9%. O RPK caiu 27,3% na comparação com março de 2025. No acumulado de 12 meses, a queda foi de 21,8%. O painel mostra a Azul com 100% da participação de mercado no aeroporto, o que deixa a cidade mais exposta a qualquer ajuste de malha feito pela companhia.
Bonito aparece como exceção positiva. O aeroporto registrou 3.679 passageiros, 4.864 assentos e ocupação de 75,6% em março. No RPK, houve alta de 55,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No acumulado de 12 meses, o avanço foi de 12,7%. A leitura é favorável, mas não sem ressalvas: em janeiro, a ocupação era maior, de 82,7%, com 4.563 passageiros e 5.518 assentos. O aeroporto cresceu no comparativo anual, mas perdeu aproveitamento no curto prazo.
Corumbá mostra o quadro mais instável. O aeroporto aparece sem movimento registrado em janeiro no painel, mas fechou março com 1.736 passageiros, 2.312 assentos e taxa de aproveitamento de 75,1%. No RPK, houve queda de 4,9% ante março de 2025. Ainda assim, no acumulado de 12 meses, o crescimento foi de 78,7%, resultado que pode refletir base anterior baixa ou retomada de operação. Assim como Ponta Porã, Corumbá aparece com operação concentrada na Azul.
Dourados teve avanço no curto prazo. O aeroporto passou de 1.561 passageiros em janeiro para 3.121 em março. A oferta também subiu, de 2.176 para 4.476 assentos. A taxa de aproveitamento, porém, caiu de 71,7% para 69,7%. No RPK, o aeroporto registrou 2,7 milhões em março e 10,6 milhões no acumulado de abril de 2025 a março de 2026. O painel mostra a Latam com 100% da participação de mercado no recorte analisado.
O cenário nacional ajuda a explicar por que essa dependência importa. Segundo o Valor, a Azul informou corte de 5% na oferta de assentos prevista para maio e junho, em razão da alta do QAV. O presidente da companhia, Abhi Shah, disse que a empresa tem feito ajuste de capacidade, aumento de tarifas e priorização de rotas mais rentáveis. A Latam também cancelou projeções de crescimento de assentos para 2026 e reduziu em cerca de 3% a oferta prevista para junho. Já a Gol, conforme fontes ouvidas pelo jornal, teria cortado cerca de 6% da oferta prevista de assentos em maio e junho.
Fonte: Campograndenews

