Muito antes de a energia elétrica chegar às fazendas, o caminho para casa terminava onde acabava a estrada. Depois, era preciso seguir de trator. Na época das cheias, o isolamento fazia parte da rotina. Na seca, longas caminhadas em busca de água completavam um cotidiano marcado pelo trabalho e pela resistência.
Na região da Nhecolândia (Pantanal de Mato Grosso do Sul), uma jovem assumia a cozinha de uma fazenda, preparando refeições para cerca de 20 trabalhadores sob a luz de lamparinas e velas.
Histórias como essas, vividas por Leonice Clemente Vidal e Ana Paula Clemente Lemes, integram o livro “Olhares – Histórias de Mulheres Pantaneiras da Nhecolândia”, da escritora e pecuarista Gabriela Bacchi. A obra reúne relatos de trabalhadoras rurais responsáveis por preservar parte da cultura e das tradições pantaneiras.
A obra vai além dos relatos ao apresentar capítulos dedicados ao bioma pantaneiro e receitas tradicionais preparadas em comitivas e fazendas. Também reúne um glossário de expressões típicas da região, que ajuda o leitor a compreender o modo de falar e de viver no Pantanal.
Memórias construídas entre desafios e aprendizados
Aos 62 anos, Leonice Clemente Vidal, natural de Rio Verde de Mato Grosso (MS), lembra que chegou ao Pantanal aos 20 anos e conta que encontrou uma realidade distante do conforto da cidade: faltava energia elétrica, água encanada e acesso fácil ao transporte. Durante a cheia, o deslocamento dependia de tratores. Na seca, era preciso percorrer grandes distâncias para conseguir água.
Apesar das dificuldades, foi naquele ambiente que construiu sua família e estabeleceu uma relação profunda de carinho e respeito com o território. “O começo foi difícil e o isolamento despertava saudades da minha família. Porém, com o passar dos anos, eu aprendi a gostar muito do Pantanal e das pessoas com quem convivi. Criei laços de amizade e aprendi muito com a sabedoria dos mais velhos”.
Questionada sobre como se sente ao ter sua trajetória pessoal relatada em um livro, a trabalhadora responde: “Eu fiquei muito feliz pelo convite e por minha experiência ser lembrada a ponto de fazer parte de um livro. Nos últimos anos, percebi que está cada vez mais difícil encontrar pessoas interessadas em morar e trabalhar no Pantanal, por isso acho importante contar nossas histórias”.
Leonice trabalha há quase 40 anos em fazendas do Pantanal
Quando as mulheres deixam de ser invisíveis
Ana Paula Clemente Lemes tem 33 anos, nasceu em Corumbá (MS) e conta que o primeiro emprego foi de cozinheira em uma fazenda no Pantanal. Ela lembra que resolveu ir para a propriedade, a fim de ajudar a tia com as atividades domésticas, e, em pouco tempo, ficou responsável por assumir uma cozinha que preparava refeições diárias para mais de 20 trabalhadores. “Meu tio foi muito importante no começo do meu ofício e me acordava de madrugada para preparar o desjejum dos homens que trabalhavam no campo”.
A trabalhadora acredita que muitas pessoas ainda desconhecem a intensidade do trabalho feminino desenvolvido nas fazendas. “Por várias vezes me disseram que a atuação da mulher é mais leve no Pantanal, mas não é assim, não. A cozinha é a primeira a começar e a última a terminar. Os homens encerram as atividades no sábado à tarde, enquanto nós ficamos na lida de domingo a domingo.”
Na opinião de Ana Paula, a participação no livro é muito mais do que uma homenagem, pois, retrata as lembranças de quem participa ativamente da gestão de uma fazenda. “Me senti muito feliz em contar minha história, já que o trabalho feminino também é muito importante no dia a dia do Pantanal”.
Olhares transforma memórias em patrimônio cultural
Ao longo da produção de “Olhares”, Gabriela Bacchi conta que percebeu um elemento comum em praticamente todas as entrevistas: a capacidade dessas mulheres de transformar simplicidade em riqueza humana. “Sempre me encanto com a sabedoria delas diante das coisas simples. Transformam o pouco em abundância e o simples em essencial.”
Ao reunir as histórias das trabalhadoras, Gabriela espera despertar no leitor o respeito pelas mulheres que, muitas vezes em silêncio, sustentaram famílias, preservaram tradições e ajudaram a escrever a história do Pantanal com coragem, fé e generosidade.
Para a escritora, preservar essas memórias também significa reconhecer que a identidade pantaneira foi construída por pessoas cujas histórias raramente chegaram aos livros.
“Quero que o leitor feche o livro com a sensação de ter estado no Pantanal e de compreender que o verdadeiro patrimônio desse lugar está nas pessoas que constroem sua história todos os dias”, conclui.
Sobre a obra
Olhares é o livro de estreia da escritora e pecuarista sul-mato-grossense Gabriela Bacchi de Araujo Guimarães. Construída a partir de entrevistas com 26 mulheres que vivem ou viveram em fazendas do Pantanal de Mato Grosso do Sul, a obra reúne relatos sobre o cotidiano do trabalho feminino na região. Além disso, apresenta capítulos dedicados ao bioma, à história local, às tradições pantaneiras, receitas típicas e um glossário de expressões características desse universo cultural. O lançamento está previsto para agosto, em Campo Grande (MS).
Ao registrar histórias que durante décadas permaneceram restritas ao cotidiano das fazendas pantaneiras, Olhares transforma memória oral em patrimônio cultural e convida o leitor a enxergar o Pantanal a partir da perspectiva de quem ajudou, silenciosamente, a construir sua história.

