O Brasil que pesquisa, sonha e transforma: 75 anos de CNPq

Alana Vasconcelos, Gisele Peres, Cristhiano Duarte e Manuelle Pereira. Foto: Rodrigo Cabral (ASCOM/MCTI)

Há pesquisas que nascem da curiosidade. Outras, da urgência. Algumas começam num laboratório. Outras, numa sala de aula, num território isolado, no silêncio de uma dor antiga ou no olhar atento de quem vive o problema todos os dias. 

Ao completar 75 anos, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pode ser contado de muitas formas. Pela história institucional. Pelos editais. Pelas bolsas. Pelas descobertas que ajudou a tornar possíveis. Mas há um jeito mais verdadeiro de falar de sua importância: olhar para as vidas que seguiram adiante porque, em algum momento, a ciência pública lhes estendeu a mão. 

A trajetória da professora doutora Gisele Louro Peres, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), é uma dessas histórias. Nascida e criada em Rio Grande, no Rio Grande do Sul (RS), ela diz que nunca imaginou viver uma cena como a de agora, celebrando a data como cientista. “Nem nos meus sonhos mais ousados imaginei estar aqui, celebrando os 75 anos do CNPq. Que honra. Que privilégio”, afirma. 

Sua pesquisa não nasceu apenas de uma pergunta científica, mas de uma inquietação profundamente humana: a dificuldade de diagnosticar o câncer cedo, sobretudo para quem não consegue acessar exames caros e invasivos. Foi dessa realidade que surgiu o trabalho com um biossensor voltado à detecção precoce da doença, capaz de reconhecer marcadores tumorais específicos. “Para mim, toda pesquisa nasce de um lugar: da curiosidade para resolver um problema real… ou da dor”, resume. 

Se no caso de Gisele a pesquisa parte da dor, na trajetória do matemático Cristhiano Duarte a ciência aparece como travessia, retorno e retribuição. Filho de dois servidores públicos, ele relembra um caminho que passou pela iniciação científica, pela circulação internacional e pela consolidação de uma carreira dedicada à física quântica — sempre com a marca do investimento público no horizonte. 

“Estou onde estou por causa do investimento público: das cotas, da expansão universitária, do apoio contínuo das nossas agências de fomento”, afirma. Foi esse ambiente de formação, de intercâmbio e de pesquisa que permitiu que muitos cientistas, como Cristhiano, colaborassem para pesquisas de ponta, atraiu talentos internacionais e ajudou a colocar grupos brasileiros em posição de destaque em uma área estratégica para o futuro. 

Mas a trajetória dele não é feita apenas de circulação internacional e pesquisa de fronteira. Ela também é marcada pelo desejo de retorno. Depois de passar por diferentes instituições no Brasil e no exterior, ele voltou à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), movido pela vontade de retribuir ao País tudo o que recebeu da educação pública e das agências de fomento.  

Outra história que merece ser contada é a de Alana Vasconcelos, que fala de permanência, oportunidade e futuro. Doutora em educação e ex-bolsista de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas, ela representa uma geração de pesquisadoras que encontrou na ciência um caminho para transformar conhecimento em solução concreta, sem precisar sair do lugar de onde veio. Em Aracaju (SE), construiu sua trajetória articulando pesquisa, inovação e formação de pessoas, mostrando que a produção científica brasileira também ganha força longe dos centros mais tradicionais.  

Ao olhar para esse percurso, Alana resume o que está em jogo quando se fomenta a ciência: “Continuem investindo nas pessoas, em educação, ciência e tecnologia, porque são elas que transformam talentos em soluções e ideias em desenvolvimento para o País”. 

Na Amazônia, a ciência ganha outro ritmo. Anda de barco, escuta o tempo da floresta, aprende com quem vive nela. A jovem pesquisadora Manuelle Pereira, estudante de Engenharia Florestal, levou esse princípio ao centro do trabalho que desenvolveu no Vale do Jari, junto a extrativistas da castanha-da-amazônia. 

Seu projeto, o Kit Solar Castanheiro, nasceu de uma constatação simples e urgente: muitos trabalhadores passam dias ou meses na floresta sem acesso à energia elétrica, dependendo de geradores caros, poluentes e pouco eficientes. Mas o que torna sua experiência singular não é apenas a solução técnica. É o modo como ela foi construída. “Essa não é uma tecnologia feita para a comunidade, ela foi construída com a comunidade”, afirma. 

Como em tantas outras trajetórias científicas no Brasil, o caminho de Manuelle também foi sustentado por bolsas que permitiram que ela seguisse pesquisando, estudando, indo a campo e acreditando no próprio lugar na ciência. “Essas bolsas não foram apenas um apoio financeiro, elas foram o que me permitiu permanecer na pesquisa”, afirma. 

Em comum, as quatro histórias têm origens diferentes, territórios diferentes, perguntas diferentes. Uma cientista que tenta tornar o diagnóstico do câncer mais acessível. Um pesquisador que voltou para casa para retribuir ao País o que recebeu dele. Uma nordestina que transformou conhecimento em tecnologia de ponta. Uma jovem que aprendeu a fazer ciência ouvindo a floresta Amazônica e seus trabalhadores. 

Ao longo de 75 anos, o CNPq ajudou a fazer da ciência uma política de Estado e uma experiência de vida. Como vinculada do MCTI e um de seus braços mais importantes, sua presença se revela justamente onde ela é menos abstrata: nas pessoas que puderam sonhar mais longe porque houve, antes delas, um compromisso público com o conhecimento. 

Leia também

CNPq celebra 75 anos impulsionando ciência, inovação e soberania nacional

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação