17/12/2015 16h40
O Caso Fabíola: “APEDREJAMENTO DIGITAL”
Escrito por Anéria Lima
Andremansur.com.br
Com que direito nós, simples mortais, nos vestimos de “carrascos”, julgamos e condenamos pessoas, sem dar a elas o direito à defesa? Será que possuímos sentimentos tão sádicos, a ponto de não nos colocarmos no lugar de alguém que está sendo execrado publicamente? Mesmo que fosse em nome da “moral e dos bons costumes, será que alguém tem esse direito?
Estou falando do caso Fabíola, cujo vídeo viralizou nas redes sociais. Ela traiu seu marido e foi pega em flagrante, entrando num motel com o amante que, por uma infeliz coincidência, era também o melhor amigo de seu marido. Já desconfiado da traição, o marido seguiu a esposa, acompanhado por um amigo, e teve uma reação violenta – como era de se esperar. Um amigo que o acompanhou até o local, filmou toda a situação, mostrando indignação e questionando Fabíola com perguntas desconcertantes e, na minha opinião, desnecessárias.
Tudo bem até aí… Mas o que aconteceu a seguir não tem nada de normal, pois o fato deveria ter ficado restrito ao âmbito privado, uma vez que é APENAS da conta do casal. Nada justifica a gigantesca invasão de privacidade da qual essa mulher está sendo vítima. Seu nome e imagem (além do vídeo postado de forma irresponsável) está rodando nas redes sociais, com comentários pejorativos e preconceituosos, revelando uma crueldade e uma hipocrisia impressionantes.
Vários perfis foram criados com o claro objetivo de promover o “apedrejamento digital” de Fabíola! Até uma música foi composta para “divertir” a massa de internautas desavisados, que não param para refletir na crueldade por trás dessa loucura e o impacto que isso vai ter na vida das pessoas envolvidas, direta ou indiretamente – como é o caso dos filhos, pais e demais familiares.
Chegaram ao absurdo de postar uma foto de sua filha, uma criança inocente, que não deveria ter sua imagem exposta nem vinculada a tal situação. Por que fazer chacota de uma família, justamente num momento de tanta fragilidade desse casal? Que prazer pode advir disso? Eu mesma respondo: é porque não é suficiente atacar a honra dos indivíduos, mas é também “necessário” estender a desonra à família, não importa a que preço! Isso caracteriza o comportamento sociopata de muitos hoje em dia, uma verdadeira epidemia!
Quanta maldade, quanta falta de compaixão! A máxima religiosa “atire a primeira pedra aquele que não possui pecado” precisa urgentemente ser lembrada, pois vivemos em um mundo sem misericórdia aos defeitos alheios e de negação dos próprios defeitos. Dessa forma, o falso moralismo mostra sua cara! Encontraram um bode expiatório à altura, para se banquetearem às suas custas. Quanto mais desaforos, insultos e xingamentos à mulher adúltera, melhor! Se a lei permitisse, como acontece nos países islâmicos, aposto que sairiam às ruas e promoveriam o “apedrejamento real” de Fabíola. Hipócritas!
Entendo a atitude do marido traído que, num momento de raiva e diante de um profundo choque emocional, se descontrolou e agiu com violência. Com certeza, em seu coração, a dor foi muito mais forte que seus murros no vidro do carro. Mas não entendo, muito menos aprovo, a atitude da pessoa que filmou e publicou o vídeo na internet – esse sim o verdadeiro culpado – que ainda não pronunciou uma palavra, um gesto de arrependimento ou um pedido de perdão pelo enorme estrago que fez na vida dessas pessoas, ao tornar público um momento tão delicado e difícil de se vivenciar.
Que espécie de “melhor amigo” é esse que viola o direito de privacidade de um casal, talvez em busca de “cinco minutos de fama”? Merece ser incriminado, processado e pagar por seu ato impensado. Ao desencadear essa reação insana da turba de pessoas que se arvoraram em condenar Fabíola, esqueceu-se de que o adultério acontece muitas e muitas vezes, sem que haja repercussão pública, bullying, “apedrejamento virtual”, desonra de indivíduos e de famílias. Isso porque, graças a princípios de respeito ao semelhante, muitos entendem que tais acontecimentos não devem ser alardeados em público, mas sim discretamente mantidos em seu lugar: na privacidade das pessoas envolvidas.
Também é de se estranhar o silêncio do amante, que deixa a mulher ser “queimada” sozinha na fogueira da injúria. Um ato de covardia pura! E, por último, os milhares de cúmplices dessa ação bárbara, que curtem, comentam maldosamente e compartilham a “notícia da hora”…
O que estamos presenciando, a meu ver, é a volta ao tempo da política do “panis et circenses”. Para quem não conhece essa expressão latina, seu significado é “pão e circo”, referindo-se à política do Império Romano de promover festivais sangrentos para o entretenimento do povo, como uma forma de controlar e distrair a plebe, para que não se revoltassem com a situação de miséria e desigualdade social em que viviam.
Nessas ocasiões, haviam jogos (batalhas de vida e morte) entre gladiadores e pessoas consideradas desonrosas – que eram condenadas à morte pública nas famosas arenas, sendo a mais famosa delas o Coliseu, em Roma. A arena ficava repleta de espectadores que, em êxtase, gritavam, xingavam e incitavam a violência. “Marta, mata, mata!!!”, gritavam em coro. Uma verdadeira carnificina, com direito ao “espetáculo” da morte de cristãos, pessoas comuns e criminosos, jogados aos leões para serem comidos vivos. Promoviam tais “eventos” para divertir o povo, como num circo (circenses) e, durante esses acontecimentos “festivos”, havia a distribuição gratuita de pão (panis), pois era necessário distrair a plebe da miséria e desigualdade social em que viviam inseridos.
Esse era o cenário da sociedade da época… Alguma semelhança com a sociedade atual? Sim! Infelizmente, continuamos ainda hoje, de certa forma, com a cultura do “pão e circo”. Porém, a maior miséria hoje é a moral e a nova arena se chama Internet!
ANÉRIA LIMA – Redatora, Revisora, Professora, Escritora e Tradutora.


