02/07/2014 13h10
Guilherme Lacerda foi uma das vítimas da linha cortante, perigo que aumenta nas férias
Jornal A Cidade
Doze pontos no pescoço e uma cicatriz foi o que Guilherme Lacerda da Costa, 20 anos, “ganhou” no último sábado (28) após o jogo do Brasil contra o Chile. Ele estava indo para casa de moto com a namorada quando sentiu um baque no pescoço.
“Na hora eu não entendi o que tinha acontecido. Primeiro eu escutei um barulho e achei que fosse um inseto dentro do capacete. No impulso, freei a moto. Em seguida vi a minha camiseta ensanguentada”, conta.
Guilherme foi vítima do cerol, mistura de cola e vidro moído usada por crianças e jovens na linha das pipas para “roubar” outros “papagaios”.
No período de férias escolares, o risco do acidente é muito maior, assim como o uso do cerol. Por causa disso, dois comissários da Vara da Infância e Juventude e do Idoso percorreram alguns bairros da zona Oeste – local de maior incidência de pessoas soltando pipa – acompanhados de policiais militares para prevenir acidentes. Sete pessoas foram flagradas com cerol.
Ainda deu sorte
O caso de Guilherme não virou tragédia porque ele estava perto do HC (Hospital das Clínicas). Ele levantou a camiseta, pediu para a namorada pressioná-la contra o seu pescoço e se dirigiu ao hospital, onde foi prontamente atendido e operado. O corte no pescoço foi profundo, quase atingiu a traqueia de Guilherme. “O médico falou que foi por um triz. A distância do corte para a minha traqueia foi da espessura de um fio dental”, relata.
Alerta
“Pipa com cerol é uma brincadeira que não tem graça”, afirma. “Eu recomendo que os motociclistas usem uma antena em suas motos para não passarem por isso”.
A mãe de Guilherme, Regiane Lacerda, 45 anos, lamenta a falta de fiscalização constante por parte da polícia. “Depois que acontece uma coisa dessas tem fiscalização por uma semana, depois para e não acontece nada”.
Quem é pego com cerol pode pagar multa
A equipe de reportagem do A Cidade presenciou a PM abordando 7 jovens que empinavam pipa na rua Teófilo Braga, no Jardim Maria Goretti. Quatro eram menores.
De acordo com o comissário Marcos Luiz Cesário, quando um menor é flagrado soltando pipa com cerol, o material é apreendido e um termo de responsabilidade é registrado.
Posteriormente, o responsável pelo menor é chamado na Vara da Infância e Juventude e do Idoso e fica sujeito a multa de R$ 2.014,00, conforme prevê a lei municipal 7.642/1997.
‘Se não usar, os outros cortam’, diz adolescente
Perguntados sobre o motivo de usarem cerol, os jovens abordados pela PM responderam unanimemente: “Se você não usa cerol, os outros te cortam”.
Eles disseram conhecer o perigo do cerol, mas ainda assim preferem usar a mistura de cola e vidro moído para não perderem suas pipas. “Você tem todo o trabalho para fazer a pipa e os outros te cortam?!”, exclamou um dos rapazes.
Para Lourdes da Silva, 65 anos, avó de um dos menores, repreender as crianças nesses casos é necessário, mas não é a solução. “Só ensinar não adianta. Tinha que ter um lugar para as crianças irem durante as férias. Não tem como a gente supervisionar na rua”, destaca.


