05/08/2016 08h30
Promotor de Justiça aposentado
Correio do Estado
Ao chamar de amador o grupo de brasileiros presos por envolvimento em suposta preparação de atos terroristas durante as Olimpíadas, na cidade do Rio de Janeiro, o ministro da Defesa, Raul Jungman, foi infeliz. E agravou ainda mais a sua declaração ao sustentar que se tratava de um ato de pura – porralouquice – o comportamento daquele grupo. O termo anômalo para não dizer esdrúxulo não consta do dicionário da língua portuguesa. Se o ministro quisapenas brincar com o fato, conseguiu. Mas esse comportamento não se ajusta ao seu caráter.
O ministro é um homem sério. Está preparado para o ofício das funções em que está investido. Não precisava lançar mão de tão minúsculo exemplo para mostrar à nação brasileira que o nosso governo se preparou o suficiente para oferecer uma segurança eficaz para os turistas que vão nos visitar e também para os atletas. Tinha ao seu dispor outros tantos argumentos sólidos para tranquilizar a nação.
Qualquer indicativo de atos terroristas toda cautela se faz necessária. São os especialistas que apontam para essa direção. Não se discute se o grupo que resultou preso preventivamente é amador ou não. Os dois tipos são matadores de pessoas inocentes. A dor, pela perda do ente querido, produzido por essas pessoas é a mesma. O ministro perdeu a grande oportunidade de ficar calado.
Quando se fala algo precisamos estar convictos da nossa afirmação. Precisamos inspirar confiança e credibilidade para os nossos interolocutores. E nunca levar para o campo insólito da brincadeira. Quando se trata da fala de um Ministro de Estado, então, a responsabilidade resulta redobrada. Ele fala em nome do governo que representa. Isso não é pouca coisa.
Nenhum país está qualificado para evitar qualquer ação criminosa que tenha o terror como o seu móvel. Nesse contexto a responsabilidade do governo brasileiro é enorme. O terrorista ou mesmo o seu adepto não é amigo de ninguém. Ele não sabe o que é Pátria, não conhece a importância da Família, desconhece Deus. A sua cabeça está doutrinada para matar. É essa a mensagem que pretende deixar para a humanidade.
A história da civilização está repleta desses exemplos que merecem uma reflexão generosa. O ataque aeronaval desfechado pelos japoneses contra a base naval americana de Pearl Harbor, na manhã de 7 de Dezembro de 1941, que deixou um rastro de mais de 1.500 militares mortos e outros tantos feridos , partiu de quem os americanos menos esperavam, seus amigos, que se transformaram em, kamikazes.
Homens doutrinados para matar e morrer.
O improvável aconteceu. Mas não é só esse fato registrado nos anais da história que aponta para uma perene preocupação. No dia 15 de abril de 1.912 o mundo assistiu a soberbia da marinha náutica coberta de vergonha com o afundamento do Titanic. As águas geladas do Atlântico norte silenciaram um punhado de vidas e maltrataram outras tantas na tentativa de sobreviver àquela tragédia. Hitler, que firmou com Stalin o Tratado de Não Agressão não teve pudor nenhum em romper tal acordo ao jogar o seu exército contra o território russo em busca do petróleo. Esses fatos aliados a outros tantos que emolduram a rica história da civilização servem de alerta. Precisamos estar atentos a tudo. O perigo pode estar ao nosso lado.
Se Deus quiser nenhum atentado terrorista ocorrerá em nosso país. Mas se acontecer o ministro vai ter que ouvir o que não precisava falar. Resultará evidente, ainda que por analogia uma parte importante de um longo provérbio árabe, de origem milenar, que diz: quem fala o que quer, escuta o que não quer. Verdade, que ultrapassou milênios e resulta atualíssima. E mais. Contra a qual não existe espaço para lamentações.


