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quinta-feira, 22 de outubro, 2026

Padre Robson é suspeito de pagar servidores públicos com dinheiro da Afipe para que destruíssem arquivos comprometedores

G1 Goiás

Ministério Pública apura se R$ 120 milhões doados por fiéis foram desviados. Defesa do padre nega irregularidades.

O padre Robson de Oliveira – suspeito de desviar R$ 120 milhões de doações de fiéis à Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe) – também é suspeito de pagar servidores públicos com dinheiro da entidade para se livrar de informações constrangedoras sobre ele, segundo o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) relata no processo.

“Pelo que se infere dos autos, Robson supostamente se utilizou dos recursos financeiros dessas entidades religiosas para o pagamento de servidores públicos – agentes de polícia, para que destruíssem alguns arquivos contendo informações comprometedoras a seu respeito”, consta no documento.

Sobre isso, a defesa do sacerdote disse que “não houve pagamento a nenhum servidor”. A defesa informou ainda que o padre Robson foi vítima de extorsão de dinheiro e que os criminosos já foram condenados e estão presos. “Todo o material da extorsão foi considerado falso pelo Tribunal de Justiça do Estado de Goiás”, disse.

Sobre a acusação, a Polícia Civil do Estado de Goiás disse, ao G1, que a atual gestão instaurou um procedimento na Corregedoria da Instituição para “apurar eventual transgressão disciplinar de policiais civis”. A nota disse ainda que o procedimento é “sigiloso enquanto estiver em andamento, razão pela qual não serão prestadas maiores informações”.

O documento não esclarece quais eram as “informações comprometedoras” a respeito do padre, no entanto, a defesa do religioso afirma que se refere ao caso do hacker, que tinha um romance com o padre e ameaçava expor casos, segundo a decisão. No processo, pároco foi alvo de 5 extorsões e chegou a passar R$ 2,9 milhões da Afipe ao criminoso, o que deu início à investigação sobre desvio do dinheiro de doações. Defesa do padre nega irregularidades e diz que conteúdo usado para chantagem era falso.

Padre Robson é suspeito de pagar servidores públicos com dinheiro da Afipe para que destruíssem arquivos comprometedores
Processo que originou ação na Afipe cita extorsões milionárias contra padre Robson e ameaça de revelar suposto caso amoroso Goiás — Foto: Reprodução/TV Globo

Padre Robson sempre negou que tenha desviado dinheiro de fiéis doados à Afipe. Ele criou essa e outras entidades com nomes similares a partir de 2004, com o objetivo de proporcionar auxílio na vivência da fé e propagar a devoção ao Divino Pai Eterno.

O religioso era responsável pela administração do Santuário Basílica de Trindade, um dos maiores do Brasil, mas se afastou das funções temporariamente para colaborar com o MP-GO.

Padre Robson é suspeito de pagar servidores públicos com dinheiro da Afipe para que destruíssem arquivos comprometedores

Investigações

Após padre Robson ser vítima de extorsão de dinheiro, em que criminosos ameaçavam divulgar dados de supostos relacionamentos amorosos do pároco, o Ministério Público começou a investigar suspeitas de desvios de dinheiro da Afipe. À época da extorsão, o sacerdote teria usado R$ 2 milhões da associação para pagar os autores da extorsão e evitar a divulgação do material.

Nas investigações, o MP-GO encontrou evidências de centenas de compras e vendas de imóveis em nome da Afipe em que a entidade parece ter sido prejudicada financeiramente.

Também há nos relatos da investigação várias empresas cujos sócios eram quase sempre os mesmos, quase sempre usando o mesmo contador. As vendas dos imóveis e outras transações financeiras aconteciam entre essas companhias e a Afipe.

Ao todo, os repasses para empresas de comunicação somam R$ 456 milhões. Esses pagamentos também são investigados, segundo os promotores, por não ter afinidade com o objetivo final da Afipe, que é proporcionar auxílio na vivência da fé e propagar a devoção ao Divino Pai Eterno.

Padre Robson é suspeito de pagar servidores públicos com dinheiro da Afipe para que destruíssem arquivos comprometedores

A irmã do padre, Adrianne de Oliveira Pereira, é investigada como possível “laranja” do irmão. Segundo o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO), ela mora em um imóvel de luxo que pertence à Afipe e aparece nas apurações como participante de 24 operações imobiliárias. O G1 não conseguiu identificar quem é responsável pela defesa de Adrianne para pedir um posicionamento.

Outra mulher da confiança dele e que trabalhou por anos na Afipe, também é apontada como “laranja”. Celestina Celis Bueno, de 59 anos, aparece nos autos da investigação como dona de pelo menos três emissoras de rádio, ex-proprietária de um avião e de uma casa luxuosa na praia, além de já ter recebido R$ 4 milhões. Advogada de Celestina, Cláudia Seixas disse que não irá se manifestar, em respeito às investigações.

A rede de desvio de dinheiro da Afipe envolve ainda empresas de comunicação, postos de combustíveis e até o vice-prefeito de Trindade Gleysson Cabriny de Almeida (PSDB), conforme denúncia do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO). A defesa do padre disse que todos os negócios da associação “são contabilizados e documentados” e negou qualquer irregularidade.

Por mensagem, o vice-prefeito de Trindade disse ao G1 que não teve acesso ao processo e só deve se pronunciar após ter conhecimento dos autos. Por sua vez, a prefeitura informou ao G1 que não é citada nas denúncias. Portanto, não deve se pronunciar sobre o caso.

Entenda o caso

-No dia 21 de agosto, o MP deflagrou a Operação Vendilhões, que apura desvios de verba e lavagem de dinheiro na Afipe

-A ação apura o uso de dinheiro da Afipe – em sua grande maioria doada por fiéis – na compra de fazendas, casas de praia e outros imóveis de luxo. O MP afirma que eram usados “laranjas” e empresas de fachada para a prática dos crimes.

-Um processo de extorsão sofrido pelo padre Robson originou a ação do MP. A Justiça afirma que um hacker extorquiu o pároco tinha um romance com ele e ameaçava expor casos

-A investigação aponta que a Afipe movimentou cerca de R$ 2 bilhões na última década. Ao menos R$ 120 milhões teriam sido desviados

-Fundador e presidente da Afipe, padre Robson se afastou do cargo por conta da operação. Ele era o responsável por gerir um orçamento de R$ 20 milhões mensais