25.1 C
Ponta Porã
segunda-feira, 20 de julho, 2026

Pesquisa de MS ganha destaque internacional e pode facilitar investigações de homicídios

Durante os estudos, foram analisados pupários de moscas, além de amostras de serragem e do solo sob as carcaças, utilizando espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS)

O tempo é um dos principais vilões na hora de investigar homicídios, pois compromete completamente os vestígios da violência. Lesões desaparecem, tecidos se degradam e nem sempre o projétil ou marcas nos ossos permanecem preservados, dificultando a identificação da causa da morte. Diante deste cenário, uma descoberta feita por pesquisadores sul-mato-grossenses pode acabar com esse entrave enfrentado pela perícia e impactar significativamente futuras investigações de casos de homicídio envolvendo corpos em avançado estado de decomposição.

O estudo, desenvolvido pelo perito médico-legista Guido Vieira Gomes, chefe do Núcleo Regional de Medicina Legal de Dourados (MS), em parceria com pesquisadores da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), comprova que os pupários de moscas — estruturas deixadas pelos insetos após completarem seu ciclo de desenvolvimento — conseguem conservar resíduos químicos provenientes de disparos de armas de fogo por longos períodos.

Esses pupários permanecem próximos aos restos mortais, mesmo quando praticamente todos os tecidos já foram consumidos pela decomposição, e podem ajudar em investigações. A pesquisa recebeu apoio da Fundect, da Capes e do CNPq. “Os resultados desse trabalho abrem novas perspectivas nas perícias em locais de crime com corpos extremamente degradados”, afirma o perito médico-legista Guido Vieira Gomes.

O artigo, resultado da tese de doutorado defendida por Guido em março de 2025, no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da UEMS, conquistou reconhecimento internacional e foi publicado no Journal of Forensic Sciences, uma das mais importantes revistas científicas da área.

Pesquisa de MS ganha destaque internacional e pode facilitar investigações de homicídios

Como foi feita a pesquisa

Para chegar ao resultado, foram utilizadas seis carcaças de suínos abatidos em frigoríficos sob supervisão veterinária. Destes, três receberam disparos de arma de fogo e outras três permaneceram intactas, formando o grupo de controle. A etapa balística foi realizada na unidade regional da Polícia Científica de Dourados. Na sequência, as carcaças permaneceram em ambiente aberto no campus da UEMS, onde foram acompanhadas durante o processo de decomposição. Já as coletas ocorreram no 50º e no 120º dia.

Durante os estudos, foram analisados pupários de moscas, além de amostras de serragem e do solo sob as carcaças, utilizando espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS), tecnologia capaz de detectar elementos químicos em concentrações extremamente baixas. Os resultados mostraram concentrações significativamente maiores de chumbo e bário, elementos presentes nos resíduos de disparos de armas de fogo, nas amostras provenientes das carcaças atingidas pelos tiros.

O dado mais relevante obtido pelos pesquisadores foi que essas concentrações permaneceram praticamente inalteradas nos pupários durante todo o período analisado. Já no solo, os níveis diminuíram com o passar do tempo, possivelmente em razão da ação da chuva e da infiltração dos elementos em camadas mais profundas. Isso indica que os pupários podem servir como uma nova fonte de evidências em investigações nas quais os métodos tradicionais encontram poucas informações devido ao avançado estado de decomposição.

O estudo ressalta que esses vestígios devem sempre ser interpretados em conjunto com os demais elementos encontrados no local do crime, funcionando como uma ferramenta complementar para a reconstrução das circunstâncias da morte.

Fonte: Midiamax