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Plano do governo federal de 10 mil km de novas ferrovias descarrila

31/03/2014 08h

Plano do governo federal de 10 mil km de novas ferrovias descarrila.

Descarrilou o plano do Palácio do Planalto de construir 10 mil quilômetros de ferrovias em cinco anos

Folha.com

Descarrilou o plano do Palácio do Planalto de construir 10 mil quilômetros de ferrovias em cinco anos.

Lançado em agosto de 2012 com a ousada meta de fazer 12 novas ligações ferroviárias integrando praticamente todo o país, ao custo estimado de R$ 91 bilhões, o plano não terá nem sequer uma obra de ferrovia iniciada até o fim do governo da presidente Dilma Rousseff (PT).

Havia apenas uma ferrovia com chance de ser concedida neste ano, entre Mato Grosso e Goiás.

Mas uma disputa empresarial entre gigantes da soja e da construção civil deve emperrar o negócio.

O plano de concessão de ferrovias previa um novo sistema, em que a vencedora era remunerada pela obra e pelo serviço prestado.

Caso a quantidade de clientes fosse insuficiente para pagar essas despesas, o governo compensaria.

Por outro lado, se houvesse muitos clientes, o governo ficaria com o excedente.

As grandes construtoras do país não gostaram do modelo porque, na prática, elas deixariam de ser concessionárias e voltariam a ser apenas construtoras.

O governo tirou delas o risco de perder dinheiro, mas também de ganhar, caso o negócio desse certo.

Por esse motivo, na visão de um conhecedor do mercado, as ferrovias acabaram ficando sem “padrinho” para ajudá-las a vencer a burocracia estatal.

INTERESSE

No pacote do governo, havia um trecho ferroviário que gerou interesse inicial do mercado: a via que ligava Lucas do Rio Verde (MT) a Uruaçu (GO), onde a ferrovia nova se encontraria com a Norte-Sul.

Pelo menos três grandes grupos privados começaram a analisar as possibilidades do trecho.

O governo, que não fez um estudo aprofundado sobre essa ferrovia, imaginava que ela seria um caminho mais rápido e barato para escoar a gigantesca produção de soja de Mato Grosso que hoje desce mais de 2.000 quilômetros de caminhão até os portos do Sul e do Sudeste, elevando os custos de exportação.

Mas as grandes companhias vendedoras de soja do país (Bunge, Cargill, Amaggi e Dreyfus) se aliaram à companhia de logística EDPL (Estação da Luz Participações) para um estudo próprio, iniciado em 2013, que concluiu que essa ferrovia não trazia melhora significativa aos custos de transporte.

O grupo passou então a estudar uma alternativa também ferroviária: levar a soja de Mato Grosso direto para o Pará e, de lá, por via marítima, até a Ásia e a Europa.

Segundo o estudo encomendado, essa solução reduziria os custos em mais de 30% e teria potencial, aliada a outras ferrovias, para levar quase toda a soja produzida na região por trem.

RODOVIA

Antes que o grupo pudesse apresentar a solução ao governo, o Ministério dos Transportes anunciou, em janeiro deste ano, a abertura de estudos para duplicar quatro novas rodovias, entre elas a estrada que vai de Mato Grosso ao Pará, a BR-163.

Até 2013, nenhum desses trechos era cogitado pelos órgãos técnicos do governo como passíveis de concessão.

Três deles são complementações de estradas concedidas, no ano passado, para os grupos Odebrecht e Triunfo. Caso os novos trechos venham a ser duplicados, a rentabilidade das concessões existentes será melhorada.

Após o anúncio do governo, as vendedoras de soja decidiram contra-atacar e pediram oficialmente ao Ministério dos Transportes que estudasse a possibilidade de construção da ferrovia no local onde se pretende duplicar a BR-163 no Pará.

Os estudos para rodovia e ferrovia serão feitos, mas dificilmente se encontrará viabilidade para as duas construções ao mesmo tempo.

Para um interlocutor do governo, como o projeto original de criar um sistema logístico nacional foi perdido com o fracasso do programa, vão restar brigas por trechos mais lucrativos, como a que está ocorrendo pelo caminho da soja para o Pará.

OUTRO LADO

O Ministério dos Transportes informou à Folha que o governo está “ultimando aspectos fundamentais” para a concessão da ferrovia entre Mato Grosso e Goiás.

Entre esses aspectos estariam fatores como regras de financiamento e garantias.

Mas, de acordo com o ministério, a concessão só será feita “com a sinalização de que haverá concorrência nessa licitação”.

Em relação aos outros projetos de ferrovias lançados em 2012, o governo disse que vai reestudar todos.

Qualquer empresa agora poderá fazer esse trabalho que antes foi realizado pela Vale em 2012 e 2013.

Em relação aos novos trechos rodoviários em estudo, o ministério informa que tomou a decisão “incentivado pelo sucesso dos leilões de concessão rodoviária em 2013 (…) e considerando o interesse dos potenciais concessionários pela continuidade do processo”.

Só para a BR-163, dois trechos foram concedidos no ano passado, um em Mato Grosso e outro em Mato Grosso do Sul, em disputas vencidas por Odebrecht e CCR, respectivamente.

De acordo com o Ministério dos Transportes, os projetos de rodovia têm elevado impacto sobre a logística nacional e, no caso da BR-163 (PA), existe “a necessidade
de duplicação tempestiva da rodovia em prazo relativamente curto, sob pena de saturação”.

Plano do governo federal de 10 mil km de novas ferrovias descarrila

Editoria de Arte/Folhapress