05/10/2015 07h50
Assim como aconteceu naquele folhetim, o eterno bom moço Tony Ramos saiu novamente da zona de conforto para interpretar um personagem dúbio.
Terra
As novelas Torre de Babel, de 1998-1999, e A Regra do Jogo, atualmente na faixa das 21h da Globo, têm uma curiosa ligação por meio de uma foto.
O policial Dante (Marco Pigossi), que está no encalço do fugitivo Zé Maria (Tony Ramos), tem no celular uma fotografia antiga do homem acusado de promover uma chacina na qual morreu sua mãe.
Essa foto foi realmente tirada há 17 anos, para divulgar o personagem de Tony Ramos em Torre de Babel: José Clementino, um homicida confesso que cumpriu pena por matar a esposa e um amante casual dela a golpes de pá.
Assim como aconteceu naquele folhetim, o eterno bom moço Tony Ramos saiu novamente da zona de conforto para interpretar um personagem dúbio.
O público reagiu mal ao vê-lo na pele do revoltado e agressivo José Clementino. E, desta vez, manifesta indiferença por não saber se Zé Maria é um homem injustiçado ou um vilão se fazendo de vítima.
A verdade começou a ser revelada na última cena do capítulo de sexta-feira (2): o pai de Juliano (Cauã Reymond) faz parte da facção criminosa e logo vai se revelar mais perigoso do que o rival, o igualmente ambíguo Romero (Alexandre Nero).
Em 50 anos de carreira na TV, Tony Ramos viveu alguns tipos antipáticos, como o inescrupuloso Carlos Braga de O Rebu (2014) e o gélido Antenor Cavalcanti em Paraíso Tropical (2007).
Mas a maioria de seus personagens espelhava o carisma inesgotável do ator. Bastavam poucos capítulos para que ele ganhasse a torcida dos noveleiros e, consequentemente, contribuísse para o crescimento da audiência da produção.
Foi assim, por exemplo, com o italiano Totó de Passione (2010), o grego Nikos de Belíssima (2005), o feirante Juca de A Próxima Vítima (1995) e o engraçadíssimo Tonico de Bebê a Bordo (1988).
Com tantas referências agradáveis na memória, não deve ser fácil para o noveleiro de carteirinha aceitar um personagem sem nenhum traço de simpatia como Zé Maria. Se ao menos tivesse humor…
Aliás, esse é um dos problemas de A Regra do Jogo: a ausência de tipos carismáticos que estimulem a fidelização do telespectador.
No núcleo principal, a trama parece dividida em apenas dois grupos: os bandidões e os revoltados. Uns gritam de um lado, os outros berram acolá.
A audiência baixa dos primeiros 29 capítulos (25 pontos no Ibope) reflete o desinteresse por uma novela com excesso de violência e dubiedade, e escassez de romantismo e comédia.


