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sexta-feira, 12 de junho, 2026

Qualificação profissional abre novos caminhos para mulheres privadas de liberdade em MS

Em uma sala de aula dentro de uma unidade prisional, o som não é de portas se fechando, mas de vozes que aprendem, trocam experiências e, sobretudo, projetam o futuro. Em Mato Grosso do Sul, iniciativas de qualificação profissional têm transformado o cotidiano de mulheres privadas de liberdade, revelando que, mesmo em ambientes de restrição, ainda há espaço para reconstrução.

Mais do que ensinar uma profissão, a proposta é oferecer instrumentos concretos para a reinserção social. Dessa forma, a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) tem investido de forma estratégica em cursos profissionalizantes como ferramenta de transformação e redução da reincidência criminal.

Por meio do Programa Pronatec Mulheres Mil, reeducandas da capital e do interior estão sendo capacitadas no curso de copeira, uma formação que vai além da técnica e alcança dimensões sociais, emocionais e econômicas.

Com carga horária de 160 horas/aula, divididas em dois módulos, o curso contempla desde conteúdos básicos, como português, matemática e informática, até disciplinas específicas, como preparo de bebidas e lanches, higiene e manipulação de alimentos, atendimento ao cliente, empreendedorismo e direitos trabalhistas.

A formação acontece em Campo Grande, como no Estabelecimento Penal Feminino “Irmã Irma Zorzi”, e a unidade feminina de regime semiaberto e aberto; além de unidades do interior, como em São Gabriel do Oeste. São 35 dias letivos apenas no módulo técnico, com aulas que integram teoria e prática, preparando as participantes para diferentes oportunidades no mercado de trabalho. Em Rio Brilhante, as internas estão participando de um curso na área de vendas.

Política pública com impacto social

A política adotada pela agência penitenciária busca transformar o sistema prisional em um espaço que não apenas custodia, mas prepara. A lógica é simples, embora desafiadora: quem um dia retorna ao convívio social precisa voltar diferente, com mais conhecimento, mais perspectiva e mais condições de escolher outro caminho.

Qualificação profissional abre novos caminhos para mulheres privadas de liberdade em MS

É o que destaca o diretor-presidente da Agepen, Rodrigo Rossi Maiorchini, que defende a qualificação profissional como mecanismo importante para essa mudança concreta. “Nosso compromisso é garantir que essas pessoas tenham acesso real a oportunidades quando deixarem o sistema. A educação e a qualificação profissional são ferramentas essenciais para quebrar ciclos e permitir que novas histórias sejam construídas com dignidade, autonomia e responsabilidade”, afirma.

Já a diretora de Assistência Penitenciária, Maria de Lourdes Delgado Alves, pontua que do lado de fora dos muros, a sociedade nem sempre vê essas mudanças, mas elas acontecem, silenciosamente, todos os dias, em cada aula assistida, em cada habilidade desenvolvida, em cada plano que começa a ser desenhado. “E, quando essas portas se abrirem, não serão apenas pessoas deixando o sistema prisional. Serão histórias que carregam, agora, a possibilidade real de um novo começo”, defende.

Além do curso de copeira e na área de vendas, outras capacitações já estão em andamento. Para 2026, já são mais de 2 mil vagas garantidas em cursos presenciais, previstas para homens e mulheres privados de liberdade, em diferentes parcerias, abrangendo áreas como construção civil, marcenaria, informática, corte e costura, serviços administrativos e área da beleza.

Conforme a Divisão de Assistência Educacional, os dados apresentados não incluem capacitações de curta duração, palestras e cursos na modalidade à distância, como os que serão ofertados em parceria com o projeto “Ajufe por um Mundo Melhor”, da Associação dos Juízes Federais do Brasil, que disponibiliza formações em áreas como educação, saúde, informática, línguas, administração, empreendedorismo e governança doméstica.

Aprendizado que transforma comportamentos

Qualificação profissional abre novos caminhos para mulheres privadas de liberdade em MS

Segundo a coordenadora do curso de copeira, nutricionista Mariana Biava de Menezes, a qualificação amplia possibilidades e fortalece a autonomia. “O conhecimento ninguém tira. E este curso também trabalha aspectos importantes de convivência e atendimento ao público”, afirma.

Em sala de aula, o aprendizado técnico caminha junto com o desenvolvimento pessoal. A professora Aline Tostes Palma Barbosa destaca que as disciplinas abordam não apenas o fazer profissional, mas também postura, relacionamento interpessoal e convivência social. “Há um envolvimento muito grande. É perceptível a mudança no comportamento, no respeito e na forma como elas passam a se enxergar”, observa.

Essa transformação também é acompanhada pela supervisão local. Para Danieli Verruck Guedes, a qualificação resgata algo essencial: a confiança. “Elas passam a acreditar novamente que são capazes. Já vimos casos de mulheres que, após cursos como esse, conseguiram emprego e reconstruíram suas trajetórias”, relata.

Histórias sendo reescritas

Qualificação profissional abre novos caminhos para mulheres privadas de liberdade em MS

Entre as alunas, as histórias se cruzam, mas compartilham um ponto em comum: o desejo de recomeçar. C. P., de 49 anos, já trabalhava com produção de salgados antes da prisão e vê na capacitação uma forma de aprimorar o que já conhece. “Esse curso vai contribuir muito para minha vida e me dar mais esperança para recomeçar”, diz a reeducanda do EPFIIZ. A expectativa é retomar o negócio próprio ao deixar o sistema prisional.

Para M. G. M., de 39 anos, a qualificação chega em um momento de reflexão. Com experiência na área de alimentação e construção civil, acredita que o curso amplia suas possibilidades. “Está me ajudando muito e abrindo novas portas”, afirma, ao falar sobre o desejo de reconstruir a vida longe dos erros do passado.

No regime semiaberto, em Campo Grande, o curso também representa a primeira oportunidade de formação para muitas internas. “Eu nunca trabalhei antes. Esse curso é uma chance de aprender uma profissão e mostrar para minha família que quero mudar”, relata M. J. de S. S., 39 anos. Sua companheira de unidade prisional, a custodiada T.A.J., 46 anos, também já projeta novos passos. “Quero continuar estudando, fazer outros cursos. Isso aqui é só o começo”, afirma.

No interior, em São Gabriel do Oeste, a interna A.D. G., 42 anos, destaca o impacto do curso no desenvolvimento pessoal. “Hoje tenho mais autoconfiança. Estou aprendendo não só uma profissão, mas também sobre convivência, comunicação e empreendedorismo”, relata. Após experiências anteriores sem sucesso no ramo de alimentação, ela acredita que, agora, com preparo, pode trilhar um caminho diferente.

Qualificação profissional abre novos caminhos para mulheres privadas de liberdade em MS

Já em Rio Brilhante, onde o curso ofertado é voltado para a área de vendas, a interna I.C.P.V., 26 anos, vê na oportunidade uma virada de chave. “Eu nunca tinha tido a chance de aprender sobre vendas de verdade, de entender como lidar com cliente, como organizar um negócio. Aqui eu estou começando a acreditar que posso trabalhar, ter minha renda e seguir outro caminho. É uma oportunidade que faz a gente pensar diferente sobre o futuro”, relata.

O Programa Mulheres Mil é uma iniciativa do Governo Federal, e em Mato Grosso do Sul é desenvolvido em parceria com a Secretaria de Estado de Educação. Tem como princípio o acesso à educação profissional para mulheres em situação de vulnerabilidade, respeitando suas trajetórias e diferenças. Dentro do sistema prisional, essa proposta ganha ainda mais relevância, ao alcançar um público historicamente marcado pela exclusão de oportunidades.

Comunicação Agepen

Fonte: Governo MS