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quinta-feira, 21 de maio, 2026

“Resquícios do Tempo” transforma memória ferroviária de Campo Grande em cartilha educativa e exposição artística

Entre trilhos enferrujados, vagões abandonados e construções que insistem em permanecer de pé apesar do tempo, existe uma Campo Grande que ainda pulsa. Uma cidade atravessada pela memória da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, responsável por transformar o território sul-mato-grossense e moldar a identidade de gerações. É dessa paisagem marcada por partidas, chegadas e silêncios que nasce “Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário”, novo projeto da artista visual Sara Welter, a Syunoi, que transforma história, desenho e educação patrimonial em ferramenta de preservação da memória coletiva.

O projeto retorna agora em maio anunciando um novo desdobramento da série “Resquícios do Tempo”, desta vez voltado ao complexo ferroviário de Campo Grande e à imensidão da NOB que atravessa Mato Grosso do Sul. A produção dos desenhos da cartilha educativa aconteceu durante os últimos 3 meses e será finalizada em junho e culminará em um evento de lançamento, ainda sem data definida, reunindo arte, memória e ações educativas em torno da preservação do patrimônio histórico ferroviário.

A iniciativa dá continuidade à série criada a partir de uma pesquisa pessoal iniciada em 2021, que já passou por exposição no MARCO durante o Festival Campão Cultural e pela publicação da cartilha “Resquícios do Tempo: Redescobrindo Campo Grande”. O projeto também ultrapassou fronteiras sul-mato-grossenses ao ser apresentado em São Paulo, durante a 1ª Conferência Internacional das Tecnologias Sociais da Memória, em novembro de 2025, ampliando o alcance da pesquisa sobre memória e patrimônio.

“Percebi que essa inquietação não era apenas minha, mas de muitas pessoas. Existe uma curiosidade sobre a história desses lugares antigos, mas falta acesso a essas informações. Também existem muitos locais abandonados e descuidados. É necessário falar sobre essa história para incentivar a preservação”, afirma Sara.

Foram dois meses de pesquisa histórica, atravessando arquivos, relatos e estudos sobre a ferrovia e os edifícios que marcaram a formação urbana de Campo Grande. Depois, vieram três meses dedicados aos desenhos em nanquim e carvão, técnica que a artista utiliza para acentuar contrastes, rachaduras, sombras e marcas deixadas pelo tempo. A etapa final foi a diagramação da cartilha, realizada ao longo de um mês, organizando textos, imagens e memórias em um material educativo acessível.

A publicação reunirá histórias, pesquisas e ilustrações autorais de 12 espaços fundamentais para a trajetória ferroviária sul-mato-grossense. Entre eles estão a Estação Ferroviária, o Casarão Thomé, a Casa da Chefia, a Caixa D’água da NOB, os vagões abandonados e até a baldeação para Ponta Porã.

“Todo o projeto Resquícios fala muito desse abandono, desses lugares antigos dos quais sobraram apenas restos e histórias. Os próprios desenhos carregam essa estética em preto e branco, cheia de contraste e detalhes que trazem essa sensação”, explica a artista.

Mais do que revisitar o passado, a proposta busca aproximar a população de sua própria história. Com distribuição gratuita em escolas, bibliotecas e instituições culturais — incluindo versões acessíveis em braille — o projeto aposta na democratização do acesso à memória como forma de fortalecer pertencimentos e provocar novos olhares sobre a cidade.

“Sabemos o quanto a ferrovia influenciou o entendimento do que é ser campograndense. A intenção é abrir os olhares para tudo isso e permitir que cada pessoa crie sua própria relação com essa história”, destaca Sara.

Além da publicação da cartilha, o projeto contará com oficinas educativas em escolas municipais e um evento de lançamento pensado para reunir artistas, estudantes, pesquisadores, historiadores e moradores da cidade em torno da memória ferroviária. A programação incluirá exposição dos desenhos originais, palestra com representantes do IPHAN, apresentações artísticas, DJ, video-performance e ações educativas.

Enquanto casarões desabam e estruturas históricas enfrentam o abandono, “Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário” surge como um gesto de permanência. Um lembrete de que preservar também é contar histórias, antes que reste apenas o silêncio dos trilhos.

Este projeto conta com investimento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), executado pela Prefeitura de Campo Grande, por meio da Fundac (Fundação Municipal de Cultura).

FICHA TÉCNICA

Artista Visual e Coordenação editorial: Sara Welter – SYUNOI

Produção cultural: Rayanne Jarcem

Assessoria de Imprensa: Lucas Arruda e Aline Lira

Pesquisa e revisão de texto:

Bruna Costa Dias

Intérprete de libras: Jessé Macedo

Oficinas: Lumar Santos

Performance: Madu Flores

Fotografia: Cecília Hanna e Dafne Alana