A categoria Ensino, Pesquisa ou Extensão do prêmio Mulheres das Águas homenageia não apenas as mulheres que vivem da pesca e aquicultura: ela também reconhece aquelas que fazem a diferença na vida das nossas mulheres.
Esse é o caso da vencedora deste ano, a médica epidemiologista Rita de Cássia Franco Rêgo, professora titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com atuação de mais de três décadas na interface entre saúde coletiva, ambiente, pesca artesanal, justiça ambiental e sustentabilidade.
Nascida na península de Itapagipe, em Salvador, desde cedo vivenciou os impactos da contaminação dos mariscos pelas fábricas que despejavam resíduos químicos na Baía de Todos os Santos, causando danos às marisqueiras. Com mestrado e doutorado em Epidemiologia, construiu carreira acadêmica marcada pelo compromisso ético com populações vulnerabilizadas, especialmente comunidades pesqueiras e tradicionais do litoral nordestino.
A trajetória de Rita combina produção científica, formação de recursos humanos e orientação de estudantes, além de engajamento em pesquisa participativa de base comunitária, sempre valorizando o conhecimento tradicional das mulheres das águas e promovendo sua autonomia. Ao longo da carreira, coordenou e participou de mais de 30 projetos de pesquisa e de extensão, dos quais, mais da metade, dedicados à pesca artesanal, contaminação ambiental, impactos de desastres e saúde dos pescadores e marisqueiras.
Além disso, ela é autora das primeiras pesquisas epidemiológicas do Brasil com marisqueiras, que comprovam riscos ocupacionais e ambientais da pesca artesanal e altas prevalências de distúrbios musculoesqueléticos, dermatoses ocupacionais, sobrepeso e obesidade, doenças de pele, oftalmológicas, dentre outras.
“Acredito que minha trajetória representa de forma profunda e comprometida a missão do prêmio e contribui efetivamente para a valorização, proteção e fortalecimento das mulheres das águas no Brasil”, afirma Rita.
“Minha trajetória profissional e acadêmica é profundamente enraizada na defesa dos direitos, da saúde, da autonomia e da sustentabilidade das comunidades de pesca artesanal, especialmente das mulheres marisqueiras e pescadoras, historicamente invisibilizadas e expostas a vulnerabilidades ambientais, sociais e econômicas. Há mais de três décadas, dedico-me a produzir conhecimento científico, tecnologias sociais, ações de extensão, formação de lideranças e projetos inovadores que transformam realidades e fortalecem a dignidade das mulheres das águas”.

- Rita de Cássia atua há mais de 30 anos na promoção da saúde das mulheres das águas.
Ensino, pesquisa e extensão
Na área de ensino, Rita atuou na graduação e atua na pós-graduação em diversas disciplinas ligadas à epidemiologia, ambiente, saúde e sustentabilidade. Formou gerações de profissionais comprometidos com a saúde pública e com a realidade das comunidades tradicionais.
Como coordenadora do Programa de Pós-graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho da UFBA, impulsionou linhas de pesquisa voltadas à justiça ambiental, impactos ambientais sobre a saúde e condições de vida de pescadores artesanais. “Minha atuação sempre priorizou os princípios da sustentabilidade, justiça ambiental e respeito aos territórios, construindo soluções em conjunto com as comunidades”, declarou.
Desde 2019, vem coordenando um grande estudo epidemiológico para identificar a associação entre o derramamento de petróleo de 2019 e o efeito na saúde de pescadores e pescadoras. Estes estudos são conduzidos em parceria com organizações de pescadores, universidades e pesquisadores da área ambiental.
Essas pesquisas epidemiológicas (16 ligadas à pesca artesanal) foram pioneiras ao documentar os riscos ocupacionais da pesca artesanal e os agravos ocupacionais que acometem pescadoras e marisqueiras, incluindo distúrbios musculoesqueléticos, doenças dermatológicas, respiratórias e oftalmológicas.
Tais estudos contribuíram para a elaboração de protocolos de vigilância em saúde, ações educativas, acesso a serviços especializados e fortalecimento do nexo ocupacional, ampliando direitos e políticas públicas voltadas à categoria. Também resultaram em publicações nacionais e internacionais que deram ainda mais visibilidade para as necessidades das populações pesqueiras.
Durante a epidemia de Covid-19, ela ainda coordenou a elaboração de todos os 21 boletins epidemiológicos do Observatório da Pesca Artesanal que monitoravam a morbimortalidade nessa população.
Na extensão, ela liderou iniciativas integradas com comunidades pesqueiras, contribuindo para processos formativos, diagnóstico participativo, vigilância popular e construção coletiva de tecnologias sociais para reduzir vulnerabilidades, ampliar direitos e fortalecer a autonomia das mulheres da pesca. O trabalho dela ajuda a promover inclusão, liderança feminina, organização comunitária e sustentabilidade ambiental, articulando saber científico e saber tradicional.
Rita participa ainda de formação em saúde e ambiente em territórios pesqueiros do Nordeste, fortalecendo a integração entre o Sistema Único de Saúde (SUS), movimentos sociais e universidades, com ênfase na vigilância popular, protagonismo feminino e gestão territorial. “Tenho atuado de forma contínua na formação de lideranças femininas, na articulação entre universidades, SUS, movimentos sociais e coletivos de pescadoras, fortalecendo a vigilância popular em saúde, a educação crítica e a autonomia das mulheres nas decisões que envolvem seus territórios e modos de vida”, ressaltou a médica.
Sobre o Mulheres das Águas – O prêmio foi criado em 2023 para reconhecer o trabalho de mulheres que se destacam na pesca e aquicultura, promovendo práticas sustentáveis e, principalmente, o empoderamento das mulheres que vivem das águas. Esta edição será realizada no dia 18 de março, no Teatro Nacional, em Brasília.

