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terça-feira, 30 de junho, 2026

Saúde intestinal ganha protagonismo diante das novas exigências globais sobre o uso de antimicrobianos na pecuária

O movimento reflete uma agenda global crescente voltada à mitigação da resistência antimicrobiana, tema considerado prioritário por organismos internacionais ligados à saúde pública e à segurança alimentar.

A recente atualização regulatória da União Europeia, que reforça as exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal, evidencia uma transformação importante no cenário global da pecuária: a busca por sistemas produtivos cada vez mais eficientes, sustentáveis e alinhados às melhores práticas de saúde animal. A decisão do bloco europeu está associada à necessidade de garantir que todos os países exportadores atendam aos mesmos padrões sanitários aplicados internamente, especialmente no que se refere ao uso de antimicrobianos ao longo de todo o ciclo produtivo dos animais.

O movimento reflete uma agenda global crescente voltada à mitigação da resistência antimicrobiana, tema considerado prioritário por organismos internacionais ligados à saúde pública e à segurança alimentar. Nesse contexto, cresce o interesse por estratégias complementares ao uso tradicional de antimicrobianos, combinando manejo, nutrição e tecnologias voltadas à saúde intestinal e ao equilíbrio da microbiota.

“A preocupação com a resistência antimicrobiana não é uma pauta exclusiva da Europa. Trata-se de uma discussão global que vem estimulando a busca por ferramentas capazes de fortalecer a saúde animal e reduzir desafios sanitários de forma mais preventiva”, explica João Ronchesel, zootecnista e especialista da Kemin, fabricante global de ingredientes para nutrição animal.

Historicamente, os antimicrobianos desempenharam papel importante no controle de populações microbianas, especialmente no rúmen, contribuindo para a eficiência alimentar e a produtividade dos rebanhos. Entretanto, o avanço do conhecimento científico sobre o funcionamento do trato gastrointestinal ampliou a compreensão sobre os fatores que influenciam o desempenho animal.

Além do rúmen, o intestino passou a ser reconhecido como uma região estratégica para a absorção de nutrientes, resposta imunológica e manutenção da integridade fisiológica dos animais. Com isso, a saúde intestinal ganha espaço como um dos pilares dos sistemas produtivos modernos.

“Hoje sabemos que o desempenho animal não depende apenas da fermentação ruminal. O equilíbrio da microbiota ao longo de todo o trato gastrointestinal influencia diretamente a digestibilidade dos nutrientes, a imunidade e a capacidade do animal de enfrentar situações de estresse”, destaca Ronchesel.

Dentro desse conceito, soluções baseadas em microrganismos benéficos vêm ganhando espaço como ferramentas complementares para melhorar a saúde intestinal e reduzir desafios sanitários. Entre elas estão os probióticos de última geração, capazes de atuar diretamente sobre determinados patógenos presentes no intestino e contribuir para o equilíbrio da microbiota.

Também avançam estratégias nutricionais voltadas ao fortalecimento da integridade intestinal, fornecendo suporte energético para as células da mucosa e favorecendo sua recuperação diante de situações de estresse e outros desafios inerentes ao sistema produtivo.

Um exemplo dessa evolução é o uso de cepas específicas de Bacillus subtilis, capazes de produzir compostos bioativos que auxiliam no controle de microrganismos indesejáveis e favorecem o equilíbrio intestinal. Entre elas está a cepa PB6, que atua no trato gastrointestinal inferior e apresenta ação inibitória sobre patógenos como Clostridium perfringens.

“Quando conseguimos favorecer uma microbiota mais equilibrada, criamos condições para que o animal aproveite melhor os nutrientes e mantenha uma resposta mais eficiente frente aos desafios sanitários do dia a dia”, afirma o especialista.

Além dos probióticos, cresce o interesse por soluções naturais com propriedades antimicrobianas, como óleos essenciais e extratos vegetais, que podem contribuir para sistemas produtivos mais equilibrados e com menor dependência de antimicrobianos ao longo do tempo.

Segundo Ronchesel, a evolução dos sistemas produtivos não deve ser interpretada como uma substituição imediata de ferramentas consolidadas, mas como uma ampliação das estratégias disponíveis ao produtor.

“A discussão atual não é sobre eliminar completamente os antimicrobianos da produção animal, mas sobre ampliar o conjunto de ferramentas disponíveis para que eles sejam utilizados de forma cada vez mais criteriosa e responsável”, ressalta.

A intensificação das exigências regulatórias internacionais reforça uma tendência já observada em diversos mercados: maior controle, rastreabilidade e responsabilidade no uso de antimicrobianos. Nesse cenário, estratégias voltadas à saúde intestinal e ao equilíbrio da microbiota ganham relevância por contribuírem para a produtividade, a segurança alimentar e a sustentabilidade dos sistemas pecuários.

Para especialistas, a adoção dessas tecnologias representa uma oportunidade para que a cadeia produtiva esteja preparada para atender às demandas de mercados cada vez mais exigentes, conciliando desempenho zootécnico, bem-estar animal e produção sustentável.

Fonte: Mariana Cremasco