Três fatos recentes colocaram a segurança pública de Mato Grosso do Sul no centro das atenções.
O primeiro foi o anúncio do Comando Militar do Oeste (CMO) de que o Exército Brasileiro prepara uma megaoperação na faixa de fronteira entre Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, com o objetivo de ampliar a capacidade de dissuasão das organizações criminosas e fortalecer o apoio às forças estaduais e federais de segurança.
O segundo foi a invasão do Centro Penal Agroindustrial da Gameleira, que resultou no resgate de três lideranças da facção criminosa PCC, evidenciando a necessidade de investimentos permanentes na segurança do sistema prisional.
O terceiro foi a divulgação do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que revela importantes indicadores nacionais e estaduais. O estudo aponta que Mato Grosso do Sul está entre as sete unidades da Federação que registraram crescimento das Mortes Violentas Intencionais (MVI) em 2025, mesmo diante da tendência nacional de redução desse indicador ao longo dos últimos cinco anos.
Outro dado que merece profunda reflexão diz respeito à violência contra a mulher. Mato Grosso do Sul aparece com a quarta maior taxa de feminicídios do país. Em âmbito nacional, foram registradas 1.571 mulheres assassinadas em razão do gênero em 2025, uma média de quatro vítimas por dia. Também cresceram os registros de agressões, ameaças, violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas.
Não há uma única causa capaz de explicar esse cenário. Entretanto, é inegável que a persistência de padrões culturais baseados na desigualdade de gênero, discursos que reforçam a subordinação feminina e as fragilidades ainda existentes na rede de proteção contribuem para a manutenção desse grave problema social.
Enquanto o Brasil registrou redução de 8,2% nos homicídios em relação a 2024, a taxa nacional de mortes violentas foi de 19,1 por 100 mil habitantes, contra 20,2 por 100 mil em Mato Grosso do Sul.
O Anuário também traz dados positivos. Os roubos de celulares, um dos crimes que mais geram sensação de insegurança na população, apresentaram expressiva queda no país. Mato Grosso do Sul figura entre os estados com menor incidência desse delito e também apresentou redução significativa nos índices de receptação.
Outro destaque é que o Estado possui a segunda menor taxa de estelionatos do Brasil. Ainda assim, é necessário interpretar esse indicador com cautela, considerando a elevada subnotificação desse tipo de crime e as informações de inteligência que apontam a crescente atuação de organizações criminosas em fraudes eletrônicas e golpes digitais, atividades que, muitas vezes, se mostram mais lucrativas do que o próprio tráfico de drogas.
O estudo evidencia ainda uma redução dos investimentos da União e dos municípios na segurança pública, enquanto os estados ampliaram sua participação no financiamento do setor, assumindo parcela cada vez maior dessa responsabilidade.
Em relação à distribuição territorial da violência, o Anuário demonstra que as dez cidades mais violentas do Brasil estão localizadas na Região Nordeste, sendo metade delas na Bahia. Em sentido oposto, Santa Catarina passou a registrar a menor taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes entre todos os estados brasileiros.
No âmbito estadual, iniciativas como o Programa Estadual de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, o Programa Mulher Segura (PROMUSE), desenvolvido pela Polícia Militar, e o relevante trabalho de acolhimento realizado pelo Instituto ACIESP representam importantes instrumentos de fortalecimento da rede de proteção às mulheres. Da mesma forma, a implantação do Centro de Atendimento Integrado para crianças e adolescentes vítimas de violência constituirá um importante avanço na proteção desse público.
Também merece destaque o anúncio do Comando Militar do Oeste de que o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) se encontra em estágio avançado de implantação e que uma grande operação será desencadeada em breve na faixa de fronteira. Trata-se de uma iniciativa estratégica para um estado cuja posição geográfica impõe desafios permanentes ao enfrentamento do crime organizado.
No sistema prisional, torna-se urgente ampliar os investimentos em infraestrutura, tecnologia, inteligência e recursos humanos. O Brasil possui aproximadamente um milhão de pessoas privadas de liberdade e convive com um expressivo déficit de vagas. Episódios como o ocorrido na Gameleira demonstram a necessidade de fortalecer a segurança das unidades prisionais, garantindo melhores condições de trabalho aos policiais penais e assegurando que a lei e a Justiça prevaleçam.
É evidente que medidas isoladas de enfrentamento não são suficientes para solucionar os complexos desafios da segurança pública.
Uma segurança pública de qualidade exige planejamento, gestão eficiente, integração entre instituições, valorização dos profissionais, investimentos contínuos em tecnologia e inteligência, fortalecimento do sistema prisional, participação ativa da sociedade e decisões firmes, coordenadas e permanentes. Em um cenário de criminalidade cada vez mais sofisticada, é indispensável pensar globalmente, mas agir localmente, com políticas públicas baseadas em evidências e compromisso permanente com a proteção da vida.

