“O Processo” bom, sensacional, fundamental, que deve ser estudado e foco de reflexão, é a obra genial de Franz Kafka, livro que, ao contrário do que declarou certa vez um dos ex-ministros da Educação do genocida de aviso prévio, não tem nada a ver com a iguaria árabe. Recomendo também, ainda que não seja o mesmo sucesso de crítica, a adaptação cinematográfica do clássico assinada por Orson Welles.
Feito os registros, futebol é bem menos complexo que Kafka e Welles: é um esporte que objetiva vencer o rival com as armas do presente e, pois, o “processo” é uma bobagem argumentativa utilizada, normalmente com afetação e patético ar professoral, por gente que estuda muito o jogo, mas é incapaz de ler a sua alma, a sua essência e a delícia que é a sua crueza e simplicidade.
Uma das maiores imbecilidades, que não param (nunca pararam!) em pé, é analisar o trabalho de uma seleção pelo tal “ciclo”, quando ele, o tal “ciclo”, que é tão falando que parece até um sujeito, só existe, óbvio ululante, para dar resultado na Copa do Mundo. Em futebol de seleções, especialmente para o Brasil, que não é o Canadá para festejar a classificação ao Mundial como um título, Copa do Mundo é a ÚNICA coisa que importa e, pois, o objetivo do “ciclo”, forma afetada para dar um ar pseudo-cientista à palavra “preparação”.
Imaginemos o Carnaval… Na avenida, uma determinada escola é uma tragédia, abre buracos, não evolui, não encanta, atravessa o samba, faltam baianas, sobram destaques sem qualquer ligação com a comunidade… Aí vem o técnico, digo, o diretor de harmonia, e minimiza o papelão da sua agremiação porque a escola deu um show no ensaio técnico e foi apontada antes do desfile como uma candidata ao caneco… Bacana, com todo o respeito, OBRIGADO POR NADA!!
Já desejando toda a sorte do mundo à minha Estação Primeira de Mangueira, no Rio, e torcendo muito pelo acesso da minha Leandro de Itaquera e da Camisa 12, em seus respectivos grupos, voltemos ao não menos apaixonante e popular futebol:
Não existe campeão de Eliminatórias! Parafraseando Padre Quevedo, repito: “Isso non ecziste”!!! Ser primeiro, segundo ou entrar na bacia das almas, na repescagem, não muda nada. Um time ganha ou perde o Mundial unicamente pelo que fez no mês da Copa, na competição, e tudo o que vem antes não serve para nada, coisa nenhuma, nem mesmo como critério de desempate. O Brasil, que passou apuros antes do tetracampeonato, em 1994, e do penta, em 2002, e sobrou na turma, antes dos vexames de 2006, 2018 e 2022, já deveria ter aprendido a óbvia lição. OBRIGADO POR NADA!!!
Da série “viva a memória”, depois do fracasso da seleção lazarenta em 1990, Falcão, que nunca havia sido técnico (e foi poucas vezes depois disso), foi chamado para suceder o bizarro Sebastião Lazaroni, o cidadão que preferiu Bismarck a Neto, entre outras 818 barbartdades. Como meu texto não tem nem de muito longe o tempero kafkaniano, vou resumir: Parreira assumiu no meio do “ciclo”, apanhou de todo o mundo, de adversários, torcedores e mídia, e, na bacia das almas, com Romário chamado às pressas para o último jogo, se classificou para a Copa dos Estados Unidos. Durante o Mundial, Raí, capitão e principal jogador do ciclo, perdeu posição e três dos principais destaques do tetracampeonato não participaram da base do “ciclo”: Romário, Aldair e Márcio Santos.
O “ciclo” conturbado que resultou no título não é exceção de 1994. De 2002, foi ainda mais louco. Teve CPI/Nike, caiu Luxemburgo, depois caiu Leão, Felipão assumiu no final, apanhou até de Honduras, chegou à Copa vencendo a Venezuela no último jogo das Eliminatórias e, no Mundial, o Brasil foi penta com um time que não tinha nada a ver com a preparação. Nem com a estreia na própria Copa.
Sempre foi óbvio que o Brasil, como acontece desde 1930, estaria na Copa do Qatar. Como estará em 2026, 2030, 2034… E o grande momento do “processo” e do “ciclo”, inútil, foi o título da Copa América-2019. Vocês lembram quem foram os dois grandes jogadores daquela conquista, que não contou com Neymar? Eu refresco a memória: Daniel Tantã Alves, que ainda nem era o Vovô Olímpico e não era considerado um lateral café com leite, e Everrton Cebolinha, que hoje não é nem sequer titular do Flamengo.
Até 2026, o torcedor brasileiro ganhará muito mais se mergulhar na obra de Franz Kafka e revisitar toda a carreira brilhante de Orson Welles, o diretor de “Cidadão Kane”, do que se preocupar com qual cidadão sucederá Tite e o que ele fará até o próximo Mundial. O Brasil só vai ganhar a próxima Copa, ou, ao menos, ter chance e disputar à vera, se o treinador que estiver no banco na ocasião escalar quem tiver melhor durante o Mundial e não ficar preso ao inútil “processo”.
Vale para o Brasil e para todos. A Argentina de Lionel Scaloni chegou ao Qatar como a segunda maior recordista de invencibilidade da história, a um jogo de igualar a Itália. Pois bem: a Itália, d o recorde durante o “processo” em que nem se quer se classificou para o Qatar. E a Argentina, no jogo que igualaria a marca, passou vergonha contra a Arábia Saudita. Lembremos o que fez Scaloni: deu uma banana para o tal “processo” que levou à invencibilidade, trocou literalmente meio time e a Argentina está na semifinal. Em tempo: em 2002, no ano do penta brasileiro, quem fez o ‘ciclo’ fantástico e chegou como candidatíssima (“favoritaça”, diria Arnaldo Ribeiro) foi a Argentina… Viva a memória!
Beijos de luz.
PS: Força, Pelé!..
FONTE: UOL/ COLUNISTA VITOR GUEDES

