Enquanto governo deve reforçar o discurso de soberania nacional, oposição tende a atribuir as tarifas a falhas da política externa.
À medida que o calendário eleitoral se aproxima, a escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos começa a ganhar contornos políticos. Em menos de 24 horas, o USTR (Escritório de Comércio dos Estados Unidos) recomendou a aplicação de duas novas sobretaxas sobre produtos brasileiros — uma de 25% por supostas práticas comerciais desleais e outra de 12,5% por alegadas falhas no combate ao trabalho forçado.
As medidas, que ainda dependem de decisão final do governo norte-americano, acendem o alerta para possíveis impactos na economia brasileira e podem se transformar em um novo campo de disputa política às vésperas das eleições.
Especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que o impacto eleitoral das novas tarifas dependerá menos das medidas em si e mais da forma como governo e oposição conseguirão enquadrar o episódio perante a opinião pública. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a reforçar o discurso de defesa da soberania nacional, a oposição deve associar as sanções a falhas na condução da política externa e econômica do governo.
O cientista político Gabriel Amaral avalia que as tarifas serão incorporadas pelas duas campanhas, mas por caminhos distintos. Segundo ele, Lula terá a oportunidade de construir uma narrativa de defesa da soberania nacional, apresentando as medidas norte-americanas como uma tentativa de pressionar economicamente o Brasil em um momento de reposicionamento internacional.
“Para Lula, a estratégia deve ser deslocar o debate do campo comercial para o campo político, apresentando o país como um ator que busca preservar sua autonomia diante de interesses externos”, afirma.
Na avaliação de Amaral, a oposição, por sua vez, tentará enquadrar o episódio como consequência de uma deterioração das relações entre Brasília e Washington.
“A oposição tende a argumentar que decisões diplomáticas possuem custos econômicos e que o Brasil estaria pagando parte dessa conta. Mais do que discutir tarifas, as campanhas deverão disputar a interpretação do fato. A questão central não será o que aconteceu, mas o que esse acontecimento revela sobre a capacidade de liderança de cada projeto político”, diz.

Para o cientista político Márcio Coimbra, o anúncio tende a aprofundar a polarização e a transformar o chamado “tarifaço” em munição eleitoral para ambos os lados. “O governo petista tentará capitalizar o episódio por meio de um discurso nacionalista, buscando responsabilizar a oposição conservadora por supostamente sabotar o país no exterior e estimular retaliações contra instrumentos nacionais, como o Pix”, afirma.
Segundo Coimbra, a campanha de Flávio Bolsonaro seguirá o caminho oposto, utilizando a medida norte-americana como evidência da ineficiência da diplomacia brasileira e dos efeitos negativos de uma agenda considerada intervencionista.
“A narrativa será a de que governar de costas para grandes potências econômicas prejudica o setor produtivo e contribui para o isolamento do Brasil no cenário internacional”, acrescenta.
Impacto eleitoral
Apesar da disputa de narrativas, Amaral avalia que os efeitos eleitorais dependerão da forma como a sociedade interpretará o episódio.
“Caso a narrativa predominante seja a de uma pressão externa contra interesses brasileiros, o governo poderá encontrar espaço para mobilizar apoio político. Se prevalecer a interpretação de que o episódio decorre de falhas na condução das relações internacionais, a oposição tende a ser beneficiada”, afirma.
O cientista político ressalta, porém, que ambos os lados enfrentam desafios. “O governo possui o ônus de administrar as consequências concretas do problema. A oposição, por sua vez, enfrenta o desafio de criticar o governo sem transmitir a imagem de alinhamento com uma medida que pode gerar prejuízos para setores econômicos brasileiros. Isso cria uma situação na qual ambos possuem oportunidades políticas, mas também riscos consideráveis”, diz.
Márcio Coimbra vê um cenário mais desfavorável para o governo no médio e longo prazo. Segundo ele, o desgaste decorrente de possíveis perdas econômicas e comerciais tende a recair sobre quem ocupa o Palácio do Planalto.
“Embora o Planalto tente desgastar Flávio Bolsonaro com narrativas de ‘traição à pátria’, o relatório da Seção 301 do governo americano aponta preocupações relacionadas à insegurança jurídica, ao protecionismo cambial e à intervenção estatal sobre o comércio digital e os meios de pagamento. Como o governo está no exercício do poder, tende a absorver os custos políticos caso haja impactos econômicos concretos”, avalia.
Eleitorado
Para Amaral, o eleitor médio tende a analisar a disputa de forma mais pragmática do que as lideranças políticas. “A discussão sobre culpabilidade pode ter alcance limitado. Em momentos de tensão econômica, o eleitor normalmente faz uma pergunta mais simples: quem demonstra maior capacidade de proteger os interesses do país? A avaliação tende a se concentrar menos em quem provocou a crise e mais em quem parece capaz de conduzir o país diante dela”, afirma.
Na mesma linha, Coimbra avalia que os eleitores mais alinhados ideologicamente devem absorver as narrativas de seus respectivos grupos políticos, mas acredita que o centro do eleitorado observará principalmente os efeitos concretos da disputa comercial.
“Para as classes médias urbanas e os setores produtivos diretamente impactados, o jogo de empurra costuma ter eficácia limitada. O impacto eleitoral dependerá menos da retórica de culpabilização e mais de como o bolso do cidadão e o ambiente de negócios sentirão os efeitos práticos dessa disputa tarifária”, conclui.
Fonte: R7

