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terça-feira, 2 de junho, 2026

“Temos que temer a impunidade, não a soberania”, diz titular da Sejusp

A Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) vê de forma positiva a possível classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pelos Estados Unidos e avalia que a medida pode produzir efeitos concretos no combate ao crime organizado transnacional, mesmo sem alterações imediatas na legislação brasileira.

“Se os EUA capturarem lideranças do PCC e do CV fora do Brasil, já será um grande avanço”, disse ao Campo Grande News o secretário Antônio Carlos Videira, para quem o principal ganho seria o fortalecimento da cooperação internacional voltada à captura de lideranças criminosas refugiadas no exterior e ao bloqueio de recursos financeiros das facções. Na fronteira de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia, PCC e CV disputam as rotas de transporte por onde passam cerca de 40% da cocaína que entra no Brasil.

Na visão do secretário, a discussão de classificação das facções não surgiu de forma repentina nem pode ser tratada como um movimento isolado da política norte-americana. Segundo ele, o tema vem sendo construído há pelo menos dois anos, período em que as autoridades passaram a observar com maior preocupação a expansão das organizações criminosas brasileiras para além do narcotráfico tradicional. 

Além do tráfico – Videira observa que PCC e CV passaram a investir cada vez mais na lavagem de dinheiro e na infiltração de atividades econômicas lícitas. Em algumas regiões do país, afirma, as facções já exploram serviços que vão desde a distribuição clandestina de sinal de internet até transporte coletivo e comercialização de produtos essenciais, como gás de cozinha.

Para o secretário, um dos aspectos mais relevantes da eventual classificação promovida pelos Estados Unidos está nas ferramentas que podem ser disponibilizadas para localizar e prender criminosos que permanecem fora do alcance das autoridades brasileiras.

Segundo ele, uma parcela importante das lideranças ligadas ao narcotráfico e às grandes organizações criminosas brasileiras encontra-se radicada em países vizinhos produtores ou corredores de drogas, especialmente Paraguai, Bolívia e Colômbia. Mesmo fora do território nacional, muitos desses criminosos continuam exercendo influência sobre operações realizadas no Brasil.

“Se essas pessoas do Comando Vermelho e do PCC que estão radicadas, homiziadas nesses países, passarem a ser alvos e forem capturadas, você enfraquece a organização criminosa”, afirma.

Captura e bloqueio – Para ilustrar a importância da cooperação internacional, Videira cita casos de grandes traficantes que passaram por Mato Grosso do Sul, mas acabaram estabelecendo suas bases fora do país.

Entre eles estão Gerson Palermo, preso na semana passada na Bolívia e transferido para Campo Grande, e o ex-major da PM Sérgio Roberto de Carvalho, detido na Europa após anos operando uma rede internacional de tráfico de cocaína. Até 2018, quando foi expulso, Carvalho era oficial da PM de Mato Grosso do Sul. Para o secretário, ampliar a capacidade de localizar e capturar criminosos desse porte representaria um avanço significativo no enfrentamento das facções.

O secretário também rejeita avaliações segundo as quais a medida representaria uma ameaça à soberania brasileira. Para ele, os acordos de cooperação entre Brasil e Estados Unidos na área de inteligência e combate ao crime organizado existem há décadas e sempre funcionaram dentro dos limites institucionais de cada país.

Na avaliação de Videira, a ampliação do envolvimento de CIA e Forças Especiais, que assumiram toda a estratégia, não elimina o papel tradicional das agências norte-americanas como DEA e FBI, que mantêm cooperação histórica com as forças de segurança brasileiras. Segundo ele, a participação de instituições norte-americanas em investigações envolvendo tráfico internacional, lavagem de dinheiro e organizações criminosas não é novidade. O que pode ocorrer agora é uma ampliação dos instrumentos disponíveis para localizar criminosos, rastrear ativos financeiros e compartilhar informações estratégicas.

“Eu não tenho medo disso, de soberania. A soberania do Brasil é consolidada. O que a gente tem que ter medo é da impunidade”, afirma.

Para o secretário, o debate não deve se concentrar em disputas ideológicas ou geopolíticas, mas nos resultados concretos que uma cooperação mais intensa pode produzir. Na sua avaliação, se a nova classificação permitir a captura de líderes criminosos escondidos em qualquer parte do mundo, o impacto para a segurança pública brasileira será positivo.

Além das prisões, Videira acredita que a cooperação internacional pode fortalecer o rastreamento patrimonial e o bloqueio de bens adquiridos com recursos provenientes do crime organizado. Segundo ele, o combate financeiro tornou-se uma das frentes mais importantes da atuação estatal contra as facções, justamente porque essas organizações passaram a diversificar investimentos e a utilizar estruturas cada vez mais sofisticadas para ocultar patrimônio e movimentar recursos.

O desafio é dentro do Brasil – Ainda assim, o secretário ressalta que nenhuma medida internacional será suficiente sem mudanças internas. Na sua avaliação, o Brasil precisará discutir atualizações legislativas e aperfeiçoar seus instrumentos de enfrentamento às organizações criminosas.

Videira lembra que o fortalecimento gradual das facções está ligado também à ausência histórica do Estado em áreas consideradas estratégicas. Durante décadas, afirma, a segurança pública ficou em segundo plano diante de outras demandas sociais igualmente importantes, permitindo que organizações criminosas ocupassem espaços deixados pelo poder público.

O mesmo raciocínio, segundo o secretário, pode ser aplicado ao sistema penitenciário brasileiro. Para ele, a falta de investimentos, a escassez de vagas e a ausência de políticas consistentes de ressocialização criaram um ambiente propício para o fortalecimento das facções dentro dos presídios.

Fonte: Campograndenews