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segunda-feira, 25 de maio, 2026

Valêncio De Brum De Coronel – Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx

RESUMO

O presente artigo acadêmico analisa a trajetória político-militar e urbana do Coronel Valêncio de Brum, figura central na consolidação geopolítica da fronteira meridional do antigo estado de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, durante a primeira metade do século XX. Por meio de um levantamento historiográfico apoiado em fontes documentais, arquivos municipais e registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), investiga-se a atuação do biografado em três eixos principais: a fundação do núcleo urbano denominado Patrimônio da União (atual município de Amambai) em 1913; o trânsito administrativo e legislativo entre os municípios de Ponta Porã e Amambai; e a sua inserção nos conflitos agrários derivados do monopólio da Companhia Matte Larangeira e nos levantes da Revolução Constitucionalista de 1932. Conclui-se que a liderança de Valêncio de Brum transcende o fenômeno tradicional do coronelismo de fronteira, configurando-se como um elemento institucional decisivo para a integração espacial e soberania da faixa de fronteira internacional.

Palavras-chave: Coronel Valêncio de Brum. Amambai. Fronteira. Companhia Matte Larangeira. Século XX.

Valêncio De Brum De Coronel - Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx
Imagem Valêncio de Brum.   Em 1913 foi nomeado delegado em Ponta Porã e participou da comissão que pediu uma reserva de terra para o povoado de Amambai. Fez parte da Primeira Câmara de Vereadores de Ponta Porã. (1.913). Em 1915 recebeu a Patente de Tenente Coronel, da guarda Nacional e passou a comandar a 28ª Região de cavalaria, sediada em Bela Vista. Fonte: https://amambaipatrimoniouniao.blogspot.com/2015/07/coronel-valencio-de-brum.html

1. INTRODUÇÃO

A historiografia voltada para a faixa de fronteira entre o Brasil e o Paraguai, especificamente no sul do antigo estado de Mato Grosso, é marcada pela análise de dinâmicas espaciais de isolamento, exploração extrativista e conflitos pela posse da terra. No epicentro dessa conjuntura de transição entre o século XIX e o século XX, emerge a figura do Coronel Valêncio de Brum. Longe de limitar-se ao arquétipo do ‘coronel tradicional’ isolado em seus domínios agropastoris, Brum atuou como um vetor de institucionalização e urbanização em uma região fortemente tensionada pelo poder corporativo e por instabilidades geopolíticas.

Esta pesquisa tem como objetivo investigar a relevância histórica de Valêncio de Brum para a formação do tecido municipal da fronteira sul-matogrossense. Justifica-se a pesquisa pela necessidade de conferir densidade analítica a personagens que, frequentemente, encontram-se reduzidos a meras nomenclaturas de logradouros públicos, desprovidos de seu contexto factual e documental. A metodologia ancora-se no cruzamento de dados secundários da literatura historiográfica regional (UFMS, UFGD, IHGMS) com fontes primárias compostas por atas legislativas, decretos oficiais e censos históricos.

Valêncio De Brum De Coronel - Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx
Imagem Valêncio de Brum. Fonte: https://amambaipatrimoniouniao.blogspot.com/2015/07/coronel-valencio-de-brum.html

2. CAPÍTULO I: GEOPOLÍTICA URBANA E A FUNDAÇÃO DO PATRIMÔNIO DA UNIÃO

Valêncio De Brum De Coronel - Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx

No início do século XX, o território que hoje compreende o município de Amambai integrava os vastos domínios geográficos de Ponta Porã, sob forte influência econômica do monopólio da erva-mate exercido pela Companhia Matte Larangeira. A fixação de populações civis nacionais e o incentivo à pequena propriedade agrícola representavam um desafio soberano para o Estado brasileiro. Nesse cenário, em 1913, o Coronel Valêncio de Brum liderou um movimento de ruptura espacial ao pleitear junto ao Governo do Estado de Mato Grosso a concessão de uma gleba de terras públicas.

Valêncio De Brum De Coronel - Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx
Imagens atas de posse de Valêncio de Brum Em 1930 foi eleito intendente em Ponta Porã assumindo em 25 de outubro de 1930. Fonte: https://amambaipatrimoniouniao.blogspot.com/2015/07/coronel-valencio-de-brum.html


Valêncio De Brum De Coronel - Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx
Imagem fonte: https://amambaipatrimoniouniao.blogspot.com/2015/07/coronel-valencio-de-brum.html
Valêncio De Brum De Coronel - Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx
Imagens atas de posse de Valêncio de Brum Em 1930 foi eleito intendente em Ponta Porã  assumindo  em 25 de outubro de 1930.  Consta com um de seus primeiros atos como intendente de Ponta Porã redução de impostos. Fonte: https://amambaipatrimoniouniao.blogspot.com/2015/07/coronel-valencio-de-brum.html

De acordo com a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 1958), a área concedida reunia aproximadamente 36 hectares, originalmente vinculada à fazenda ‘Posse da Campina’. Este território foi destinado à fundação do povoado denominado Patrimônio da União. A estratégia de Brum visava abrigar colonos, lavradores e migrantes majoritariamente egressos do Rio Grande do Sul, oferecendo uma alternativa de subsistência e fixação demográfica frente às terras camponesas interditadas pelo latifúndio ervateiro. Esse loteamento pioneiro lançou as bases estruturais para o posterior surgimento da Vila União, atual cidade de Amambai.

3. CAPÍTULO II: TRÂNSITO POLÍTICO E INSTITUCIONALIZAÇÃO DA FRONTEIRA

A liderança exercida por Valêncio de Brum operava por canais institucionais formais, interligando os poderes executivo e legislativo da fronteira meridional. Longe de atuar à margem da legalidade republicana, Brum ocupou postos de comando na administração de Ponta Porã antes do desmembramento de seu território. Conforme registros do acervo legislativo da região, o coronel exerceu o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Ponta Porã no ano de 1924, acumulando funções de mediação política local. Posteriormente, durante a década de 1930, atuou na chefia do Poder Executivo daquele município como prefeito intendente pelo período de dez meses.

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Futuros colaboradores da revolução separatista de 1932 em destaque na foto Valencio de Brum. Que foi prefeito por 10 meses de Ponta Porã na década de 1930.

Com a promulgação da Lei Estadual nº 131 de 1948, que oficializou a emancipação político-administrativa de Amambai, Valêncio de Brum consolidou sua importância histórica ao sagrar-se o primeiro prefeito eleito pelo voto popular na municipalidade. Tendo assumido o cargo em 18 de junho de 1949, sua gestão foi responsável por estruturar a máquina fiscal e a infraestrutura básica do novo município. Embora tenha renunciado em 22 de maio de 1950 por motivos de saúde, repassando o comando ao presidente da Câmara, Adolpho Raimundo do Amaral, Brum editou os primeiros diplomas legais da comuna, incluindo a criação das primeiras escolas públicas regionais, transpondo sua vasta experiência legislativa adquirida em Ponta Porã para o novo ordenamento institucional (PREFEITURA MUNICIPAL DE AMAMBAI, 1949).

4. CAPÍTULO III: ECONOMIA ERVATEIRA E APOIO À REVOLUÇÃO DE 1932

A compreensão integral do fenômeno político que envolve Valêncio de Brum exige a análise de sua inserção nas tensões econômicas e militares de Mato Grosso. No plano econômico, o coronel representava os interesses das elites agropastoris locais e dos posseiros nacionais que tensionavam a hegemonia da Companhia Matte Larangeira. Pesquisas desenvolvidas no âmbito da pós-graduação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (CENTENO, 1995) apontam que lideranças locais articulavam frequentes pressões junto ao governo central e estadual visando conter o avanço monopolista da empresa, defendendo ativamente a regularização fundiária fora do circuito da exploração da erva-mate nativa.

No plano militar, a legitimação do título de ‘Coronel’ — oriundo do prestígio social e de antigas estruturas da Guarda Nacional — manifestou-se em momentos de convulsão interna. Em outubro de 1924, Brum recebeu menções honrosas no Boletim Oficial do Regimento de Cavalaria local por sua atuação na preservação da ordem pública da linha de fronteira. Esse alinhamento com as forças republicanas aprofundou-se em 1932, durante a Revolução Constitucionalista. Valêncio de Brum é referenciado pela historiografia regional (LIMA, 1978) como um dos esteios logísticos e civis que apoiaram as frentes revolucionárias constitucionalistas no sul do estado. Sua influência foi crucial para a mobilização de contingentes, suprimentos e controle estratégico das vias fluviais e terrestres adjacentes aos rios Apa, Amambai e Iguatemi, garantindo a retaguarda das forças que combatiam a ditadura getulista.

5. ANÁLISE DOS FATOS E DISCUSSÃO

A análise cruzada das fontes documentais e bibliográficas permite desmistificar a imagem puramente folclórica do coronelismo de fronteira. Valêncio de Brum operou como um modernizador do espaço e das instituições fronteiriças. Ao promover o loteamento de terras em 1913, ele se antecipou às políticas estatais de colonização agrícola que ganhariam força apenas décadas mais tarde, sob a Marcha para o Oeste do governo de Getúlio Vargas. O ‘Patrimônio da União’ constituiu, fundamentalmente, um polo de resistência demográfica nacional frente à forte presença estrangeira e corporativa que caracterizava a fronteira paraguaia.

A tabela a seguir sintetiza os eixos analíticos de sua atuação histórica e as respectivas fontes documentais validadas pelas agências de pesquisa e institutos historiográficos:

Eixo de AtuaçãoImpacto Histórico-EspacialFontes Vinculadas
Geopolítica UrbanaDoação de 36 hectares em 1913; criação do Patrimônio da União para colonos rurais.Enciclopédia dos Municípios (IBGE, 1958); Dias (2015).
InstitucionalizaçãoPresidente da Câmara de Ponta Porã (1924) e Primeiro Prefeito Eleito de Amambai (1949).Atas da Câmara de Ponta Porã; Arquivos Municipais de Amambai.
Militarismo e DefesaLogística na Revolução de 1932; contenção do avanço da Cia. Matte Larangeira.Dissertação UFMS (Centeno, 1995); IHGMS (Lima, 1978).

6. CONCLUSÃO

O estudo analítico sobre o Coronel Valêncio de Brum demonstra que sua trajetória confunde-se com a própria história da estruturação urbana e jurídica do sul de Mato Grosso do Sul. Atuando como concessionário de terras públicas, parlamentar, administrador público e articulador militar, Brum preencheu os vazios de poder institucional que caracterizavam as fronteiras secas do Brasil no início do século XX. O legado do personagem permanece materializado na Praça Central de Amambai, marco geodésico de sua visão de ordenamento territorial. Sua inclusão definitiva nos referenciais teóricos da historiografia regional consolida-se como medida necessária para a compreensão científica das forças sociais, econômicas e políticas que moldaram a identidade e a soberania da fronteira sul-matogrossense.

REFERÊNCIAS

CÂMARA MUNICIPAL DE PONTA PORÃ. Galeria Histórica de Presidentes do Poder Legislativo. Acervo Documental da Câmara Municipal, Ponta Porã, MS, 1924.

CENTENO, Carla Villamaina. Educação e Fronteira com o Paraguai na Historiografia Matogrossense (1910-1930). Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, 1995.

DIAS, Albertino Fachin. Amambai: patrimônio união de um povo. Campo Grande: Edição do Autor, 2015.

IBGE. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Volume XXXVI. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1958.

LIMA, Astúrio Monteiro de. A Erva-Mate e a Fronteira: História e Conflitos. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS), 1978.

PREFEITURA MUNICIPAL DE AMAMBAI. Livro de Atas de Posse e Atos Oficiais do Poder Executivo (Gestão 1949-1950). Acervo da Secretaria de Gestão Pública, Amambai, MS, 1949.

Valêncio De Brum De Coronel - Político: A Consolidação Da Fronteira Sul-Mato-Grossense: Política, Urbanização E Conflito No Século Xx
Pesquisa: Prof. Me. Yhulds G. P. Bueno. Historiador registro 0000037/MS, Membro da ABROL Academia Rotaria de Letras de MS. Com mais 30 anos de atuação na docência da Rede Pública e Privada. Formado em Educação Física, Formação Pedagógica e Licenciatura em História. Mestre em Desenvolvimento Regional e de Sistemas Produtivos; Pós-Graduado em Metodologia do Ensino de História e Geografia; Pós-graduado: Docência em Biblioteconomia; Pós-Graduado: Ensino de História. Membro associado do Rotary Club Ponta Porã Pedro Juan Caballero Guarani – Distrito 4470