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segunda-feira, 19 de outubro, 2026

Veganismo: por que há cada vez mais adeptos desse estilo de vida?

20/03/2018 16h

Compaixão pelos animais, questões ambientais e a busca por uma alimentação saudável trouxeram o movimento para o centro das conversas

Casa Vogue

O que celebridades como Paul McCartney, Yoko Ono, Miley Cyrus, Ellen Degeneres, Serena Williams e alguns dos craques da NBA, como Kyrie Irving e Javale McGee, têm em comum? Afora a fama planetária, nenhum deles consome produtos de origem animal, ou que envolvam a exploração de bichos durante a sua fabricação. O número de adeptos ao veganismo cresce vertiginosamente – só no Reino Unido foi registrado um aumento de mais de 350% nos últimos dez anos – e tudo indica que continuará a subir. O que explica o fenômeno?

São duas as causas que lideram o boom desse estilo de vida em escala global: o meio ambiente e a saúde. “Estamos, faz tempo, no ‘cheque especial’ da Terra”, comenta Adriana Charoux, integrante do Greenpeace à frente dos projetos Desmatamento Zero e Carne ao Molho Madeira, sobre o esgotamento dos recursos naturais. “Isso ameaça a população e não temos um planeta B”, diz. De acordo com números da ONG, no Brasil, a pecuária está diretamente ligada à destruição de biomas essenciais, como a Amazônia, com4,1 milhões de km² de floresta (49% do território nacional). Por lá, os 70 milhões de hectares para criação de gado representam 60% do terreno já desmatado. A maior parte dos bois é criada de maneira extensiva. “As pastagens são formadas sobre antigas áreas de vegetação nativa, o que significa tornar um local que comportava uma grande biodiversidade em um terreno de capim, soja ou milho, habitado por uma única espécie”, esclarece o biólogo Sérgio Greif, especialista em gestão ambiental. “A transformação de florestas em pasto altera o ciclo dos nutrientes, evitando que o esterco seja incorporado ao solo, o que faz ele virar poluição”, diz. Segundo dados do Greenpeace, os gases emitidos por bovinos representam62%do efeito estufa no Brasil. “Menos floresta implica em menos chuva, menos produção de alimentos e menos rios saudáveis”, comenta Adriana. Como desmatamento, “a cada ano, entre 10 e 100 mil espécies entram em extinção – não há como reverter a perda deste patrimônio genético”, complementa Sérgio.

Se a situação nas florestas é preocupante, a vida marinha também está severamente prejudicada. Conforme a Food and Agriculture Organization (FAO), da ONU, 52%do território marinho está totalmente explorado. Só nas sete zonas de pesca da América Latina são retirados do Atlântico Sul 7 milhões de peixes por ano. O problema é que as redes não capturam apenas eles, mas outros animais que não servem para o consumo – 30% das espécies de tubarões e raias estão globalmente ameaçadas de extinção. E as criações em cativeiros, por sua vez, não trazem muitas vantagens. Nas chamadas “bacias” de água, os peixes são alimentados com ração de frango em lugar de algas (fonte de ômega 3) e, por falta de manutenção, não raro os animais nadam em meio às próprias excreções.

Se a questão ambiental dá motivos para repensar os hábitos alimentares, outros estudos comprovam que a chamada dieta plant-based é melhor para o organismo, podendo reverter doenças crônicas não transmissíveis.

“Sem cortar carboidratos ou contar calorias, uma alimentação à base de plantas reduz a glicose no sangue, ajuda na perda de peso e reduz os riscos cardiovasculares com mais eficácia”, afirma o médico Michael Greger, figura carimbada de documentários como Cowspiracy e What the Health, que tratam do tema. Ele ainda ressalta o poder de uma nutrição saudável nos casos de distúrbios mentais. Uma pesquisa de Bonnie Beezhold, publicada no Nutrition Journal, aponta que os pacientes que seguiram a dieta vegetariana estrita apresentaram menor tensão, ansiedade, depressão, raiva e fadiga. A mastologista Karla Santone também cita que “o consumo de produtos de origem animal pode impulsionar as chances de uma pessoa ter câncer, porque a proteína animal aumenta a proliferação celular, inclusive das células cancerosas”.

Para além da prevenção de muitos males, a nutricionista Alessandra Luglio garante que a dieta vegetariana estrita saudável (livre de produtos processados) oferece todos os nutrientes que uma pessoa precisa. Inclusive proteínas? “As proteínas são formadas por aminoácidos, aqueles que nosso corpo não produz, ou seja, precisamos consumir. Todos os aminoácidos essenciais estão presentes no reino vegetal, de onde os animais os retiram. Os alimentos mais ricos nesse nutriente são as leguminosas – feijão, grão-de-bico, lentilha – e as sementes de abóbora e gergelim.” Alessandra comenta que o hábito alimentar ocidental baseado na proteína animal costuma ser exagerado na quantidade diária, e seu excesso é prejudicial à saúde. Em relação ao cálcio, outra preocupação de quem quer deixar de consumir leite e derivados, um estudo de Karl Michaëlsson, publicado em 2014 pela The BMJ, diz que ele não é decisivo na prevenção da osteoporose, e os países com maior consumo de produtos lácteos apresentam maior incidência da doença. “Nós conseguimos absorver apenas 32% do cálcio presente no leite, mas em vegetais verdes-escuros ele ultrapassa 60%”, explica a nutricionista. Espinafre, brócolis, tofu, chia e aveia estão entre os indicados, mas o gergelim (em forma de semente ou tahine) é a fonte mais rica de cálcio no reino vegetal. Opções, como se vê, não faltam.

No Brasil, são mais de 240 restaurantes vegetarianos e veganos. Como boom do movimento, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) disponibiliza a consultoria OPÇÃO VEGANA para outros estabelecimentos incrementarem o cardápio com pratos (principais e sobremesas) sem animais ou derivados.

Fundada em 2009, a BEYONDMEAT está conquistando os EUA ao fornecer alimentos proteicos à base de plantas. O destaque é o Beyond Burguer, composto por vegetais e feito para ser idêntico ao de origem animal. Em matéria de sabor, textura, cheiro e aparência, sem soja, glúten ou transgênicos. A lista de investidores da firma conta com Bill Gates, Leonardo DiCaprio e Don Thompson, ex-CEO do McDonald’s

Foto: Divulgação