Desde 2024, transtornos mentais figuram entre as principais causas de afastamento laboral no país.
O Janeiro Branco foi criado em 2014, em Uberlândia (MG), pelo psicólogo Leonardo Abrahão, com o objetivo de discutir a importância da saúde mental e emocional, transformando o silêncio em diálogo, e rapidamente se expandiu pelo Brasil, ganhando reconhecimento legal em 2023. Com avanço dos casos de adoecimento mental, que aumentam ano após ano, os debates sobre o tema têm sido cada vez mais frequentes.
Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam que os benefícios por incapacidade temporária associados à saúde mental no trabalho mais do que dobraram no último biênio, passando de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024 (aumento de 134%). Desde então, os transtornos mentais figuram entre as principais causas de afastamento laboral no Brasil.
Entre os casos de afastamento registrados, destacam-se afastamentos acidentários por reações ao estresse (28,6%), ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8,46%). Quanto aos afastamentos em geral, destacam-se como predominantes os episódios depressivos (25,6%), a ansiedade (20,9%) e a depressão recorrente (12,0%).
Para a coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Insted, em Campo Grande, professora Avany Cardoso Leal, o aumento dos transtornos mentais está relacionado a múltiplos fatores.
“Vivemos um contexto marcado pelo excesso de telas, pelas redes sociais e pela cultura da comparação constante, o que impacta diretamente a autoestima. Soma-se a isso a instabilidade financeira, a insegurança no trabalho e a exigência por uma performance cada vez mais elevada, que gera exaustão emocional”, explica.
Segundo a professora, as transformações no mundo do trabalho também contribuem para esse cenário. “Hoje, muitas pessoas saem do ambiente profissional, mas o trabalho não sai delas. As cobranças continuam fora do horário de expediente, por meio de mensagens, e-mails e notificações, o que dificulta o descanso mental”, destaca.
Setores
A participação percentual de diferentes setores econômicos nos afastamentos por incapacidade temporária acidentárias se alterou significativamente ao longo da série histórica. Ilustrativamente, bancos múltiplos, com carteira comercial, partiram de 9,3% do total em 2012 para alcançar 20% do total de afastamentos acidentários em 2024.
Já o setor de comércio varejista de mercadorias (hipermercados e supermercados) passou de 3.9% em 2012 para 5.6% do total em 2024.
As atividades de atendimento hospitalar também se destacam nesse aumento da participação, partindo de 1,2% do total em 2012 para 10,2% em 2024.
Prevenção
A Norma Regulamentadora n.º 1 do Ministério do Trabalho e Emprego foi atualizada em agosto de 2024 para incluir a obrigatoriedade de avaliação de riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). O prazo definido para que as empresas se adequem à portaria é 25 de maio de 2026.
A mudança destaca que riscos psicossociais, como estresse, assédio e carga mental excessiva devem ser identificados e gerenciados pelos empregadores como parte das medidas de proteção à saúde dos trabalhadores.
“As empresas têm que investir em comunicação, feedback, lideranças empáticas, treinamento de liderança, trabalhar a questão da empatia, do trabalho em equipe através de workshops, dinâmicas, ergonomia, adaptação de todo o ambiente de trabalho para favorecer a saúde física e mental do trabalhador”, pontua a professora Avany Cardoso Leal.
Fonte: Correio do Estado

