Quando a isenção do IR vira armadilha para quem tem mais de um emprego, por Gilmar Hernandes

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A alteração na tabela do Imposto de Renda, que ampliou a isenção para quem recebe até R$ 5 mil mensais, foi anunciada pelo governo federal como um avanço social. Para milhões de brasileiros com apenas uma fonte de renda, a medida traz alívio imediato no orçamento a partir deste ano.

O problema é que essa “isenção” não funciona da mesma forma para todo mundo. Para quem trabalha em mais de um lugar – como acontece no caso de muitos professores -, ela pode virar uma armadilha silenciosa.

Isso ocorre por causa da forma como o imposto é calculado. A isenção de até R$ 5 mil é aplicada por fonte pagadora, ou seja, cada escola faz o cálculo separadamente. Na prática, um professor que recebe R$ 4,2 mil em um turno de uma escola e mais R$ 3,3 mil em outro turno, em outra instituição, pode passar o ano inteiro sem ter um centavo de Imposto de Renda descontado no contracheque. À primeira vista, parece ótimo.

O susto vem depois. Na declaração anual de 2027, quando todas as rendas serão somadas, o sistema mostra a conta real. É nesse momento que o imposto aparece – muitas vezes alto, e cobrado de uma só vez. Não se trata de erro da Receita Federal nem falha das escolas. É simplesmente a regra do jogo tributário, que muita gente desconhece.

A lógica da isenção foi pensada para proteger quem ganha menos, mas acaba atingindo igualmente quem precisa dividir a jornada entre duas ou até três instituições para complementar a renda. O imposto que não foi cobrado ao longo do ano surge concentrado em um único boleto, quando o contribuinte menos espera.

Por isso, é importante deixar claro: isenção na folha de pagamento não significa isenção de imposto no ano. O Imposto de Renda é progressivo e leva em conta o total recebido. Ignorar esse método pode resultar em endividamento inesperado, uso de cartão de crédito ou empréstimos para pagar imposto e até problemas com o fisco.

A boa notícia é que o ano está só começando e ainda é possível evitar esse cenário. Reservar mensalmente uma parte da renda, fazer simulações simples e buscar orientação profissional ajudam a chegar ao período da declaração sem surpresas. Olhar apenas para o contracheque pode ser um engano.

Gilmar Hernandes, professor auxiliar de Ciências Contábeis da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB),com MBA em Finanças, auditoria e controladoria e especialização em Design Educacional.