Por que me tornar “inútil” para os meus filhos pode ser um ato de amor? Por Psicopedagoga Juliana Rauzer

Caros leitores,

Escolhi este tema porque, no meu dia a dia, tanto na vida profissional quanto na pessoal, observo inúmeras famílias com dificuldades em estimular e orientar seus filhos. Vejo essa realidade com bebês, crianças pequenas, crianças maiores e até adolescentes. E, pasmem, muitas das dificuldades que alguns adultos enfrentam hoje têm origem em coisas simples que não foram bem estimuladas na infância.

A família está absolutamente certa ao querer proteger seu novo membro. Sair da maternidade e olhar para aquele serzinho tão indefeso desperta em nós, pais, um sentimento profundo de missão, cuidado e amor incondicional. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, fala sobre esse instinto de proteção parental como algo essencial para o desenvolvimento emocional saudável da criança, especialmente nos primeiros anos de vida.

O problema começa quando, com o passar do tempo, alguns adultos têm dificuldade de “desmamar” essa criança emocionalmente e passam a fazer muito mais do que ela realmente precisa. Maria Montessori já alertava que ajudar a criança em tudo aquilo que ela já é capaz de fazer sozinha é um obstáculo ao seu desenvolvimento. Quando damos comida na boca de uma criança de dois anos, por exemplo, estamos podando oportunidades valiosas de desenvolvimento motor, coordenação, autonomia e até autorregulação.

Quando vestimos uma criança de quatro anos que já poderia tentar se vestir sozinha, impedimos o fortalecimento da coordenação motora fina, da organização espacial, da percepção corporal e da autoconfiança. Vestir-se sozinho estimula planejamento, sequência lógica, lateralidade e senso de responsabilidade.

O mesmo acontece quando guardamos os brinquedos porque a criança não quer juntar. Mas quem é o adulto da relação? Quando a criança nega ou não realiza uma tarefa, a falha não está nela, pois ela ainda está em processo de desenvolvimento das funções executivas, como controle inibitório, planejamento e persistência. A responsabilidade é do adulto, que precisa estabelecer combinados claros e uma rotina estruturante.

A rotina é um elemento fundamental no desenvolvimento infantil. Segundo Vygotsky, é por meio da mediação do adulto e da organização do ambiente que a criança internaliza regras, comportamentos e aprendizagens. A rotina dá segurança, previsibilidade e favorece o desenvolvimento da autonomia.

“Tornar-se inútil” aqui é apenas um jeito irônico de dizer: família, deixe a criança crescer. Deixe colocar o tênis trocado, a camisa virada, a louça fora do lugar. É assim que ela constrói autonomia, senso crítico, capacidade de correção e aprendizado por tentativa e erro.

A criança começa a desenvolver noções matemáticas muito antes da escola quando é estimulada a dobrar roupas, separar meias de cuecas, abrir e fechar gavetas. Nessas ações simples, ela trabalha classificação, seriação, correspondência, noção de quantidade, espaço e sequência lógica. Esses estímulos podem e devem começar por volta dos dois anos de idade.

Da mesma forma, a alfabetização não começa no primeiro ano escolar. Ela se inicia muito antes, com experiências sensoriais, contato com livros, coordenação motora fina, percepção visual, consciência corporal e linguagem oral. A coordenação motora fina, essencial para segurar o lápis, deve ser estimulada desde cedo com atividades como massinha, rasgar papel, encaixes, pintura com giz grosso adaptado à idade, brincadeiras de pinça e manipulação de objetos pequenos.

É claro que algumas crianças chegam ao primeiro ano escolar com dificuldades na escrita ou no desenho não por falta de estímulos, mas por apresentarem algum transtorno ou dificuldade específica. Porém, infelizmente, a grande maioria das dificuldades está relacionada à falta de autonomia.

Ouço com frequência justificativas como: “Eu dou comida na boca porque senão não come”, “Eu coloco a roupa porque estou com pressa”, “Eu carrego a mochila porque tenho pena”, “Eu escovo os dentes porque ele não sabe direito”. Mas como a criança vai aprender se as oportunidades são constantemente podadas?

Deixe errar. Deixe fazer torto. Deixe fazer pela metade. Organize-se para sair um pouco mais cedo, chegue um pouco atrasado se necessário, mas deixe a criança tentar.

Crianças estimuladas desde cedo costumam se destacar com desenhos mais elaborados, melhor coordenação, maior autonomia, mais segurança emocional e maior capacidade de resolver problemas.

Alguns pais dizem: “Tenho medo de dar tesoura”, “Tenho medo de dar faca”, “Tenho medo de deixar fazer sozinho”. Esse medo excessivo limita experiências essenciais. O ambiente deve ser seguro, mas não estéril. A superproteção atrapalha o desenvolvimento.

Mas fica a reflexão: você não tem medo de seu filho crescer e se tornar um adulto dependente de você?

Fazer tudo por um filho pode parecer amor, e muitas vezes é. Mas fazer aquilo que a criança já tem condições de fazer sozinha é desrespeito ao seu desenvolvimento. Com todo carinho, isso não ajuda, isso atrapalha. As consequências aparecem na vida adulta na forma de insegurança, baixa autoestima, dificuldade de tomar decisões, dependência emocional e dificuldade de lidar com frustrações.

Este texto não é uma crítica, mas um alerta. Jean Piaget nos ensina que as crianças passam por estágios de desenvolvimento e cada um deles precisa ser respeitado, apoiado, mas nunca substituído pela intervenção excessiva do adulto quando a criança já pode agir sozinha.

Não se sintam culpados. Errar faz parte. Sou mãe e, muitas vezes, também me vi agindo de forma inadequada. Filhos não vêm com manual de instruções. O mais importante é não persistir no erro e vigiar nossas atitudes para não fazer pela criança aquilo que ela já pode fazer sozinha.

O que as crianças já podem fazer sozinhas, por idade:

1 ano:

– Ajudar a colocar a fralda no lixo

– Guardar brinquedos com ajuda

– Segurar a colher

– Levar objetos simples para um adulto

2 anos:

– Comer sozinho

– Guardar brinquedos

– Ajudar a colocar a mesa

– Jogar lixo no lixo

– Escolher entre duas opções de roupa

3 anos:

– Vestir partes simples da roupa

– Guardar materiais após usar

– Lavar as mãos com supervisão

– Ajudar em pequenas tarefas domésticas

4 anos:

– Vestir-se sozinho

– Arrumar a mochila

– Estender a própria cama

– Guardar roupas

– Ajudar a organizar o quarto

5 anos:

– Tomar banho com supervisão

– Escovar os dentes

– Ajudar no preparo de alimentos simples

– Organizar materiais escolares

– Cumprir pequenas responsabilidades

6 anos:

– Preparar a mochila

– Organizar o próprio quarto

– Ajudar em tarefas domésticas

– Cuidar de seus objetos

– Seguir rotinas com mais autonomia

7 anos em diante:

– Realizar tudo o que já fazia antes, assumindo pequenas responsabilidades progressivas, sempre adequadas à idade.

No meu eBook Reflexões sobre Atividades Lúdicas em Tempos de Pandemia, disponível na Amazon, trago muitas outras sugestões de estímulos, inclusive para adolescentes.

Encerro por aqui esperando contribuir para o desenvolvimento da sua criança. Essa é, sinceramente, a minha única intenção.

Para mais conteúdos, me siga no Instagram @psicopedagoga_julianarauzer.

Até a próxima!