‘Boom’ da celulose expulsa moradores e aluguel salta para mais de R$ 3 mil em Inocência 

(Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

A oferta de moradia, que já era limitada, passa por um cenário crítico.

A chegada da indústria da celulose a Inocência, no interior de Mato Grosso do Sul, provocou altas superiores a 100% no preço do aluguel, além de pressionar o mercado imobiliário no município, distante 328 quilômetros de Campo Grande.

A oferta de moradia, que já era limitada, passa por um cenário crítico, e a prefeitura municipal já estima a necessidade de, ao menos, mil moradias para reequilibrar a oferta e conter o avanço do déficit habitacional. 

Os aluguéis elevados, somados ao aumento no custo de vida, impulsionam, ainda, um processo de gentrificação. Conforme apurado pela reportagem ouvindo relatos de populares, locadores passaram a pedir os imóveis aos locatários, para que pudessem recolocá-los no mercado a preços mais elevados.

Fugindo do aluguel caro

Sem condições de custear um aluguel mais caro, muitos moradores migraram para áreas menos valorizadas ou cidades vizinhas, como Três Lagoas, Cassilândia e Selvíria. 

A secretária Flávia de Souza da Silva Ramos, de 39 anos, foi impactada pelo fenômeno. Ela relata que residia em um imóvel, cujo aluguel já era alto, no valor de R$ 2 mil. No entanto, antes de vencer o contrato, o proprietário pediu a residência.

Desta forma, sem condições de arcar com os novos valores praticados no mercado, ela precisou se mudar com o filho. A expectativa da secretária é ser contemplada com uma casa popular, quando os projetos da prefeitura, em parceria com o Governo do Estado, saírem do papel. 

‘Boom’ da celulose expulsa moradores e aluguel salta para mais de R$ 3 mil em Inocência 
Flávia relata percalços e expectativas do ‘boom’ da celulose. (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

“Hoje eu pago 800 reais de aluguel numa casinha de tábua, mas estou tendo muita dificuldade, porque ela molha bastante e já perdi minha mobília. Infelizmente, quando a chuva vem, eu tenho que tá correndo pra lá e pra cá, pra tá tirando os móveis. Meus filhos nunca moraram assim, é a primeira vez que a gente tá passando por isso, pelo fato de que a gente não tem condição de alugar uma casa. Hoje eles tão pedindo até dez mil reais de aluguel”, expõe Flávia. 

O mesmo ocorreu com o pai da empresária Larissa Makye e com a antiga cozinheira do restaurante que ela administra. “Meu pai mexe com umas obras aqui na cidade, e ele tem uma casa alugada. Recentemente pediram para ele entregar a casa, porque vai subir o aluguel. A mesma coisa aconteceu com uma funcionária minha. Pediram para ela sair da casa, porque vão aumentar, então ela foi embora da cidade porque não consegue arcar com os custos. Acabei perdendo a funcionária.” 

Aluguel dispara com alta de 100%

O mercado imobiliário do município vivencia um cenário de forte aquecimento, impulsionado antes pela expectativa, e agora pelos efeitos concretos da implantação da indústria. A busca por imóveis e lotes registrou crescimento contínuo nos últimos três anos e, atualmente, atinge níveis considerados “críticos”. 

Conforme o administrador de uma empresa do ramo imobiliário em Inocência, Leandro Rigonato, as demandas atingem diversos perfis: há procura por casas para famílias que chegam à cidade em busca de oportunidades de trabalho; salões comerciais; e propriedades rurais próximas a rodovias, utilizadas principalmente para construção de alojamentos. 

Além disso, houve aumento significativo nos valores praticados no mercado imobiliário: o aluguel saltou mais de 100%. Imóveis residenciais, antes encontrados por R$ 700, hoje em dia custam, no mínimo, R$ 3 mil mensais. “Hoje você não aluga uma casa com dois quartos, sala e cozinha por menos desse valor.”

Imóveis e lotes à venda também sofreram uma supervalorização. Há cerca de dois anos, as negociações de casas tinham valores entre R$ 300 mil e R$ 350 mil. Atualmente, esse valor saltou para R$ 700 mil, conforme o padrão e a localização. 

‘Boom’ da celulose expulsa moradores e aluguel salta para mais de R$ 3 mil em Inocência 
Profissional do ramo imobiliário em Inocência, Leandro Rigonato. (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Cidade precisa de mil moradias para sanar déficit habitacional 

Embora existam áreas em planejamento para expansão urbana, a oferta ainda é insuficiente diante da demanda crescente por casas e lotes. Segundo o prefeito da cidade, Antônio Ângelo Garcia dos Santos, o Toninho da Cofapi (PP), é necessária a construção de, pelo menos, mil casas para solucionar o déficit habitacional. 

Conforme o prefeito, atualmente, o maior desafio do município é sanar a falta de moradia. “As pessoas chegaram, alugaram as casas para fazer alojamento, e isso tirou as famílias que eram de Inocência, [eles foram] morar em outras cidades. Também teve um impacto muito grande na saúde, assistência social, educação, então hoje nós estamos trabalhando para tentar minimizar esses problemas ao máximo.”

‘Boom’ da celulose expulsa moradores e aluguel salta para mais de R$ 3 mil em Inocência 
Prefeito de Inocência, Antônio Ângelo Garcia dos Santos, o Toninho da Cofapi (PP). (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

A Prefeitura vai construir cerca de 200 casas em parceria com o Governo do Estado e 70 com recursos municipais. Além disso, três loteamentos já estão com projetos em fase de registro em cartório, o que deve ampliar a oferta de imóveis nos próximos meses.

Assim, a Arauco também se comprometeu a construir cerca de 620 casas para os funcionários da fábrica. “Nós vamos entrar com 40% dos recursos, e o Estado entra com 60%, para essa área de 200 casas. Ainda sobram 350 lotes para a gente buscar parcerias junto ao Governo Federal.”

“A especulação imobiliária começou no dia 22 de junho de 2022, quando lançou a fábrica. Explodiram os custos de vida na cidade, preços de terreno, propriedade rural, tudo isso triplicou. Mas isso vai melhorar a partir dessas habitações [previstas para serem construídas pela Arauco] e de casas populares e também do loteamento que está chegando”, finaliza o prefeito. 

Fonte: Midiamax